Sociologia verde
O cenário dos engenhos de Pernambuco inspirou Gilberto Freyre a debater, com prioneirismo, a ecologia no Brasil
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Edição 125 – Nordeste verde - Pitu do rio Una - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
O pitu do rio Una é uma iguaria conhecida. "O Una tornou-se famoso pelos pitus que os senhores-de-engenho da Várzea do Una tinham sempre à mesa nos dias dos grandes jantares", escreveu Gilberto Freyre em Nordeste
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Edição 125 – Nordeste verde - Usina Central, em Barreiros - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
Os estilhaços de uma janela permitem entrever o que restou da Usina Central, em Barreiros. O cenário dos engenhos de Pernambuco inspirou o sociólogo Gilberto Freyre a discutir, pela primeira vez, a ecologia do Brasil.
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Edição 125 – Nordeste verde - Jangadas de pesca - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
Jangadas de pesca deslizam sob o mar sem fim que encara a praia de Gravatá. O aspecto selvagem contrasta com uma história movimentada: em Gravatá ficava um porto ao qual chegavam trens carregados de açúcar dos engenhos no interior, e ali Gilberto Freyre e o então governador Estácio Coimbra se refugiaram durante o levante da Revolução de 30, antes de partirem para o exílio em Portugal.
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Edição 125 – Nordeste verde - Pesca noturna de siri - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
Um grupo dedica-se à pesca noturna de siri, uma alternativa para garantir algum sustento à família.
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Edição 125 – Nordeste verde - Pés de cana-de-açucar - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
Pinhões cintilantes adornam os pés de cana-de-açúcar e transformam a plantação em um mar verde que brilha sob o sol fraco do outono nordestino. A época da colheita, que ocorre entre setembro e março, teve fim e novas mudas começam a vicejar. A necessidade de mecanização da colheita encareceu o processo e foi um dos fatores que causaram a decadência do setor canavieiro em Pernambuco.
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Edição 125 – Nordeste verde - Destilaria São Luís, em Maraial - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
A fumaça sinaliza que a Destilaria São Luís, em Maraial, está em operação. A cidade ainda depende da indústria da cana para prover de atividade econômica parte de sua população "Não há outro modo de vida nesta região", diz Luiz Antônio Queiroga, um dos proprietários.
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Edição 125 – Nordeste verde - Casas modestas dos moradores de Barreiros - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
Os moradores de Barreiros e suas casas modestas despontam em uma ruela, sufocados pelo longo muro que os separa das ruínas da Usina Central. Essa centenária produtora de açúcar de Pernambuco encontra-se hoje desativada. Em junho, uma enchente dramática desabrigou 30 mil pessoas, mas a cidade saberá se reerguer - assim como superou o fim do ciclo da cana-de-açúcar.
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Edição 125 – Nordeste verde - Moradora do Engenho Queimadas- Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
O relevo nas mãos da moradora do Engenho Queimadas mostra que o tempo passou tanto para ela quanto para o lugar - uma outrora rica propriedade que hoje está reduzida a um punhado de casebres. Foi no Queimadas que Gilberto Freyre redigiu parte de Nordeste, livro no qual ensaia uma abordagem ecológica da Zona da Mata, discutindo a diversidade natural da região e a ameaça ambiental dos engenhos.
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Edição 125 – Nordeste verde - Casa-grande do Engenho Morin - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
A imponente casa-grande do Engenho Morim é o último símbolo de resistência das antigas moradas senhoriais da Zona da Mata. Todas as outras foram destruídas.
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Edição 125 – Nordeste verde - Antiga estação de trem Engenho Tentugal - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
Carcomida por décadas de abandono, a parede da caixa-d'água da antiga estação de trem Engenho Tentugal é herança do Pernambuco que Gilberto Freyre percorreu no início do século 20, antes de escrever Nordeste.
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Edição 125 – Nordeste verde - Caminhões de cana-de-açucar - Fotos Gilberto Freyre e o meio ambiente do Nordeste
Izan Petterle
Os velhos caminhões de cana-de-açúcar, que transportam o resultado da colheita até as usinas, são comuns nas pequenas estradas de terra do interior pernambucano.
Uma das consequências notáveis do ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste brasileiro, além do impacto ambiental, foi o surgimento de cidades que se desenvolveram ao redor dos engenhos. Barreiros é um bom exemplo. A maior cidade na Zona da Mata do sul de Pernambuco já ostentou a mais importante produtora de açúcar e álcool do estado, a Usina Central. A economia açucareira impulsionou o crescimento vertiginoso do lugar, mas a falência da empresa, no início dos anos 2000, por pouco não decretou o fim de toda a atividade econômica local. O município sobreviveu amparado numa ampla rede regional de comércio e serviços. Em junho, com as fortes chuvas que castigaram a região, Barreiros enfrentou uma espécie de segunda morte - dos 40 mil habitantes 30 mil ficaram desabrigados.
