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Edição 115/Outubro de 2009 02/12/2011

As superárvores     

As sequoias chegam a ser as árvores mais altas do planeta. Proporcionam madeira, geram empregos e protegem mananciais

por Joel K. Bourne, Jr. Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Michael Nichols

Parque Estadual de Sequoias Humboldt, no Norte da Califórnia

Michael Nichols

Um silêncio de catedral domina o santuário de árvores primárias do Parque Estadual de Sequoias Humboldt, no Norte da Califórnia

Em uma encosta na Califórnia repleta de sequoias enfezadas e arbustos venenosos, Mike Fay deu um passo em falso, escorregou e sentiu uma lasca na parte superior de seu pé esquerdo. Depois de andar centenas de quilômetros no mato calçando sandálias, ele estava acostumado com esse tipo de agressão contra seus pés de 52 anos. Mas aquela era a mãe de todas as estilhas. Ela foi desviada por um osso, alojou-se em um tendão e dali se recusou a sair. Por fim, sua parceira de trilha, Lindsey Holm, após vários puxões com um alicate, conseguiu remover a lasca de madeira.

"Foi uma das dores mais fortes que já senti", conta Fay. Para alguém que já foi ferido 16 vezes pelas presas de um elefante, dá para imaginar como o caso era sério. Mas ele enfaixou o ferimento, recolocou a mochila e saiu andando. Depois de três décadas ajudando a preservar as florestas africanas, Mike Fay, biólogo da Wildlife Conservation Society e explorador-residente da National Geographic Society, descobriu uma nova paixão: as sequoias. Sua obsessão pelas árvores gigantes surgiu anos atrás, depois de ter concluído o Megatransect, sua exploração da maior floresta intocada que resta na África. Certo dia, quando dirigia pelo litoral norte da Califórnia, Fay topou com trechos desmatados e florestas secundárias ralas. Em outra ocasião, num parque estadual, o tronco cortado de uma velha sequoia, medindo 1,8 metro, atraiu sua atenção. No cepo avermelhado haviam sido fixadas várias plaquetas e uma delas dizia: "Colombo, 1492".

"A que mais me impressionou estava a 8 centímetros da borda", diz Fay. "'Corrida do Ouro, 1849.' Foi então que me dei conta de que, nesses derradeiros centímetros que marcaram o fim da existência daquela árvore, havíamos liquidado quase toda uma floresta de 2 mil anos."

No outono de 2007, Fay decidiu ver com os próprios olhos de que modo a árvore mais alta do planeta havia sido explorada no passado e como estava sendo tratada hoje. Sua ideia era percorrer toda a extensão das míticas florestas de sequoia da Califórnia, a fim de descobrir se havia alguma maneira de maximizar tanto a extração de madeira quanto os benefícios ecológicos e sociais. Se esse tipo de manejo fosse possível, acreditava ele, também seria viável em outras regiões do planeta. Ele e Lindsey fizeram fotos e tomaram notas durante os 11 meses da expedição, registrando a fauna e a flora silvestres, assim como as condições da mata e dos cursos d'água. Também conversaram com o povo da região, pessoas dependentes da floresta.

Era um ano auspicioso para se percorrer as florestas. Após décadas de enfrentamentos com ambientalistas e autoridades em razão de sua agressiva política de desmatamento, a madeireira Pacific Lumber Company estava insolvente e passava por complicado processo de reorganização. Mesmo com grande parte da mata primária remanescente sob proteção, as populações de espécies emblemáticas - as corujas-do-mato-setentrionais, as aves marinhas conhecidas como airos-marmoreados e os salmões-prateados - continuavam em declínio, ao mesmo tempo que a crise da economia e o estouro da bolha imobiliária causavam o fechamento de serrarias. Além disso, incêndios devastaram centenas de milhares de hectares. E o turismo estava em baixa.

No entanto, havia algo a mais brotando em meio às árvores. O burburinho entre ambientalistas, engenheiros florestais e até algumas madeireiras era de que o manejo das sequoias havia chegado a uma encruzilhada histórica - momento em que a sociedade poderia deixar para trás as discussões sobre derrubar ou não e adotar outro tipo de manejo, capaz de beneficiar as pessoas, a fauna e o planeta. Quanto mais Fay explorava, mais convencido ficava de que esse era de fato o caminho a seguir. "A Califórnia revolucionou o mundo com o chip de silício", diz Fay. "Agora pode fazer o mesmo com o manejo florestal."

Fay e Lindsey iniciaram sua caminhada pela ex-tremidade sul da floresta. Exceto em pequenos parques, onde toparam com raros trechos de espécimes antigos, eles ziguezaguearam por 2,9 mil quilômetros através de bosques que haviam sido desbastados pelo menos uma vez desde 1850, deixando ilhas de florestas secundárias mais altas em meio a um mar de árvores pequenas.

Foi em um glorioso dia de maio, porém, quando estavam prestes a completar três quartos da travessia, que eles chegaram ao Parque Estadual de Sequoias Humboldt, o qual abriga o maior trecho contínuo - cerca de 4 mil hectares - de floresta original. Os terrenos planos aluviais ao longo de seus córregos e rios constituem hábitat ideal para as árvores - a combinação de solos ricos, água e névoa vinda do oceano resultou ali na floresta mais alta do mundo. Das 180 sequoias maiores que 106 metros que se conhecem, mais de 130 se encontram nessa reserva.