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Pinhão no prato, pinheiro de pé

Pela primeira vez, preservar uma araucária está sendo mais rentável do que derrubá-la. Pergunte como aos produtores de pinhão da serra catarinense

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL ONLINE   |   Por: Xavier Bartaburu
« Julho de 2012 - Edição 148

Ricardo Sobrinho não faz ideia de quantas araucárias existem na propriedade da família, mas conhece cada árvore como se ele mesmo as tivesse plantado. “Essa aqui dá pinha no dia 28 de fevereiro. Pode vir que tá madura”, ele diz, com indisputável certeza, apontando para um pinheiro magro de copa alta, cercado por outros tantos aparentemente idênticos a ele.

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Para quem vive da coleta de pinhão, a mata é um mapa: os caboclos sabem onde fica cada araucária, qual a sua variedade botânica, o quanto é capaz de produzir e a época de frutificação. Se é para arriscar uma dimensão desse mapa, Ricardo chuta “uns 8 mil pés por hectare” nas áreas de maior densidade. Considerando que ao menos dois terços dos 75 hectares de sua propriedade no município de Painel, na Serra Catarinense, estão forrados pela Mata de Araucária, bote aí quase meio milhão de pinheiros. E isso está se tornando um problema para Ricardo.

Problema bom, claro. Poucas décadas atrás, seria impensável que alguém pudesse fazer do pinhão um meio de vida. Araucária era árvore de se cortar, não de se colher. E, por conta disso, era árvore que quase não ficava de pé – quanto mais produzir pinhão. Mesmo a mata na propriedade de Ricardo não tem mais do que três décadas de idade. É floresta que rebrotou depois que a extração de araucárias para aproveitamento da madeira atingiu seu ponto de saturação na década de 1970, quando começou a ser substituída pelo plantio de pínus.

Até então, não custa lembrar, cerca de 100 milhões de pinheiros nativos viraram toras nas serrarias do Sul e do Sudeste. Dos 185 mil quilômetros quadrados de floresta de araucária (Araucaria angustifolia) que antes cobriam nossas serras meridionais, restaram apenas 2%. É o ecossistema mais devastado do país.

O corte de araucária foi legalmente proibido no Brasil em 2001, mas a floresta já vinha se regenerando fazia duas décadas, sobretudo com a ajuda de animais como a gralha-azul e a cutia. Um e outro têm o hábito de enterrar os pinhões no chão para depois comê-los – quando não os encontram, é mais uma semente que brota.

Deveria ser assim em todas as áreas onde antes houve matas de araucária, mas a realidade é que, em diversas partes do país, os campos devastados terminaram tornando-se lavoura ou pastagem para o gado. Uma das exceções é Painel, antigo distrito de Lages emancipado em 1994, onde a topografia acidentada emperrou agricultura e pecuária intensivas e favoreceu a recuperação da vegetação original.

“Tá povoado demais”, reclama Ricardo. E isso, segundo ele, traz dois problemas. Um é que as araucárias cresceram muito próximas entre si, uma atrapalhando o crescimento dos galhos da outra – e, consequentemente, o desenvolvimento das pinhas. Há também a questão do gado, que, ao pastar, aspira os galhos secos do pinheiro (as “grimpas”) espalhados pelo chão. Isso pode afetar as vias respiratórias do animal e até provocar infecção, o que prejudica o rendimento da pecuária – ainda a principal atividade econômica de muitos produtores.