Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

Edição 122/Maio de 2010 02/12/2011

A religião da morte

Santos não consagrados pela Igreja são agora venerados no México. São frutos no submundo do crime

por Alma Guillermoprieto Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Shaul Schwarz

Fé no México: Jovens erguem imagens de São Judas

Shaul Schwarz

Na cidade do México, rapazes erguem estátuas de São Judas

O interno conhecido como El Niño - o Garoto - deu entrada no Centro de Execução das Consequências Jurídicas do Delito há nove anos e meio. Alto, esbelto, dono de um sorriso infantil, ele parece não ter amadurecido, embora o relato de seus feitos possa fazer os cabelos de qualquer um embranquecer no ato. Abandonado pelo pai aos 7 anos e criado por seus avós maternos, ele tinha 20 anos quando cometeu o assassinato que o fez aterrissar nessa prisão, no norte do México. Antonio, seu parceiro, foi jogado na mesma cela enquanto aguarda julgamento pela acusação de sequestro. "Somos amigos desde então", diz um deles com o que o outro concorda.

Quando vai sair da prisão ninguém sabe, mas El Niño tem motivos para alimentar esperanças: ele confia em um protetor que, acredita, impediu que os guardas descobrissem em sua posse alguns objetos proibidos, o que poderia agravar sua pena em décadas. "Os guardas nunca viram nada", gaba-se ele. Tal ser sobrenatural vela pelo detento quando seus inimigos estão por perto - e continua de prontidão, como corrobora Antonio, depois que todos os seus pretensos amigos esqueceram até de seu nome e ele se vê, como dizem os mexicanos, "sem nem mesmo um cachorro latindo para você". Essa entidade milagrosa, guardiã dos piores e mais desvalidos pecadores, é La Santa Muerte - a Santa Morte.

Ela é apenas uma entre várias figuras do outro mundo às quais os mexicanos têm se voltado à medida que seu país se vê engolfado por todo tipo de dificuldade: seca, um surto de gripe suína seguido de perto por um correspondente colapso no turismo, redução nas reservas de petróleo, crise econômica e, sobretudo, a herança maldita do comércio de drogas ilegais e a assombrosa violência que isso acarreta. Embora, na verdade, o número total de homicídios no México venha declinando de forma consistente nas últimas duas décadas, os crimes cometidos pelos traficantes guardam a persistente marca do horror, desafiando as leis de tal forma que os mexicanos costumam se perguntar se as máfias já não teriam ganhado a guerra contra o Estado.

"As pressões emocionais, as tensões de viver em um tempo de crise levam as pessoas à busca de figuras simbólicas que possam ajudá-las a enfrentar os perigos", afirma José Luis Gonzáles, professor da Escola Nacional de Antropologia e História, no México, especializado em religiões populares. Entre essas entidades auxiliadoras encontram-se deidades afro-cubanas aportadas nos últimos tempos em novas plagas e foras da lei que se transformaram em milagreiros, a exemplo de um bandido mitológico do norte do México chamado Jesús Malverde. Há inclusive santos do Novo Testamento reconfigurados para que, por meio deles, se atinja não a salvação, mas o sucesso. Nesse universo espiritual em expansão, a devoção a um esqueleto envergando longas vestes e com um alfange na mão - La Santa Muerte - é talvez a que mais cresce, e a mais extravagante. "Se você encara essa figura do ponto de vista de um país que ao longo dos últimos dez anos tornou-se íntimo da morte", raciocina González, "dá para perceber que o esqueleto é uma referência nítida e concreta à situação vigente."

Desconhecida da maioria dos mexicanos até pouco tempo atrás, essa figura mortuária lembra as representações medievais da sinistra ceifadora, embora seja diferente dos divertidos esqueletos exibidos pelos mexicanos no Dia dos Mortos - data em que os entes queridos levados pela morte retornam para confraternizar com os vivos e ser por eles relembrados. Os altares da Santa Muerte podem agora ser encontrados por todo o México, nas esquinas e nos lares dos pobres. No coração da Cidade do México, em um bairro onde a vida foi sempre dura, Enriqueta Romero comanda, no primeiro dia de cada mês, uma sessão de preces em louvor ao esqueleto.

Enriqueta, uma figura ao mesmo tempo durona, desbocada e maternal, está entre os primeiros e mais efetivos propagandistas de um culto que alguns creem ter se iniciado em pequenas cidades ao longo do Golfo do México, e que agora cobre vasto território por todo o país. Também na Califórnia e na América Central, jovens acendem velas para La Santa Muerte e se tatuam com sua imagem. Alguns anos atrás, o Ministério do Interior revogou o registro do culto à santa como religião legítima, sem nenhum resultado. Bancas de jornais vendem vídeos com instruções sobre como apelar para ela, e até intelectuais refinados começam a dizer que a devoção é "muy auténtica".

Não apenas a crise mas também outros tipos de problema que as pessoas enfrentam hoje em dia alimentaram a expansão desses cultos. Imagine, por exemplo, que você viva em uma das cidades ao longo da fronteira dominada pelo tráfico de drogas e ouça todas as noites uma sinfonia de rajadas de metralhadoras, vivenciando o temor das balas perdidas. Será que você não acharia razoável pedir a proteção de alguma entidade como o bandido e narcossanto Jesús Malverde, reverenciado pelos traficantes? Os mexicanos que mantêm fortes laços com a Igreja Católica é possível que prefiram se voltar para São Judas. Num período em que proliferam situações sem saída, esse santo experimenta uma popularidade ascendente apenas comparável à da Santa Muerte, talvez por ser conhecido no catolicismo como o patrono das causas desesperadoras.

Quinze anos antes, um homem de pele crestada de sol chamado Daniel Bucio apelou pela primeira vez a São Judas, e há seis anos, diz ele, o santo atendeu a suas preces concedendo à mãe a cura de uma longa e dolorosa doença. Agora, Bucio vai todos os meses a uma igreja colonial de Santo Hipólito, construção que está adernando em razão do solo instável, situada logo atrás da faixa turística do centro histórico da Cidade do México, para agradecer à miraculosa estátua de São Judas, doada ao templo 30 anos atrás. (Os historiadores podem se espantar com a coincidência: foi justamente há 30 anos que os traficantes de Medellín, na Colômbia, famosos por sua devoção a São Judas, estabeleceram relações comerciais com seus colegas mexicanos.)