"Nos anos áureos do começo do século 20, o trem todos os dias ia e vinha pela estrada de ferro, levando açúcar até um porto no litoral", recorda-se Luís Lacerda, o Lula, criado no ambiente dos engenhos e diretor de usinas durante 15 anos. As ruínas da enorme Usina Central são testemunhas inertes do tempo em que a cana movimentava a vida do lugar. Observo o semblante resignado dos moradores nas entradas do casario antigo pela janela do carro de Lacerda. "A decadência das usinas em Pernambuco está ligada aos altos custos relacionados à mecanização do processo de corte da cana, por causa da topografia acidentada da região", explica Lacerda. Ele conta que há 20 anos o estado possuía cerca de 80 indústrias de açúcar. "Agora restam apenas 22 delas, das quais apenas sete estão em condições financeiras razoáveis", conclui.
Depois de serpentear ruas estreitas e margear o longo muro que separa a cidade do que restou da Usina Central, o carro alcança a entrada da propriedade. As residências dos funcionários permanecem de pé, numa fileira linear de casinhas brancas, e diante delas um destruído playground atesta que crianças já se divertiram por ali. "Eu brinquei muito neste parquinho", conta Lacerda. Seu pai era gerente do Engenho Tentugal, um dos mais antigos da região, e de vez em quando vinha à usina visitar amigos. De repente, do interior de uma moenda surge um senhor negro de foice na mão. Ele tem cara de poucos amigos e vem em nossa direção. Lacerda se antecipa e explica quem somos - e, então, a tensão se desfaz. O capataz da propriedade obsoleta abre um largo sorriso. "Seu pai me criou desde que eu tinha 9 anos; foi meu padrinho!", conta José Guilherme de Almeida, de 61 anos. Alguns anos mais novo, Lacerda logo se lembrou dele - outra memória que emergia naquele instante de sua infância nos engenhos.
A súbita emoção do encontro inusitado quase leva Lacerda às lágrimas e também explica minha própria presença em Pernambuco. Pois traduz a história que eu pretendo contar: o embate inevitável do passado com o presente, com as sequentes transformações ambientais e sociais - no caso, envolvendo uma gente que nasceu e cresceu tendo como referência o ciclo da cana-de-açúcar nordestino e a hierarquia social resultante das poderosas usinas que decaíram. Esse é o universo de Gilberto Freyre.
Izan Petterle
Um dos mais importantes e polêmicos intelectuais da história brasileira, o sociólogo e antropólogo pernambucano Gilberto Freyre completaria 110 anos em 2010 - faleceu em 1987. Nas páginas de Nordeste, lançado em 1937, Freyre foi um visionário ao perscrutar questões ambientais no campo da sociologia. Um dos pressupostos de seu trabalho era que o meio ambiente - no nosso caso, tropical - teve grande impacto sobre os rumos da civilização que aqui floresceu. Em Nordeste, a discussão do conceito de ecologia surge como mais uma ferramenta na busca daquilo que Freyre chamou, ao longo de toda a sua obra, de "civilização dos trópicos".
No prefácio da primeira edição do livro, o escritor afirma: "Este ensaio é uma tentativa de estudo ecológico do Nordeste do Brasil". A abordagem pioneira da obra pretendia dar conta da natureza da Zona da Mata, ao revelar um cenário nordestino que não era aquele massacrado pela aridez e pela seca, mas sim um ambiente fértil, formado de terras úmidas e águas generosas que abrigavam animais e propiciavam a abundância da lavoura. Freyre denunciou a devastação desse ambiente, abatido pelas mazelas da monocultura da cana-de-açúcar e pela prática criminosa das queimadas. O alvo principal de suas críticas sempre foi o usineiro. "O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório das caldas fedorentas de suas usinas", escreveu em Nordeste.
"De fato, ele comprou muita briga com os usineiros da região", conta Sônia Freyre, filha do sociólogo e presidente da instituição que leva o nome do pai. A Fundação Gilberto Freyre fica no bairro de Apipucos, em Recife, e é mantida na mesma casa onde o escritor morou com a esposa, Magdalena, e os dois filhos, João e Sônia, por mais de 40 anos. Quando chegou à casa, o recifense Freyre já era conhecido pelo livro que considerava sua "obra germinal", Casa-Grande & Senzala, lançado em 1933. Depois da publicação, ele tornou-se um dos mais influentes pensadores brasileiros, defensor da mestiçagem e da "civilização dos trópicos", ideias inovadoras lançadas em um mundo dominado pelo pensamento ocidental europeu, no qual ninguém via de forma positiva a mistura de raças e a sociedade tropical.
Nordeste, seu segundo livro, foi escrito na capital e no Engenho Queimadas, também localizado na Zona da Mata pernambucana. Para redigi-lo, Freyre percorreu um itinerário que parte da capital de Pernambuco e vai até a fronteira com Alagoas, um território dominado por vastas plantações de cana-de-açúcar, que se estendem como um mar verde ao redor de engenhos, rios, animais, da Mata Atlântica e do homem - algoz e vítima dessa história. Mais de 70 anos depois, tendo o livro como guia, tento refazer a trajetória traçada pelo então jovem sociólogo.
