Pinhão no prato, pinheiro de pé
Pela primeira vez, preservar uma araucária está sendo mais rentável do que derrubá-la. Pergunte como aos produtores de pinhão da serra catarinense
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Árvore de pinhão
Valdemir Cunha
O corte de araucária foi proibido no Brasil em 2001. Na cidade catarinense de Painel, a topografia acidentada emperrou a agricultura e a pecuária intensivas e permitiu a volta da vegetação
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Árvores de pinhão
Valdemir Cunha
A derrubada da Araucaria angustifolia para uso da madeira atingiu seu ponto de saturação na década de 1970. Até então, calcula-se que 100 milhões de pinheiros viraram toras nas serrarias do Sul e Sudeste do país
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Escolhendo o pinhão
Valdemir Cunha
As famílias dispõem de uma peneira movida a energia elétrica, para a catação, onde os pinhões são separados das "falhas", os frutos que não fecundaram
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Fruto do pinhão
Valdemir Cunha
Uma pinha rende, em média, 50% de seu peso: de cada 2 quilos, 1 é de pinhão
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Homem caminha com um acessório na mão
Valdemir Cunha
Em cidades da serra catarinense, como Lages, São Joaquim e Urupema, a colheita do pinhão é uma atividade complementar, executada por meeiros contratados. Em Lages, quem tira o pinhão é o dono das terras
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Homem colhendo pinhão
Valdemir Cunha
Painel extrai 2.750 toneladas de pinhão por ano, um quinto do total da produção na serra
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Pinhão partido ao meio
Valdemir Cunha
Os caboclos da região serrana fazem da semente da araucária sua principal fonte de amido
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Pinhão após ser cozido
Valdemir Cunha
O pinhão catarinense foi incluído na Arca do Gosto, uma lista de alimentos ameaçados de extinção ao redor do mundo, elaborada pela Slow Food, fundação italiana que prega a ecogastronomia
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Homem escala a árvore para colher pinhão
Valdemir Cunha
Os catadores de pinhão atam esporas de ferro às botas para subir até a copa, a 10 ou mais metros de altura, pousam os pés nos galhos e, com uma vara de bambu, empurram as pinhas
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Preparando uma receita de pinhão
Valdemir Cunha
É costume sair de casa para a coleta levando uma paçoca de pinhão – o fruto é cozido, moído e misturado com carnes
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Pinhão, ainda cru, após a colheita
Valdemir Cunha
O grosso da produção é vendido para a cooperativa Ecoserra, em Lages
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Árvore de pinhão
Valdemir Cunha
Para uma região que tempos atrás sequer tinha araucária de pé, o desafio agora é lidar com o excesso
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Homem prepara uma fogueira
Valdemir Cunha
O pinhão já virou fonte de renda para dezenas de famílias da zona rural, distribuídas em bairros aqui chamados de “comunidades”
Ricardo Sobrinho não faz ideia de quantas araucárias existem na propriedade da família, mas conhece cada árvore como se ele mesmo as tivesse plantado. “Essa aqui dá pinha no dia 28 de fevereiro. Pode vir que tá madura”, ele diz, com indisputável certeza, apontando para um pinheiro magro de copa alta, cercado por outros tantos aparentemente idênticos a ele.
Ainda nesta reportagem:
Pinhão: paçoca, entrevero e sapecada
Para quem vive da coleta de pinhão, a mata é um mapa: os caboclos sabem onde fica cada araucária, qual a sua variedade botânica, o quanto é capaz de produzir e a época de frutificação. Se é para arriscar uma dimensão desse mapa, Ricardo chuta “uns 8 mil pés por hectare” nas áreas de maior densidade. Considerando que ao menos dois terços dos 75 hectares de sua propriedade no município de Painel, na Serra Catarinense, estão forrados pela Mata de Araucária, bote aí quase meio milhão de pinheiros. E isso está se tornando um problema para Ricardo.
Problema bom, claro. Poucas décadas atrás, seria impensável que alguém pudesse fazer do pinhão um meio de vida. Araucária era árvore de se cortar, não de se colher. E, por conta disso, era árvore que quase não ficava de pé – quanto mais produzir pinhão. Mesmo a mata na propriedade de Ricardo não tem mais do que três décadas de idade. É floresta que rebrotou depois que a extração de araucárias para aproveitamento da madeira atingiu seu ponto de saturação na década de 1970, quando começou a ser substituída pelo plantio de pínus.
Até então, não custa lembrar, cerca de 100 milhões de pinheiros nativos viraram toras nas serrarias do Sul e do Sudeste. Dos 185 mil quilômetros quadrados de floresta de araucária (Araucaria angustifolia) que antes cobriam nossas serras meridionais, restaram apenas 2%. É o ecossistema mais devastado do país.
O corte de araucária foi legalmente proibido no Brasil em 2001, mas a floresta já vinha se regenerando fazia duas décadas, sobretudo com a ajuda de animais como a gralha-azul e a cutia. Um e outro têm o hábito de enterrar os pinhões no chão para depois comê-los – quando não os encontram, é mais uma semente que brota.
Deveria ser assim em todas as áreas onde antes houve matas de araucária, mas a realidade é que, em diversas partes do país, os campos devastados terminaram tornando-se lavoura ou pastagem para o gado. Uma das exceções é Painel, antigo distrito de Lages emancipado em 1994, onde a topografia acidentada emperrou agricultura e pecuária intensivas e favoreceu a recuperação da vegetação original.
“Tá povoado demais”, reclama Ricardo. E isso, segundo ele, traz dois problemas. Um é que as araucárias cresceram muito próximas entre si, uma atrapalhando o crescimento dos galhos da outra – e, consequentemente, o desenvolvimento das pinhas. Há também a questão do gado, que, ao pastar, aspira os galhos secos do pinheiro (as “grimpas”) espalhados pelo chão. Isso pode afetar as vias respiratórias do animal e até provocar infecção, o que prejudica o rendimento da pecuária – ainda a principal atividade econômica de muitos produtores.
