Edição 198/Abril de 2012 02/04/2012

Ménage à trois

Um homem, uma mulher, um carro, um roteiro pelos castelos, jardins e melhores restaurantes do Vale do Loire e de Paris. Tudo no maior love. Até aparecer Coronel

por Lu Ferreira

Uma acepção possível para o verbo viajar é “realizar um sonho”. Você sabe disso melhor do que eu, que passo meu tempo a criar sobremesas – sou chef pâtissier. Mas acabo de realizar meu sonho em alto estilo. Fui a Paris e a cidades da Normandia e do Vale do Loire e lá comi em ótimos restaurantes, dormi em hotéis de charme, visitei alguns dos mais famosos castelos franceses. Eu havia estudado francês para fazer bonito, e me acompanhava o melhor parceiro de viagem possível: meu marido. E isso mesmo com seu paladar infantil, que prefere pizza e hambúrguer à cozinha francesa.

De Paris, decidimos alugar um carro, um Ford Focus (bem melhor do que o brasileiro, claro). A primeira parada foi em Versalhes. O castelo mais suntuoso do mundo, que fez Luís 14 trasladar toda a corte de Paris, é isso mesmo que dizem, e o Salão de Espelhos, de 75 metros e 17 janelas, onde Senhor Rei-Sol dava suas festas e onde muito mais tarde foi assinado o fim da Primeira Guerra, é impressionante. Lá fora, os jardins geométricos são enormes e há até um trenzinho interno. Veja também a Domaine de Marie-Antoinette, onde Maria Antonieta mantinha uma fazendinha de conto de fadas.

Saímos de Versalhes poucos minutos antes das 6 da tarde e rodamos 75 quilômetros até Chartres, onde ficaríamos no Château d’Esclimont, um dos castelos hoje transformados em hotel de luxo pela rede Grandes Etapes Françaises. Ninguém tem pressa quando faz check-in em um castelo, especialmente em um do século 10 (remodelado, é verdade), mas tínhamos poucos minutos para honrar nossa reserva no estrelado restaurante Les Georges. E a coisa não ia bem: estávamos num castelo, mas, se nele havia súditos, não eram os funcionários, em seu desdém imperial diante de nossa dificuldade em conduzir as malas pelo cascalho do estacionamento.

Chegamos ainda meio empoeirados ao Les Georges. O restaurante é bem sóbrio e um pouco escuro. Ironicamente, muitos clientes usavam roupas informais, como jeans e camisa polo, tudo o que eu havia pedido para o Adriano, o maridão, não usar naquele ambiente. Escolhi uma das três sugestões de menu degustação do chef Laurent Clément. Da entrada com foie gras e escargots ao prato principal, atum malpassado com mil-folhas de legumes, não foi difícil constatar a arte francesa de temperar com perfeição, quando nada se sobrepõe ao sabor natural dos ingredientes. Entretanto, na hora da sobremesa, não me deixei convencer pela beleza da preparação, com um chocolate sem a leveza necessária. Mas reconheço que o doce era perfeito para colocar num pôster, com seu brilho meio espelhado.

No entanto, a refeição ainda não havia acabado. Adorei, adoramos – e você certamente vai adorar também – as gourmandises sucrées, um deleite que acompanha o café. Descobri-me fã das patês de fruits – quadrados duros de gelatina de polpas de frutas como cassis, famboesa, morango, cobertos com açúcar cristal. De-lí-cia!

O café da manhã seguinte no castelo seguiu no tom, com geleias, queijos e croissants fanceses. Na saída, os funcionários se mostraram mais prestativos e ajudaram com nossas malas. On the “routeagain, tomamos rumo para Giverny, a Giverny das ninfeias e dos nenúfares e das cores de Monet. Nos jardins que o mestre do impressionismo cultivou com tanto esmero, você se sente andando dentro de um quadro. E, na casa onde ele viveu por 40 anos, partilha um pouco da intimidade do pintor.

O dia ainda nos reservava uma visita a Rouen, antiga capital do ducado da Normandia, onde fomos à Abadia Saint-Ouen, fundada no século 8, e à Catedral Notre-Dame, aquela cuja fachada aparece em dezenas de telas de Monet, pintadas com luzes de diferentes horas do dia. Construída em meados do século 12, essa igreja demorou 100 anos para ser finalizada – Monet foi mais rápido em sua série.

Iríamos terminar a jornada na portuária Honfleur. O hotel La Ferme Saint Simeon, da rede Relais & Chateaux, a famosa associação de hotéis de charme, fica num ponto bem alto da cidade, com vista belíssima do estuário do Rio Sena. Alguns dos serviços de spa estão incluídos na diária, e o farto e saboroso café da manhã é servido em dias de sol no deque do restaurante. Chegaram à mesa, na manhã do dia seguinte, pelo menos uma dúzia de tipos de queijos, embutidos, peixes defumados, iogurtes orgânicos e muitas frutas, algo raro na Europa. Foi um bom começo para o dia em que visitaríamos o restaurante do chef Jean-Luc Tartarin, na cidade vizinha de Le Havre. E o dia em que ganharíamos um convidado inesperado.

Tartarin faz uma cozinha autoral que alcança sabores complexos. Mas a marca da noite foi a chegada de “Coronel”, que eu e meu marido – ele, na verdade – incorporamos à nossa relação. Adriano se apaixonou por esse livarot, queijo de leite de vaca meio molenga da Normandia, com denominação de origem e sabor “possante” – algo entre o chulé e o esterco. As folhas que envolvem o queijo aludem à patente de um coronel (e sua “força” também). Daquele momento em diante Adriano jamais se separaria do Coronel, fosse qual fosse o restaurante. No começo eu me senti um tanto excluída, mas depois aceitei o ménage com o fromage.

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