Edição 199/Maio de 2012 03/05/2012

Para todos

Praias desertas, montanhas, cachoeiras, feira literária, esportes radicais, cachaças, peixe com banana, arquitetura colonial. A polivalente Paraty tem de tudo um muito – tente não gostar, se for capaz

por Nana Tucci

Se Paraty brincasse de ser isto ou aquilo, ficaria na moita. Afinal, trata-se de uma cidade colonial ou praiana? Ideal para quem gosta de mar ou de montanha? Destino de endinheirados ou desencanados? Paraty é pluripartidária: não toma o partido de ninguém e toma o de todos. Acolhe o barqueiro que conhece as dezenas de praias de sua baía, os aventureiros que exploram suas ilhas pouco frequentadas, os artistas que se equilibram em pernas de pau por suas ruas de pedra e os estrangeiros que, encantados por tanta multiplicidade, escolhem a cidade para passar o resto da vida.

A primeira Paraty que salta aos olhos dos visitantes, não há como negar, é a colonial. Não são dois ou três casarões. Falamos de dezenas de construções do século 18 – o Centro Histórico é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – orgulhosamente gastas, muitas delas com flores crescendo em cima do telhado. Nelas estão os restaurantes, as cafeterias, as pousadas, os ateliês e as casas culturais que compõem o Centro Histórico. Ah, sim, tudo ilustrado por seu chão de largas pedras que nos ensina a caminhar sem pressa. Mas, diante do impressionante conjunto, quem vai querer se apressar, não é mesmo?

Ataques piratas

Caminhar despretensiosamente pelo Centro Histórico traz boas surpresas. Como passar por um vendedor de doces, daqueles antigos, que pilotam carrinhos em formato de tabuleiro, e comer um bolo caseiro recém-saído do forno. Ou então errar o caminho e ir parar no cais, bem na hora em que o sol dispara aquela meia-luz sobre uma porção de barcos ancorados balançando pra lá e pra cá. Mas também pode ser interessante andar, ao menos um dia, com um guia local, que irá, por exemplo, explicar a você por que o Centro Histórico tem esquinas desencontradas – a lenda diz que os portugueses fizeram assim para defender o local de ataques piratas.

Se você é chegado em bater pernas, vai ter motivos para se sentir como se tivesse ido à malhação ao passear pelo Centro Histórico. É que a região é cheia de lojas de roupas, decoração e artesanato, sem falar nos ateliês, como o da artista mexicana Patrícia Sada, que faz telas com folhas e troncos de árvore. Já no Atelier Aracati, Fernanda Strino e Marcelo Dalto transformam moedas antigas que eles caçam mundo afora em delicados pingentes. Entre uma e outra compra (ou espiada), é de muito bom-tom fazer uma pausa no Café Pingado, onde o café pode ser servido com geleia de gengibre ou com a cachaça local. O lugar também manda bem no manuê de bacia, um bolo feito com açúcar mascavo. Ali perto, o Armazém Paraty, onde você encontra artigos indígenas, inaugurou no ano passado um mix de bar e restaurante nos fundos da loja, com direito a tapiocas, petiscos e caipirinhas.

À noite, o Centro ganha iluminação artificial. É hora de escolher em qual de seus muitos bons restaurantes você vai se sentar. Aposte no Banana da Terra, de Ana Bueno, que faz o estilo rústico-chique, ou no Thai Brasil, da alemã Marina Schlaghaufer. Às quartas e aos sábados, para finalizar bem o dia na cidade, é legal curtir uma apresentação de teatro de bonecos no teatro espaço (compre ingresso com pelo menos um dia de antecedência).

Mas a cidade é muito mais do que seu Centro Histórico. Há a Paraty ilustrada, a da Flip, a Festa Literária internacional (que no próximo mês de julho completa dez edições), e a do Bourbon Festival, que em junho leva ao público shows gratuitos – o jazzista americano John Pizzarelli já tocou no evento. Uma Paraty rural se exibe na estrada que liga a cidade a Cunha, com pousadas e clima de montanha. É lá que se concentram o Caminho do Ouro, os consagrados alambiques e as cachoeiras. A melhor para banho é a Pedra Branca, mas as crianças vão pirar na Tobogã. Como o nome sugere, a água escorre por uma enorme pedra que vira um tobogã natural. Rola até um torneio de “surfe na pedra”.

Quanto ao Caminho do Ouro, já foi um grande atrativo, mas anda largado. É a trilha que percorre trechos do caminho aberto no século 18 para o escoamento do ouro que vinha de Minas e deixava o Brasil pelo porto de Paraty. Hoje faz parte do complexo turístico-rodoviário da Estrada Real. Se quiser conhecê-lo sem depender de guias locais, contrate uma agência no Centro. E é lá, no Caminho do Ouro, que está a Quinta do Tiê – fica a 6 quilômetros do Centro –, espaço cultural integrado à natureza que, em um domingo por mês, realiza um megabazar de compra e troca de obras de arte, roupas, acessórios e móveis de antiquário.

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