Perigo no coração do Paquistão
O Ocidente cruza com o Oriente na próspera província do Punjab. Mas o Talibã quer mudar o rumo da história.
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Monge na Mesquita Badshahi no Paquistão
Ed Kashi
Um calmo interlúdio entre as orações é o melhor momento para observar a mesquita Badshahi. Seus domos de mármore e seus minaretes se erguem sobre a Cidade Velha de Lahore, evocando as glórias do passado no Punjab.
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Bar com influência ocidental no Paquistão
Ed Kashi
Chapéus de caubói e vídeos da cantora Beyoncé dão o tom no restaurante Gunsmoke, exemplo da influência ocidental em Lahore.
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Riacho Pedregoso no Paquistão
Ed Kashi
Um riacho pedregoso não é obstáculo nesta remota região tribal do sudoeste do Punjab, onde as pessoas são tão vincadas quanto a terra. Mais sintonizados culturalmente com o vizinho Baluquistão, os habitantes falam um dialeto e não se consideram punjabs.
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Cavalos dançarinos no Paquistão
Ed Kashi
Os "cavalos dançarinos" são treinados por Faizal Abbas, um senhor feudal que vive perto de Multan. Mas a vida é dura para muitos punjabs.
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Alojamento em Punjab no Paquistão
Ed Kashi
Refeições gratuitas e alojamento são oferecidos neste madraçal em Gujranwala, no nordeste do Punjab. Em muitas dessas escolas, os líderes são simpáticos ao Talibã e resistem às pressões do governo para se modernizar
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Jovem pescador no Paquistão
Ed Kashi
Um jovem pescador singra as águas do rio Ravi perto de Lahore, que desemboca em uma das maiores redes de canais do mundo, com 30,5 mil quilômetros de extensão. Represas e estações regulam o fluxo da água.
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Santuário Khwaja Ghulam Farid no Paquistão
Ed Kashi
Eis o amor para os sufis – apesar de os extremistas chamarem isso de idolatria. Em Mithankot, mulheres unem-se num momento místico no santuário de Khwaja Ghulam Farid, um poeta do século 19 considerado santo.
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Dançarina Nida Chaudhry no Paquistão
Ed Kashi
Batom chamativo e dança provocante são as marcas registradas de Nida Chaudhry, que se apresenta para plateias lotadas no teatro Al Falah, em Lahore. “Somos muçulmanos também, como todo mundo”, diz ela.
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Crianças brincam no Paquistão
Ed Kashi
A neblina matinal paira sobre a garotada que se diverte diante da escola na aldeia dePipli, no Punjab Central, área onde o Talibã tem poucos amigos. “Eles são inimigos de nossas crianças”, conta um fazendeiro idoso.
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Mesquita Badshahi no Paquistão
Ed Kashi
Guardas armados reforçam a segurança durante as orações de sexta-feira na suntuosa mesquita Badshahi, em Lahore. Concluída em 1674, ela pode acolher 100 mil fiéis.
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Aldeões em Goraya, no Paquistão
Ed Kashi
Nas terras perto de Goraya, os aldeões debulham arroz em troca de uma parte da colheita.
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Xiita açoita a si mesmo no Paquistão
Ed Kashi
Um xiita da cidade açoita a si mesmo, em um ritual que simboliza o sofrimento de Hussein, neto de Maomé.
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Torre do relógio pontilhada no Paquistão
Ed Kashi
Relíquia do império britânico, esta torre do relógio pontilhada de cúpulas e arcos fica na cidade sulista de Multan. Multan também é conhecida por seus numerosos santuários sufis, como a tumba de domo branco, do século 14, que se vê ao fundo
O Talibã não ia gostar nada disso. Em uma ensolarada tarde de inverno em Lahore, a intelectualidade local comparece empeso à exibição anual na Faculdade Nacional de Artes. No pátio principal, homens e mulheres misturam-se sem tensão, fumando e bebericando Red Bull. Alguns homens exibem rabos de cavalo, e um deles tem um piercing na sobrancelha.
No entanto, são muitos os sinais de que, sim, estamos no Paquistão – as mulheres, por exemplo, usam por cima do jeans a tradicional túnica que vai até as coxas, e algumas trazem o cabelo coberto. A miscelânea de estilos e influências é a marca registrada de Lahore, caldeirão de povos e religiões que o escritor inglês Rudyard Kipling, que viveu muitos anos na Índia, captou com maestria em seu romance Kim. Segunda maior cidade do Paquistão, Lahore é a capital do Punjab, a mais rica e populosa das quatro províncias do país. É no Punjab que o Oriente cruza como Ocidente, gerando toda sorte de hibridismos. Nem mesmo a brutal e sangrenta divisão da Índia britânica em meados do século 20 conseguiu destruir o brio cosmopolita da região.
O Talibã e seus aliados, porém, estão se esforçando para que isso aconteça, naquele que é o torrão natal do establishment político e militar do Paquistão. Nos últimos anos, eles deflagaram uma onda de terror que atingiu até a seleção de críquete do Sri Lanka em visita ao Punjab. A intrusão da violência vinda das remotas terras nas proximidades do Afeganistão vem chocando os punjabs, que até recentemente tendiam a considerar os extremistas um problema alheio.
O Punjab que eu conheci nos anos subsequentes aos ataques às torres gêmeas em Nova York, em 2001, no papel de correspondente estrangeiro no Paquistão, era um lugar de relativa paz. Ok, a região sofreu uma miríade de patologias sociais e teve sua cota de militantes islâmicos locais.
No entanto, os guardiões do status quo permaneceram profundamente arraigados, assim como o sufismo, o ramo do Islã marcado pela tolerância, pelo misticismo e pela expressão musical e poética, considerado um anátema para muitos muçulmanos linhas-duras. Será que o tecido social estaria de fato se esgarçando ali?
Dias depois da mostra de arte, vou com Imran Qureshi, diretor de um dos departamentos da faculdade, até sua moderna casa de dois andares, onde ele vive com a mulher e os dois filhos pequenos. Com jeitão de garoto, aos 38 anos, vestindo calça de veludo cotelê e um abrigo com zíper, ele me introduz em uma sala de estar decorada com tapetes tribais e mobília de madeira em estilo escandinavo. Qureshi e sua esposa, Aisha Khalid, ambos renomados artistas, poderiam com facilidade emigrar para Londres ou Nova York, onde costumam expor seus trabalhos. No entanto, eles não têm a menor intenção de deixar o Paquistão. “O ambiente está ficando mais liberal aqui”, afirma Qureshi, com voz de entusiasmo. “As pessoas conversam sobre política, sexualidade e tudo mais. Não era assim há dez anos.”
Fico impressionado com a estreita ligação que Qureshi mantém com seu país e sua arte, tanto como sua fé inabalável na capacidade de resistência do Punjab. Por outro lado, desconfio também que ele talvez esteja apenas negando a realidade.
se geografia é destino, o Punjab é um dos melhores exemplos disso. Encravada entre a Ásia Central e o subcontinente, a região sempre esteve na rota dos invasores – macedônios, turcos, mongóis, persas, afegãos – e das caravanas de comerciantes em viagem desde a Índia até localidades a oeste. Lahore tornou-se capital de uma sucessão de impérios dinásticos, além de centro nevrálgico de surpreendente diversidade.
