Os chefes dourados do Panamá
A escavação de um cemitério milenar revelou tumbas de poderosos guerreiros adornados com objetos de ouro. Uma das descobertas mais ricas das Américas nas últimas décadas, o sítio pode trazer informações novas de uma cultura pouco conhecida
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Pingente em formato de cabeça humana
David coventry
<p> A escavação de um cemitério milenar revelou tumbas de poderosos guerreiros adornados com objetos de ouro.</p>
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Face humana em jarro de cerâmica
David Coventry
<p> O bico de um jarro de cerâmica têm os traços faciais humanos. Os nítidos padrões geométricos que acentuam as feições talvez remetam a tatuagens, que provavelmente indicavam a importância da pessoa.</p>
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Pingente em forma de morcego com duas cabeças
David Coventry
<p> Medindo 2,5 centímetros, o morcego com duas cabeças era um pingente de ouro que estava no pescoço de um dos guerreiros enterrados ao lado do chefe. </p>
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Pingente do chefe do sítio Conte
David Coventry
<p> Pingentes em forma de animais, como o morcego com duas cabeças e o falcão de pedra, enfeitavam o morto. Já o pingente de um chefe do sítio Conte (foto), incrustado com esmeralda, representa um animal imaginário.</p>
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Pingente de falcão
David Coventry
<p> Em forma de falcão, um pingente de pedra medindo pouco mais de 5 centímetros foi encontrado em meio a outros objetos na sepultura de um dos chefes. Provavelmente estavam todos em um saco de tecido que há muito se desintegrou.</p>
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Estátuas da praça de El Canõ
David Coventry
<p> Estas estátuas ficavam na praça de El Caño. O fragmento à esquerda mostra um prisioneiro de guerra prestes a ser sacrificado – as mãos estão atadas às costas do corpo sentado, agora sem cabeça. </p>
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Crânio encontrado em El Canõ
David Coventry
<p> O único crânio intacto achado em El Caño, já embalado para ser levado ao laboratório, pertencia a alguém sacrificado para acompanhar um dos chefes no além. A cabeça apresenta um ângulo anômalo em relação ao corpo, talvez uma indicação de fratura no pescoço. </p>
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O tesouro de um terceiro chefe guerreiro
David Coventry
<p> O tesouro de um terceiro chefe guerreiro fica exposto à beira do poço durante a temporada de escavação em 2011. Enterrado em um saco, contém um pingente com esmeralda, um falcão entalhado em pedra escura, brincos parecidos com chapéus, duas misteriosas estatuetas douradas, uma rã de pedra com ponta de ouro, e um minúsculo sino no formato de uma cabeça de pecari (sobre o broche redondo no canto inferior direito).</p>
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Dois novos pingentes encontrados
David Coventry
<p> Num dos guerreiros sepultados juntamente com o chefe foram encontrados dois pingentes: uma pedra incrustada em ouro em forma de colmilho, com cerca de 5 centímetros; e uma figura humana de cabeça dupla, com quase 2 centímetros, segurando uma trombeta de concha.</p>
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Sineta em formato de porco
David Coventry
<p> Do cabo ao focinho, a sineta dourada de um chefe mede cerca de 2,5 centímetros. Ela emite um débil sussurro quando a bolinha é sacudida no interior da boca do pecari.</p>
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Escavação revela tubmas de guerreiros poderosos
David coventry
<p> A escavação de um cemitério milenar revelou tumbas de poderosos guerreiros adornados com objetos de ouro </p>
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Minusculas estatuetas de ouro e resina
David coventry
<p> Duas minúsculas estatuetas de ouro e resina foram achadas sobre a mandíbula inferior. Uma estatueta similar, com mãos de ouro, foi enterrada com o chefe, cuja ossada há muito se decompôs devido a inundações sazonais. </p>
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Tesouros pessoais do chefe
David coventry
<p> O tesouro pessoal de um dos chefes incluía um pingente de cavalomarinho, brincos, parte de um peitoral, colar e broches. As relíquias estavam guardadas em uma bolsa adornada com contas. </p>
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Rio sinuoso corta os canaviais de El Caño
David Coventry
<p> Um rio sinuoso corta os canaviais de El Caño. As margens do curso d’água, talvez consideradas sagradas pelos povos antigos cuja história apenas agora está sendo revelada, podem abrigar muitas outras sepulturas. </p>
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Adornos das pernas de um chefe guerreiro
David Coventry
<p> Trabalhando noite adentro, a perita em metais Kim Cullen Cobb desenha as 389 contas douradas que antes protegiam e adornavam as pernas de um chefe guerreiro. Com frequência, é assim que são registrados os achados em excavações arqueológicas. “A gente vai entendendo o objeto à medida que o remonta peça por peça”, comenta Cobb. “O processo revela padrões que de outro modo talvez não se mostrassem tão evidentes.”</p>
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Julia Mayo se junta a escavação
David coventry
<p> Responsável pela escavação, Julia Mayo, à esquerda, junta-se à equipe para a retirada do peitoral de um dos chefes guerreiros. A água do lençol freático infiltrou-se no túmulo, situado a uma profundidade de quase 5 metros.</p>
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Descoberta de ornamentos de ouro em El Canõ
David coventry
<p> Dirigida pela arqueóloga Julia Mayo (de pé, à esquerda), a equipe exuma, em El Caño, ornamentos de ouro da sepultura de um chefe 4,8 metros abaixo do nível do solo. Ao fundo, a camada intermediária de uma segunda tumba. </p>
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Monolito em El Canõ
David coventry
<p> Perto do cemitério de El Caño encontram-se monólitos com quase 2 metros de altura. É possível que prisioneiros de guerra fossem atados a eles antes de ser sacrificados e enterrados, em funerais com festas e danças. </p>
No meio de uma campina crestada de sol na região central do Panamá, os objetos de ouro são retirados da terra com tanta rapidez que a arqueóloga Julia Mayo quase chega a implorar: “Parem, parem!” Embora tivesse destinado anos de trabalho para chegar a esse momento tão esperado, de repente aquilo tudo era demais para a pesquisadora.
