Rumo ao delta
A notável jornada de dois remadores que desbravaram os 1,5 mil quilômetros do Parnaíba, maior rio totalmente nordestino do Brasil
Christian Knepper
Christian Knepper
O fotógrafo Christian Knepper e o canoista Antônio Satyro desafiam as corredeiras de um trecho isolado do Parnaíba
O calor é insuportável na época que antecede a estação das chuvas no interior do Maranhão. Por isso, decidimos partir no início da noite da cidade de Alto Parnaíba, onde organizamos nossa parafernália de equipamentos e provisões. Seguiremos de jipe até a distante chapada das Mangabeiras, onde nasce o rio Parnaíba. Dali, movidos pelo espírito da descoberta, partiremos para desvendar as paisagens e registrar os perigos que ameaçam o maior rio 100% nordestino – só é menor que o São Francisco, que nasce no Sudeste. Será minha mais difícil jornada por essas bandas.
Nasci em Morsum, uma aldeia no norte da Alemanha, mas há 15 anos me transferi para o Maranhão, encantado com a grandeza da gente simples do interior e os cenários tropicais, que tenho fotografado desde então. O Parnaíba, o generoso leito de águas que corre do sertão ao mar, é ainda um mistério para mim. Muitos já sonharam com a aventura, mas a travessia completa, a remo, só fora feita por uma pessoa, o ambientalista Judson Barros, que passou um ano a bordo de uma canoa, entre 2000 e 2001, convivendo com isolados ribeirinhos e analisando os primeiros sintomas das perigosas transformações naturais trazidas sobretudo pela agricultura em larga escala. Agora, segue comigo o canoísta paranaense Antônio Luiz Satyro, cuja experiência vai facilitar a travessia dos trechos mais complicados. Com quase 1,5 mil quilômetros de extensão, o Parnaíba nasce em meio ao cerrado selvagem, escorre em corredeiras perigosas, demarca toda a fronteira com o Piauí e deságua no Atlântico, formando um dos raríssimos deltas oceânicos do mundo.
13/11/2004, segundo dia
Em pouco tempo mergulhamos no silêncio da noite sem Lua do sertão. Nosso guia é Luizinho, mecânico, motorista e conhecedor da região – qualidades preciosas nessa terrra cheia de areias traiçoeiras. O destino: Brejinho, um povoado a 150 quilômetros. Por ali, é comum que se passem semanas sem que nenhum carro seja visto. Os ouvidos sensíveis dos sertanejos detectam a chegada de um veículo com impressionante antecedência. Famílias inteiras, lamparinas nas mãos, postam-se como comitê de recepção na frente das casas. Não parar por alguns instantes para um café é falta de educação.
A hospitalidade sertaneja também nos garantiu um belo jantar: arroz, fava e paçoca. Estávamos exaustos, mas não pudemos cair na rede sem antes matar a curiosidade dos moradores sobre o caiaque – objeto que jamais fora visto por eles.
14/11
Às 3 da madrugada, já estamos de pé, e transferimos o equipamento para um carro de boi. Partimos na companhia de Joaquim, que toca o carro, e Bilé, o guia. Depois de seis horas de caminhada, avistamos ao longe um vale verde com uma fileira de buritis: a barra do Tucum, afluente do rio Parnaíba, onde finalmente iniciaremos a remada. Eu e Satyro acampamos à beira do rio, mas, de repente, o tempo começa a mudar: por 30 minutos, somos sacudidos pela chuva e pelos ventos fortíssimos, que chegam a derrubar árvores de 15 metros de altura. Eu nunca havia visto uma tempestade tão forte. Por sorte, saímos ilesos.
15 e 16/11
Enfim, remamos. A correnteza firme nos faz deslizar sem esforço. Os bichos parecem perplexos e curiosos com essa coisa azul – o nosso caiaque – descendo o rio selvagem. Casais de araras parecem nos seguir, tucanos e patos também. Aos poucos, a largura, o volume da água e a quantidade de curvas do Parnaíba vão aumentando. E não há moradores, nenhum sinal de presença humana: estamos numa área de mais de 700 mil hectares dentro da chapada das Mangabeiras, divisa entre os estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia, que foi transformada em 2002 no Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba.
É como uma chegada ao éden. Bancos de areia surgem sobre águas cristalinas, e buritis e árvores com flores amarelas projetam-se nas margens. As araras ressurgem, em bandos. Serras imponentes, com paredões vermelhos, rebrilham no horizonte. Grandes iguanas, desconfiadas, se jogam na água bem diante do caiaque. Sem querer, perturbamos o banho de Sol de um jacaré. Talvez eu nunca tenha estado num lugar tão selvagem.
Sem sinal de poluição ou da presença humana, bebemos a água do rio. Apesar da fome, decidimos preparar apenas uma refeição, no fim de cada dia. Assim ganhamos tempo, pois as bagagens ficam guardadas em sacos impermeáveis.
