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Socotra: a ilha da bio-estranheza

A isolada Socotra, a 350 quilômetros ao largo do Iêmen, abriga uma imensa variedade de plantas e animais inusitados, perfeitamente adaptados a um ambiente agreste, muito quente e fustigado por ventanias

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL ONLINE   |   Por: Mel White
« Agosto de 2012 - Edição 149

É quase meia-noite na ampla colina conhecida como Firmihin, onde cresce uma floresta de dragoeiros. A lua, uma noite depois do plenilúnio, inunda a paisagem recortada de um prateado refrescante. Dentro dos muros de pedra do lugar onde vive um pastor, as chamas iluminam os rostos de quatro pessoas descalças que, sentadas ao redor da fogueira, compartilham chá quente com leite fresco de cabra.

Neehah Maalha veste uma espécie de sarongue conhecido como fouta; a sua mulher, Metagal, está com um vestido comprido e, na cabeça, um lenço de tom roxo vívido. Eles contam da vida que levam na ilha de Socotra, usando uma língua de origem imemorial – inalterada há séculos e hoje falada por menos de 50 mil pessoas.

Embora o casal seja analfabeto, ambos sabem que a nova placa ao pé da colina informa que Firmihin foi declarada reserva natural protegida. Forasteiros costumam visitar o seu povoado, contam eles, para fotografar os dragoeiros, as plantas conhecidas como rosas-do-deserto e as flores asclepiadáceas mishhahir. Também aparecem por lá cientistas, que reviram as pedras, dizendo que estão coletando insetos e lagartos. Mas, na verdade, o que será mesmo que estão procurando?

Localizada no mar da Arábia, a 350 quilômetros da costa do turbulento Iêmen, do qual faz parte, Socotra foi no passado um local lendário que ficava no extremo dos mapas do mundo então conhecido. Para os marinheiros, era um lugar temível, com baixios traiçoeiros, tempestades ferozes e moradores que tinham a fama de controlar os ventos e de conduzir os barcos às suas praias para que fossem capturados e saqueados. Atualmente, porém, é a rica diversidade biológica de Socotra que atrai novos exploradores, os quais esperam desvendar os segredos locais antes que a ilha seja para sempre alterada pelo mundo moderno.

De um instante para outro, a preocupação estampada no rosto de Metagal dá lugar a um sorriso absorto. Ela desaparece na escuridão e, ao voltar, me oferece um pequeno pacote embrulhado em papel. Não estaria interessado em comprar um pouco de incenso? Neehah apanha um pedaço minúsculo e o coloca sobre uma brasa na fogueira. A fumaça se eleva rodopiando e aspiramos o rico aroma que perfumou os funerais dos faraós e os templos dos deuses gregos.

Os antigos egípcios, gregos e romanos aproveitaram todos os tesouros do mundo natural de Socotra: resinas aromáticas como o olíbano, o extrato medicinal de aloé e o sangue-de-drago, a seiva rubra do dragoeiro, usada tanto na medicina como corante. As riquezas da ilha eram retiradas por aventureiros, a despeito dos relatos de que era protegida por serpentes gigantes que viviam em suas cavernas. A rainha de Sabá, Alexandre Magno e Marco Polo estavam entre os que cobiçaram as riquezas de Socotra.

O valor do olíbano e do sangue-de-drago alcançou o auge na época do Império Romano. Depois disso, a ilha serviu sobretudo de escala para mercadores, atravessando séculos em relativo isolamento cultural. Os habitantes de Socotra continuaram a viver, geração após geração, tal como os seus antepassados: nas montanhas, os beduínos cuidavam dos rebanhos de cabras; no litoral, vivia-se da pesca; e todos colhiam os frutos das tamareiras. A história da ilha era transmitida por meio da poesia, recitada na língua socotri.

Além de sua posição estratégica diante do Chifre da África, simplesmente não havia nada mais em Socotra que despertasse o interesse do resto do mundo. Mas isto mudou.