Com a intenção de obter novos indícios de uma antiga sociedade que começara a estudar na época de faculdade, Julia e sua equipe decidiram, em 2005, realizar levantamentos geofísicos na localidade panamenha de El Caño, assim chamada por causa de uma queda-d’água na região. Nas sondagens, a equipe conseguiu identificar um círculo de túmulos havia muito esquecido.
Em 2010, a arqueóloga e seus colegas cavaram ali um poço com 5 metros de profundidade e recuperaram os restos mortais de um chefe guerreiro recoberto de adornos de ouro – dois peitorais entalhados, quatro braçadeiras, um bracelete com sinetas, um cinto de contas ocas de ouro, 2 mil pequenas esferas dispostas como se antes estivessem costuradas em um cinturão e centenas de contas tubulares que formavam um padrão em ziguezague recobrindo uma das pernas. Tudo isso já seria uma descoberta sensacional, mas na verdade não passava do começo da história. Julia Mayo descobrira um tesouro extraordinário.
No ano passado, sua equipe voltou ao sítio durante a estação seca, de janeiro a abril, e exumou outra sepultura que se mostrou tão opulenta quanto a primeira. Dois peitorais de ouro, um frontal e outro dorsal, quatro braçadeiras e uma reluzente esmeralda não deixavam a menor dúvida quanto à importância de seu ocupante. Ao lado dele havia um bebê também ataviado de ouro – talvez o filho do potentado. Sob os restos mortais de ambos foi encontrada uma camada de esqueletos humanos emaranhados, que, acreditase, eram escravos ou prisioneiros de guerra sacrificados. Testes de carbono 14 situaram o sepultamento por volta do ano 900 – ou seja, na época em que a civilização maia, 1,3 mil quilômetros a noroeste, começava a declinar.
Mal a equipe teve tempo de catalogar os novos achados e outro conjunto de objetos de ouro foi identificado. Reluzentes nas paredes do poço, os artefatos assinalavam os limites de mais quatro túmulos. Ao examinar o local, a arqueóloga não teve como reprimir o espanto. “Eu não conseguia falar nada – fiquei atônita, mas também preocupada”, recorda-se. Como a temporada das chuvas estava prestes a começar, técnicos e cientistas tiveram de apressar-se a fim de retirar todo o tesouro antes que a cheia de um rio próximo inundasse o sítio. Além disso, a arqueóloga sabia que, se corresse pela região a notícia da descoberta, logo surgiriam saqueadores na área.
Esse não foi o primeiro tesouro arqueológico encontrado no Panamá. A 3 quilômetros do local em que Julia agora trabalha, escavações no sítio Conte haviam revelado uma das mais espetaculares coleções de artefatos já descobertas no hemisfério ocidental. Essas relíquias vieram à luz no começo do século 20, quando a cheia de um rio arrancou a camada superficial do solo em um pasto. Peitorais, pingentes e outros requintados objetos de ouro começaram a despencar das sepulturas e tombar nas margens.
Atraídos pelas notícias do antigo cemitério, arqueólogos da Universidade Harvard enfrentaram, em um navio a vapor, a travessia de seis dias entre Nova York e a Cidade do Panamá, de onde seguiram até o sítio Conte em cavalos, carros de boi e canoas. Ao longo de quatro temporadas, sufocados por temperaturas que chegavam aos 38ºC, eles exploraram mais de 90 sepulturas, muitas delas “habitadas” por corpos adornados com ouro e outros objetos: cerâmicas, entalhes de ossos de baleia, colares de dentes de tubarão, ornamentos de ágata e serpentinas polidas.
Em relatório divulgado em 1937, o arqueólogo Samuel Lothrop, de Harvard, identificou os antigos ocupantes do Conte como pertencentes a um dos grupos indígenas que tiveram contato com os espanhóis quando estes conquistaram a região no início do século 16. À medida que avançavam através do istmo, os espanhóis escreviam crônicas minuciosas do que encontravam. Na região do sítio, toparam com comunidades pequenas e beligerantes que disputavam o controle de campos, florestas, rios e águas costeiras.
