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Edição 51/Julho de 2004 02/12/2011

Uma estrela tempestuosa 

O Sol: apenas agora estamos realmente começando a compreender este reator termonuclear

por Curt Suplee Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Oddbjorn Engvold, Jun Elin Wiik, Luc Rouppe Van Der Voort

núcleo escuro de uma mancha solar

Oddbjorn Engvold, Jun Elin Wiik, Luc Rouppe Van Der Voort

O núcleo escuro de uma mancha solar, com diâmetro igual ao da Terra, e a formação em espiral ao seu redor nunca foram fotografados com tanta clareza. As imagens do novo Telescópio Solar Sueco, nas ilhas Canária, vêm unir-se aos dados de observatórios terrestres e espaciais que fazem do nosso tempo a "época de ouro" da ciência solar. O Sol possibilita a vida na Terra, mas suas explsões também podem causar grandes estragos

São as chamadas “boas condições de visão”. Apertando os olhos para enxergar melhor nessa luminosa manhã, 2,4 mil metros acima do oceano Atlântico, no litoral da África, não é difícil compreender por quê. Para os astrônomos, boas condições de visão significam que a atmosfera permite uma imagem bem nítida e estável dos corpos celestes. E, de fato, é quase surrealista a claridade no céu azul-safira em La Palma, uma das ilhas mais ocidentais do arquipélago das Canárias.

“Estenda o braço até seu polegar cobrir quase todo o Sol”, diz Göran Scharmer, diretor do Instituto de Física Solar da Real Academia Sueca de Ciências. “Quando tudo fica azul-escuro, até a beirada de seu dedo, significa que teremos ‘céu de coronal’.” É por isso que ele e sua equipe estão ali, à beira da caldeira de um vulcão extinto, mil metros acima do tapete de nuvens no céu. Sua missão é tão antiga quanto a própria humanidade: estudar a bola de fogo que vemos no céu.

O Sol arde há 4,6 bilhões de anos, antes ainda de que existisse a Terra para aquecer-se desse brilho. Mas foi apenas nas últimas duas décadas que os cientistas começaram a compreendê-lo.

Segundo os padrões de grandeza galácticos, nossa estrela não tem nada de especial. É verdade que o Sol é tão imenso que nele caberia 1 milhão de planetas iguais à Terra. E é tão denso que os raios que vemos hoje começaram sua jornada do centro do Sol antes da última era glacial. Eles levaram centenas de milhares de anos para conseguir chegar à fotosfera luminosa, antes de fazer sua viagem de oito minutos, percorrendo 150 milhões de quilômetros no espaço, até chegar aos nossos olhos.

E, entretanto, o Sol entra na categoria geral das pequenas estrelas amarelas chamadas tipo G, uma espécie tão comum que há bilhões delas apenas na Via Láctea. O Sol é a fonte de quase toda a energia que sustenta a vida. Ele é a origem do nosso clima, o árbitro das nossas variações climáticas e, é claro, nossa conexão mais próxima com os processos físicos que ocorrem nas galáxias e movem o cosmo.

“O Sol é a Pedra de Roseta da astrofísica”, diz Scharmer cujas observações com o Telescópio Solar Sueco, de 1 metro de diâmetro, na ilha de La Palma, vem batendo recordes mundiais por sua alta resolução. “Mas ele guarda muitos segredos que ainda não conseguimos decifrar.”

Até hoje, quatro séculos depois que Galileu e outros astrônomos espantaram a Europa ao revelar as manchas que se movem pela superfície solar, muitos dos aspectos mais profundos da nossa estrela local continuam nas sombras do mistério. Agora os cientistas estão prestes a encontrar muitas respostas, graças ao aumento do interesse internacional registrado nos últimos 20 anos. E graças, também, a progressos nas modelagens feitas por computador e a novos instrumentos de alta tecnologia, tanto no solo como no espaço, capazes de monitorar aspectos sutis do comportamento solar, antes irreconhecíveis e por vezes inimagináveis.

“O que se fazia era uma ‘dermatologia’ solar”, diz Scharmer. “Agora é realmente astrofísica.” Porém, ainda é necessária uma resolução telescópica muito mais refinada. Vários cientistas crêem que algumas estruturas solares fundamentais têm apenas alguns poucos quilômetros de extensão. A resolução mais precisa do Telescópio Sueco é de 80 quilômetros, de modo que a equipe vem fazendo intenso esforço para aperfeiçoar seus instrumentos. O mesmo ocorre com os pesquisadores de dezenas de instituições terrestres, desde Sunspot, no estado americano do Novo México, até o pico das montanhas de Maui, no Havaí, e as desoladas vastidões da Sibéria. Acima do nosso planeta há cerca de dez grandes observatórios espaciais, quase todos lançados desde meados da década de 1990.