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EDIÇÃO 124 / JULHO DE 2010 28/06/2012

Perigo no coração do Paquistão

O Ocidente cruza com o Oriente na próspera província do Punjab. Mas o Talibã quer mudar o rumo da história.

por John Lancaster

O Talibã não ia gostar nada disso. Em uma ensolarada tarde de inverno em Lahore, a intelectualidade local comparece empeso à exibição anual na Faculdade Nacional de Artes. No pátio principal, homens e mulheres misturam-se sem tensão, fumando e bebericando Red Bull. Alguns homens exibem rabos de cavalo, e um deles tem um piercing na sobrancelha.

No entanto, são muitos os sinais de que, sim, estamos no Paquistão – as mulheres, por exemplo, usam por cima do jeans a tradicional túnica que vai até as coxas, e algumas trazem o cabelo coberto. A miscelânea de estilos e influências é a marca registrada de Lahore, caldeirão de povos e religiões que o escritor inglês Rudyard Kipling, que viveu muitos anos na Índia, captou com maestria em seu romance Kim. Segunda maior cidade do Paquistão, Lahore é a capital do Punjab, a mais rica e populosa das quatro províncias do país. É no Punjab que o Oriente cruza como Ocidente, gerando toda sorte de hibridismos. Nem mesmo a brutal e sangrenta divisão da Índia britânica em meados do século 20 conseguiu destruir o brio cosmopolita da região.

O Talibã e seus aliados, porém, estão se esforçando para que isso aconteça, naquele que é o torrão natal do establishment político e militar do Paquistão. Nos últimos anos, eles deflagaram uma onda de terror que atingiu até a seleção de críquete do Sri Lanka em visita ao Punjab. A intrusão da violência vinda das remotas terras nas proximidades do Afeganistão vem chocando os punjabs, que até recentemente tendiam a considerar os extremistas um problema alheio.

O Punjab que eu conheci nos anos subsequentes aos ataques às torres gêmeas em Nova York, em 2001, no papel de correspondente estrangeiro no Paquistão, era um lugar de relativa paz. Ok, a região sofreu uma miríade de patologias sociais e teve sua cota de militantes islâmicos locais.

No entanto, os guardiões do status quo permaneceram profundamente arraigados, assim como o sufismo, o ramo do Islã marcado pela tolerância, pelo misticismo e pela expressão musical e poética, considerado um anátema para muitos muçulmanos linhas-duras. Será que o tecido social estaria de fato se esgarçando ali?

Dias depois da mostra de arte, vou com Imran Qureshi, diretor de um dos departamentos da faculdade, até sua moderna casa de dois andares, onde ele vive com a mulher e os dois filhos pequenos. Com jeitão de garoto, aos 38 anos, vestindo calça de veludo cotelê e um abrigo com zíper, ele me introduz em uma sala de estar decorada com tapetes tribais e mobília de madeira em estilo escandinavo. Qureshi e sua esposa, Aisha Khalid, ambos renomados artistas, poderiam com facilidade emigrar para Londres ou Nova York, onde costumam expor seus trabalhos. No entanto, eles não têm a menor intenção de deixar o Paquistão. “O ambiente está ficando mais liberal aqui”, afirma Qureshi, com voz de entusiasmo. “As pessoas conversam sobre política, sexualidade e tudo mais. Não era assim há dez anos.”

Fico impressionado com a estreita ligação que Qureshi mantém com seu país e sua arte, tanto como sua fé inabalável na capacidade de resistência do Punjab. Por outro lado, desconfio também que ele talvez esteja apenas negando a realidade.

se geografia é destino, o Punjab é um dos melhores exemplos disso. Encravada entre a Ásia Central e o subcontinente, a região sempre esteve na rota dos invasores – macedônios, turcos, mongóis, persas, afegãos – e das caravanas de comerciantes em viagem desde a Índia até localidades a oeste. Lahore tornou-se capital de uma sucessão de impérios dinásticos, além de centro nevrálgico de surpreendente diversidade.