Edição 203/Setembro de 2012 29/08/2012

Uma luz no fim do mundo

Há algo de novo na Patagônia chilena. As Torres del Paine continuam lá, soberanas, atraindo milhares de aventureiros. Mas agora com mais conforto

por Cris Capuano

No mundo das viagens de aventura, sempre haverá para o protagonista o lugar perfeito, the one and only, o cenário que compõe os sonhos mais utópicos de liberdade. Nos meus tempos de menina, em que eu carregava esperanças em uma mochila emendada com silver tape nas costas, esse lugar era o fim do mundo. Jamais esqueci aquele vento. Doze anos depois, foi ele – o vento – quem me recebeu no aeroporto de Punta Arenas, a um voo longo de distância da capital do Chile. Ventava pacas. E, como antes, era um vento inclemente, daqueles que assobiam e chicoteiam o rosto a quase 100 quilômetros por hora. Eu voltei, quase nada se modificou, acho que só eu mesma mudei, como naquela música de Roberto Carlos, que não me saía da cabeça. O Rei soava também no acordeão de José Luis Emmott, um dos poucos moradores daquela inóspita parte do mundo. José trabalha em uma fazenda de criação de ovelhas à beira da estrada que conduz ao Parque Nacional Torres del Paine, o meu destino, uma das regiões mais cobiçadas para trekking no planeta. Tudo estava igual a como era antes, mas minha mala agora tinha rodinhas. Dessa vez, eu planejava fazer trilhas mais curtas e trocar a barraca por um hotel. Com calefação no quarto.

Setembro marca a abertura de mais uma temporada no parque nacional da região de Magalhães, no extremo sul do continente americano. É especialmente no verão – quando venta mais, mas chove menos – que aventureiros do mundo todo tiram suas jaquetas impermeáveis do armário para completar o W ou o Circuito O, as famosas travessias que duram entre quatro e dez dias. Ainda que aventura não seja a sua praia, é bem provável que você já tenha prestado atenção a uma foto de sua principal atração, as Torres del Paine, três edifícios de rochas elegantes que se elevam no meio do nada a 2 850 metros de altitude. Enfentar o vento em grandes travessias até o monumento natural, pernoitando em barracas ou em refúgios com beliches, é a experiência mais intensa que se pode ter no lado chileno da Patagônia. A cada ano, no entanto, mais e mais pessoas descobrem que a paisagem insólita de lagos cor de esmeralda, estepes douradas e torres de pedra não está mais tão inacessível. Novos hotéis se instalaram nos arredores e na cidade mais próxima, Puerto Natales. Agora, além de uma terra de extremos, a Patagônia também é sinônimo de hotéis de luxo, quartos design e spas com massagem no fim do dia.

Jogo de luz e sombra

Os investidores não chegaram à toa: segundo a Conaf, o serviço florestal chileno, o parque recebeu 140 mil pessoas em 2011. Um número que cresce em 10 mil a cada ano. E triplicou desde 1993, quando o primeiro hotel de luxo se instalou em uma área concedida dentro do parque, o Explora, próximo ao Lago Pehoé. No ano passado, a concorrência chegou perto: o Tierra Patagônia – irmão do Tierra Atacama, na outra ponta do Chile – abriu as portas nas bordas do parque, próximo ao Lago Sarmiento. Suas formas arredondadas, esculpidas em madeira de lenga, incluem um salão com parede de vidro e vista para as Torres que se estende até o spa, onde a paisagem parece querer mergulhar na piscina quentinha. Como no Explora, seus hóspedes vivem aventuras durante o dia – uma delas é acompanhar o trabalho dos homens da Patagônia no campo. Mas depois relaxam em serviços que vão de massagem a manicure.

2O hotel design Remota, em Puerto Natales

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O hotel design Remota, em Puerto Natales - Foto: Divulgação

Na cidade mais próxima, Puerto Natales, a novidade é The Singular, hotel instalado em um antigo figorífico e que aproveita a nova estrada de acesso ao parque (são 130 quilômetros até a portaria). Os quartos têm vista para a água sempre gelada em que aquele mundo pouco habitado termina. Refeições com cordeiro e caranguejo gigante, além de expedições superexclusivas, podem estar incluídas na diária, que começa em US$ 610. “Buscamos a simplicidade no luxo”, tentou me explicar a gerente Karina Kotzanek.

Em Puerto Natales, onde pernoitei, encontrei gente satisfeita com o Parque Tour, um passeio bate e volta de ônibus contratado na própria cidade. Você não consegue chegar tão perto do cartão- postal, mas tira fotos impressionantes. Já para quem quer ver as Torres de perto, a caminhada leva oito horas. A trilha começa e termina perto do Las Torres, o primeiro hotel da região, que nasceu de uma hospedaria adaptada em um rancho de tosa de ovelhas. Na garupa de um dos cavalos do Las Torres, encurtei a subida íngreme até o Acampamento Chileno, primeiro ponto de pernoite para quem faz o W – os caminhantes desse circuito continuam a andar por mais quatro dias. Eu fui até a parte mais interessante. Queria vê-las. De pertinho.

