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Edição 121/Abril de 2010 01/09/2011

Rio Tietê, o renascido

O rio Tietê é um símbolo da poluição no Brasil. Mas, no interior de São Paulo, ele volta à vida

por Thiago Medaglia

Valdemir Cunha

Tietê: em Pereira Barreto, algumas gotas de cloro bastam para tornar a água do Tietê potável

Valdemir Cunha

Pescadores e crianças usam os piers sobre o rio. Em Pereira Barreto, algumas gotas de cloro bastam para tornar a água do Tietê potável

Quem passa pela cidade de Pereira Barreto pode perceber dois rios Tietê. Um deles, o rio da memória, resiste na narrativa dos moradores mais velhos. Ele corre num leito pouco largo, rodeado por mata fechada e com pegadas de animais selvagens nas praias de areia branca. A água, limpa e fresca, tem um tom de chá e escorre num corpo sinuoso, sob o qual repousa um fundo irregular. Os enclaves submersos escondem peixes maiores que homens. Nos declives abruptos, formam-se cachoeiras, nas quais, em dias de sol forte, o vapor levantado faz surgir pequenos arco-íris. Esse Tietê não existe mais: habita apenas o passado, perdido entre as recordações e o desejo dos viajantes que não chegaram a tempo.

O outro Tietê é um pouco menos romântico, porém nada ausente. Salta tanto aos olhos quanto o rio imundo que se vê na capital paulista, símbolo da poluição no Brasil, só que vivo e limpo. Em Pereira Barreto, espalha-se por margens quilométricas e, mesmo sendo rio, tem cara de mar - na verdade, a represa da usina Três Irmãos, que no começo da década de 1990 transformou para sempre a paisagem local. Uma leve brisa sopra, empurrando as pequenas ondas na beira. Na água azulada, não se apreciam mais cachoeiras nem rochas. Tudo está embaixo d'água. Ladeada por gramados, campos de futebol, rampas de skate, quiosques com churrasqueira e pistas de cooper, a praia da cidade - apesar de ser um aterro artificial - é o ponto de encontro de jovens despreocupados e adultos com disposição para o esporte. "É a nossa melhor opção de lazer", conta o pereira-barretense Sérgio Esperança Júnior, de 16 anos. "Na verdade, é a única opção", corrige o garoto, que fuma um narguilé (cachimbo de água) ao lado de três amigos.

Sim, o velho Tietê, a mesma torrente a escancarar em seu leito sem vida o esgoto da cidade de São Paulo, é a praia dos paulistas em sua porção sertaneja. Questão, também, de comodidade. De Pereira Barreto, uma viagem ao litoral norte do estado tomaria nove horas de estrada. Melhor curtir o rio. Até a festa de Carnaval deste ano foi à beira dele. Batizado de Carnapraia, o evento atraiu, de acordo com a prefeitura local, 35 mil pessoas (10 mil a mais que o número de habitantes do município). A música alta (forró, rock anos 80 e axé) parece não incomodar ninguém além de mim. Na areia quente, moças esticam suas cangas, casais caminham na orla, moleques brincam dentro d'água e, vez ou outra, uma lancha ou um jet-ski rabiscam o horizonte.

No interior, descobre-se logo, a relação das pessoas com o Tietê é de mais carinho. O milagre de seu renascimento começa a tomar forma desde a cidade de Barra Bonita, a 287 quilômetros da capital, onde já há pescaria, passeios turísticos e esportes náuticos. Em Pereira Barreto, no fim do dia, é comum ver moradores saindo de casa com cadeira de praia numa das mãos e vara de pescar na outra. A beira-rio é um antídoto para o estresse do cotidiano, um cenário de contemplação. Tudo o que se espera, talvez, de um curso d'água com essa dimensão.

Antes de atravessar, castigado, a maior cidade do hemisfério Sul, o Tietê, principal rio do estado, brota potável do solo em uma pequena poça d'água nas encostas da serra do Mar, a 22 quilômetros do Atlântico, no município de Salesópolis. "Numa insistência turrona paulista", notada pelo poeta Mário de Andrade, ignora a morte rápida no destino final de todos os rios e, de costas para o mar, corre teimoso no sentido oeste. "Por que me impedes a fama das tempestades do Atlântico?", esbravejou, outra vez, o escritor. Até a foz, no rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso, vai percorrer 1 136 quilômetros. As gotas milagrosas da nascente irão, enfim, encontrar o oceano, mais de 5 mil quilômetros depois, no estuário do rio da Prata, na divisa entre Uruguai e Argentina. E pensar que o Tietê é conhecido em todo o mundo pela imundície na megalópole e pelo trânsito caótico nas avenidas que o margeiam. É uma fama injusta: esse trecho corresponde a menos de 2% de seu percurso total.

Três Irmãos, em Pereira Barreto, é a última e a maior entre todas as seis usinas ao longo do rio - as outras são Barra Bonita, Bariri, Ibitinga, Promissão e Nova Avanhandava. Juntas, elas promovem a produção de energia, favorecem a irrigação de cana-de-açúcar (um monótono mas profícuo oceano verde no interior de São Paulo) e possibilitam a navegação comercial na hidrovia Tietê-Paraná, a mais extensa do Brasil.

Com a inundação nos anos 1990 durante a construção de Três Irmãos, o Tietê ganhou espaço e a água demarcou novos limites urbanos em Pereira Barreto. Num sobrevoo, a onipresença da água fica evidente - é como se o represamento tivesse transformado a cidade numa península. Há pontos em que o asfalto, construído antes das enchentes, simplesmente termina no rio. No Réveillon de 2009, aproveitando-se da queima de fogos na praia, três forasteiros assaltaram um posto de gasolina, mas não calcularam bem a rota de fuga. Chamaram a atenção de policiais e foram perseguidos em alta velocidade. Azarados, fugiram na direção errada e deram com o carro n'água. Dois deles morreram afogados.

Outro traço marcante do município é a grande quantidade de descendentes de japoneses, o que fica evidente na feição das pessoas, no nome das ruas e do comércio: o pesqueiro chama-se Hagimi, a venda de ovos é Takano, a óptica é Massuda, a elétrica é Komatsu e o mercado é Sakura, todos sobrenomes de famílias vindas ao país na primeira metade do século 20, quando o crescimento das lavouras de café no oeste paulista fez com que o governo brasileiro incentivasse a vinda de imigrantes da Europa e do Oriente.

 

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