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Edição 45/Janeiro de 2004 02/12/2011

Planeta gelo

Prestes a aterrisar em Marte, novos módulos espaciais investigam os resquícios de geleiras 

por Oliver Morton Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Kees Veenembos

Superfície gelada de Marte

Kees Veenembos

Ilustração do planeta Marte e sua superfície gelada

Os cientistas acreditam que, em um passado recente, o gelo cobria grande parte de Marte. Além disso, imagens impressionantes obtidas por duas sondas orbitais mostram sinais atuais de resquícios de bancos de gelo e geleiras. Com os módulos de aterrissagem prestes a explorar a superfície do planeta, que outras surpresas nos aguardam?

Difícil imaginar lugar mais terrível: há poeira por toda a parte, a secura não tem paralelo nem nos desertos mais escaldantes e o frio é assombroso. Tal como grande parte de Marte, a planície cor de caramelo é inóspita, estéril e antiquíssima – no fim das contas, sem o menor pingo de graça ou interesse. Porém, centenas de metros ao sul, para além de um grupo de montes baixos e irregulares, a paisagem muda por completo. Os montes formam uma crista que faz uma curva suave na direção leste e depois se ergue abruptamente para sudoeste. Em seguida, o terreno despenca em uma escarpa íngreme. Essa é a borda de uma cratera.

Seu fundo – cerca de 800 metros abaixo – é todo enrugado e ondulado, formando estranhas figuras concêntricas. A impressão que se tem é de que ali o terreno acabou de ser remexido. Ou de que continua, ainda agora, a ser revolvido.

Esses não são os únicos indícios de movimento no inóspito lugar. Uma camada mais fofa que antes recobria a encosta soltou-se e deslizou até o fundo ondulado. Sulcos de bordas arredondadas foram abertos através dessa mesma camada mais fofa, ao passo que curiosas línguas de algo desconhecido avançam pela parte inferior da parede da cratera.

Paisagens desse tipo estão levando os geólogos a repensar tudo o que sabiam sobre Marte. O foco é a aparente camada de gelo no planeta. Há muito os geólogos previam encontrar gelo misturado ao solo nas latitudes médias e altas, mas o recente entusiasmo deve-se a indícios crescentes de que o gelo não está imóvel, mas desempenha um papel dinâmico no planeta. Aparentemente, ele se desloca ao longo do globo e, com isso, altera as texturas da superfície. Além disso, há sinais de que às vezes deixa vestígios fugazes de água em estado líquido.

De acordo com essa concepção, a cobertura fofa que se vê na cratera é na verdade gelo sujo, ou talvez poeira congelada, que se desloca tal como uma geleira terrestre. Se pudéssemos escalar ou descer algumas centenas de metros pela encosta, examinaríamos isso com os próprios olhos. Se tivéssemos os instrumentos apropriados, uma pequena porção dessa camada poderia nos dizer muito a respeito de Marte.

Mas, por enquanto, a maior aproximação de um ser humano ou de um robô terrestre a essa paisagem intrigante nos planaltos meridionais de Marte ocorre quando uma das várias sondas orbitais em torno dele passa a cerca de 400 quilômetros acima do local. Agora, três novos módulos foram projetados para pousar na superfície de Marte – um deles em 25 de dezembro de 2003 e os dois outros em janeiro de 2004 –, mas elas seguirão para destinos diferentes. O Beagle 2, projetado por britânicos e transportado pela sonda européia Mars Express, tem como missão a coleta de vestígios químicos de vida no passado – ou mesmo no presente – existentes na atmosfera e no solo marcianos. Os outros dois módulos gêmeos, Spirit e Opportunity, foram lançados pela Nasa para coletar dados geológicos em locais que talvez abriguem vestígios de água que remontam a bilhões de anos.

O principal tema do atual programa da Nasa para a exploração de Marte é “a busca da água” – pois, se há água, aumenta sobremaneira a chance de haver vida. Para cumprir seus objetivos científicos, no entanto, primeiro será preciso que cheguem intactos à superfície do planeta. Como dispõem apenas de uma capacidade ínfima de manobra durante a descida pela atmosfera, os módulos serão encaminhados para áreas de pouso planas e macias com dimensões equivalentes a de pequenos países na Terra. E como os módulos necessitam de calor e dependem de geradores solares, esses locais ficam nas proximidades do equador marciano. Essa condição climática específica elimina cerca de 95% de toda a superfície de Marte.