As Torres que batizam o parque misturam tonalidades de acordo com a luz refletida sobre elas: ora têm cor de salmão, ora são mais alaranjadas ou adquirem nuances cinza e azuis de acordo com um incrível jogo de luz e sombra. Os índios tehuelches, os primeiros habitantes da Patagônia, acreditavam que só os maus espíritos poderiam formar montanhas tão estranhas. Mas tudo se entende nas aulas de geografia. A paisagem é fruto da força do magma e da movimentação das geleiras, que esquentaram, esfiaram, pressionaram e empurraram com sua força descomunal os blocos de rochas em direção ao céu há milhares de anos. As chuvas trataram de lavar os sedimentos e polir as pedras. “Em Torres del Paine acontece o encontro dos grandes domínios naturais da Patagônia”, diz o fotógrafo de natureza Luciano Candisani, da NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Luciano já rodou o mundo, mas volta sempre para aquela que considera “uma das paisagens mais fortes do planeta”.

Gelo de milhares de anos

No passado, toda a região da província de Ultima Esperanza, onde está o parque, era feita de fazendas e pequenos ranchos, forçados a sair com a criação do parque, em 1959. Torres del Paine tem hoje 227 mil hectares. Desde 1978 é Reserva Mundial da Biosfera pela Unesco. Um ano antes, em 1977, o escritor inglês Bruce Chatwin terminara de escrever Na Patagônia, uma polêmica mistura de narrativa real com ficção que não só inaugurou o turismo na região como o gênero que hoje chamamos de literatura de viagem. Chatwin relata uma expedição em busca das origens de um “pedaço de pele de brontossauro”. Até hoje mochileiros visitam a réplica do tal bicho pré-histórico, o Milodón, que virou atração turística em uma caverna perto de Puerto Natales. A cidadezinha está às margens de um fiorde e de uma das maiores áreas de gelo glacial fora da Antártica e por onde passou o navegador português Fernão de Magalhães. Depois dele, Puerto Natales abrigou muitos outros forasteiros. O resultado é um ar quase cosmopolita. Ou você esperaria encontrar no fim do mundo um restaurante de cozinha fusion comandada por um chef aficano?!?

O caminho e o caminhante, perto do Refúgio Chileno

<p> Cris Capuano</p>

O caminho e o caminhante, perto do Refúgio Chileno - Foto: Cris Capuano

Em um restaurante de assados patagônicos, encontrei Soledad Ross, turismóloga chilena que levava seu pai para um passeio de fim de semana. “O perfil do viajante mudou, mas todo mundo que chega até aqui tem um único objetivo, ver as Torres”, disse ela. Soledad tem razão em dizer que, ali, ninguém está “de passagem”. Até porque o caminho é longo. As Torres estarão sempre presentes, mas o seu espírito deve estar preparado para a possibilidade de as montanhas não darem as caras durante toda a visita, especialmente se os dias estiverem nublados. A natureza é senhora absoluta do parque nacional, e isso significa que você pode encontrar, como eu, uma nevasca em pleno outono. Ou as quatro estações em uma única caminhada. As previsões do tempo são desenhadas em uma lousa na portaria de Laguna Amarga, onde os trekkers iniciam o W, mas elas quase nunca funcionam. Se não der trilha, a navegação pelo Glaciar Grey pode valer uma tarde, especialmente se um condor – uma das maiores aves voadoras do mundo, com 3 metros de envergadura nas asas – resolver dar a pinta e exibir seu voo. Os icebergs são gigantescos, a cabine do barco é quentinha, e, no fim do passeio, os tripulantes servem pisco sour com o gelo de milhares de anos. O mesmo que minutos antes despencou na água gerando estrondos.

Templo dos aventureiros

Encontrar a geografia única do lugar inclui a incerteza sobre se você vai chegar aonde quer, mas a certeza de que encontrará novas perspectivas a cada passo. Além das Torres, o parque tem vales misteriosos, como o Francês – mais um lugar onde o vento faz a curva. Além dos vales, há outros picos, como Los Cuernos e suas mil faces cor de noite. Conselho dos fotógrafos: se você achar que tirou a melhor foto dele, caminhe mais um pouco. Por mais que esteja isolada e pareça imóvel, a Patagônia estará sempre se transformando. Agora, o meu conselho: se quiser ver com exclusividade, é melhor chegar logo. Punhados de cruzeiros fazem as rotas das geleiras e vão a Punta Arenas. Há planos de ampliação do pequeno aeroporto de Puerto Natales, que em dois anos pode começar a receber voos regulares. Indústrias salmoneiras e hidrelétricas se instalam na região a cada temporada. No Parque Nacional, turistas irresponsáveis causam incêndios. No último Réveillon, um jovem que percorria o W teve a brilhante ideia de queimar um papel higiênico e iniciou labaredas que destruíram 7% de toda a área.

A natureza se recupera a seu tempo, e as primeiras folhinhas verdes já começam a aparecer nas áreas atingidas. A base das Torres, a mais percorrida em todo o parque, não foi uma delas. Lá eu só encontrei áreas preservadas de vegetação nativa com rios cristalinos, bosques de lengas e coigües, flores rubras, entre as fendas das pedras. Meus pés, que não usam mais botas de caminhada, afundaram no gelo e escorregaram na lama até os joelhos. Mas as pernas tremeram mesmo quando eu dei de cara com o templo de todos os aventureiros: diante de tamanha força, não tem como não se sentir pequeno. Nos meus tempos de mochileira, a gente costumava dizer que, se alguma mudança acontecer na sua vida depois da Patagônia, é sinal de que a viagem deu certo. Os destinos também mudam, e agora o meu tem hotéis de luxo. Um detalhe quase insignificante para um lugar que é tão belo há tantos milhares de anos.

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