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Edição 67/Outubro de 2005 31/08/2011

Rumo ao delta

A notável jornada de dois remadores que desbravaram os 1,5 mil quilômetros do Parnaíba, maior rio totalmente nordestino do Brasil

por Christian Knepper

Christian Knepper

Canoistas desafiam as corredeiras do rio Parnaíba

Christian Knepper

O fotógrafo Christian Knepper e o canoista Antônio Satyro desafiam as corredeiras de um trecho isolado do Parnaíba

O calor é insuportável na época que antecede a estação das chuvas no interior do Maranhão. Por isso, decidimos partir no início da noite da cidade de Alto Parnaíba, onde organizamos nossa parafernália de equipamentos e provisões. Seguiremos de jipe até a distante chapada das Mangabeiras, onde nasce o rio Parnaíba. Dali, movidos pelo espírito da descoberta, partiremos para desvendar as paisagens e registrar os perigos que ameaçam o maior rio 100% nordestino – só é menor que o São Francisco, que nasce no Sudeste. Será minha mais difícil jornada por essas bandas.

Nasci em Morsum, uma aldeia no norte da Alemanha, mas há 15 anos me transferi para o Maranhão, encantado com a grandeza da gente simples do interior e os cenários tropicais, que tenho fotografado desde então. O Parnaíba, o generoso leito de águas que corre do sertão ao mar, é ainda um mistério para mim. Muitos já sonharam com a aventura, mas a travessia completa, a remo, só fora feita por uma pessoa, o ambientalista Judson Barros, que passou um ano a bordo de uma canoa, entre 2000 e 2001, convivendo com isolados ribeirinhos e analisando os primeiros sintomas das perigosas transformações naturais trazidas sobretudo pela agricultura em larga escala. Agora, segue comigo o canoísta paranaense Antônio Luiz Satyro, cuja experiência vai facilitar a travessia dos trechos mais complicados. Com quase 1,5 mil quilômetros de extensão, o Parnaíba nasce em meio ao cerrado selvagem, escorre em corredeiras perigosas, demarca toda a fronteira com o Piauí e deságua no Atlântico, formando um dos raríssimos deltas oceânicos do mundo.

13/11/2004, segundo dia

Em pouco tempo mergulhamos no silêncio da noite sem Lua do sertão. Nosso guia é Luizinho, mecânico, motorista e conhecedor da região – qualidades preciosas nessa terrra cheia de areias traiçoeiras. O destino: Brejinho, um povoado a 150 quilômetros. Por ali, é comum que se passem semanas sem que nenhum carro seja visto. Os ouvidos sensíveis dos sertanejos detectam a chegada de um veículo com impressionante antecedência. Famílias inteiras, lamparinas nas mãos, postam-se como comitê de recepção na frente das casas. Não parar por alguns instantes para um café é falta de educação.

A hospitalidade sertaneja também nos garantiu um belo jantar: arroz, fava e paçoca. Estávamos exaustos, mas não pudemos cair na rede sem antes matar a curiosidade dos moradores sobre o caiaque – objeto que jamais fora visto por eles.

14/11

Às 3 da madrugada, já estamos de pé, e transferimos o equipamento para um carro de boi. Partimos na companhia de Joaquim, que toca o carro, e Bilé, o guia. Depois de seis horas de caminhada, avistamos ao longe um vale verde com uma fileira de buritis: a barra do Tucum, afluente do rio Parnaíba, onde finalmente iniciaremos a remada. Eu e Satyro acampamos à beira do rio, mas, de repente, o tempo começa a mudar: por 30 minutos, somos sacudidos pela chuva e pelos ventos fortíssimos, que chegam a derrubar árvores de 15 metros de altura. Eu nunca havia visto uma tempestade tão forte. Por sorte, saímos ilesos.

15 e 16/11

Enfim, remamos. A correnteza firme nos faz deslizar sem esforço. Os bichos parecem perplexos e curiosos com essa coisa azul – o nosso caiaque – descendo o rio selvagem. Casais de araras parecem nos seguir, tucanos e patos também. Aos poucos, a largura, o volume da água e a quantidade de curvas do Parnaíba vão aumentando. E não há moradores, nenhum sinal de presença humana: estamos numa área de mais de 700 mil hectares dentro da chapada das Mangabeiras, divisa entre os estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia, que foi transformada em 2002 no Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba.

É como uma chegada ao éden. Bancos de areia surgem sobre águas cristalinas, e buritis e árvores com flores amarelas projetam-se nas margens. As araras ressurgem, em bandos. Serras imponentes, com paredões vermelhos, rebrilham no horizonte. Grandes iguanas, desconfiadas, se jogam na água bem diante do caiaque. Sem querer, perturbamos o banho de Sol de um jacaré. Talvez eu nunca tenha estado num lugar tão selvagem.

Sem sinal de poluição ou da presença humana, bebemos a água do rio. Apesar da fome, decidimos preparar apenas uma refeição, no fim de cada dia. Assim ganhamos tempo, pois as bagagens ficam guardadas em sacos impermeáveis.

 

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