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Edição 92/Novembro de 2007 09/09/2011

Sombras da selva

A saga de dois índios piripkuras, do Mato Grosso, que sobreviveram a um massacre e foram localizados em agosto

por Felipe Milanez

Jair Candor

Nômades, os piripkuras costumam dormir direto no chão durante a estação seca.

Jair Candor

Nômades, os piripkuras costumam dormir direto no chão durante a estação seca.

No começo de agosto, dois índios de uma tribo que muitos consideravam extinta foram localizados no noroeste do Mato Grosso. Conhecidos como “piripkuras”, são sobreviventes de um massacre. A eterna rota de fuga dos misteriosos Tucan e Mande-í revela não apenas a saga de um povo perdido mas também a barbárie oculta sob o desmatamento na Amazônia.

Diz um famoso ditado entre os sertanistas que, “no mato, quem não quer ser visto deve ficar calado”. Por isso, assim que ouviu uma risada entre as árvores, o experiente Jair Candor também sorriu. Era 7 de agosto e, com a estiagem na Amazônia, o chão ardia da seca e das queimadas no norte do Mato Grosso. Depois de cinco meses e várias expedições da Frente de Proteção Etno- Ambiental Madeirinha, tudo o que seus exaustos integrantes haviam visto eram vestígios antigos de presença indígena nada inspiradores. Agora, com a simples risada, tudo mudava. A esperança da sobrevivência de dois índios remanescentes de massacres estava prestes a confirmar-se.

“Ficar um mês direto dentro da floresta não é fácil. Estávamos esgotados”, lembra-se Candor. “Insisti para seguirmos até o fim do igarapé Garcinha, mas foi só andar um pouco mais para ouvi-los conversando e encontrar pegadas. Estavam rindo alto, num papo animado. Paramos. Desci até a margem e esperei.”

O sertanista não se esquece dos detalhes do encontro.“ Quando os dois passaram, saltei na frente deles. O mais velho ameaçou me agredir, mas logo viram que éramos gente amiga.” Rita e Aripã, dois índios da expedição que agiam como intérpretes, começaram a conversar. “Então, eles aceitaram ir conosco até o acampamento”, completa Candor. “Sem a risada, a expedição teria passado a 30 metros deles, e não conseguiria contato.”

Ninguém sabe exatamente ainda a que etnia pertencem os dois índios buscados por Candor e sua equipe, mas a Fundação Nacional do Índio (Funai) refere-se a eles como Piripkura, um nome dado anos atrás pelos índios gaviões, também do noroeste do Mato Grosso. Sabe-se apenas a língua que falam, o tupi-kawahib (os povos indígenas dividem-se em famílias lingüísticas, e dentro delas existem as línguas e, culturalmente, as etnias). A despeito das incertezas, o encontro com os piripkuras talvez seja a descoberta mais relevante do indigenismo brasileiro no século 21. Desde que o etnólogo Curt Nimuendaju e o antropólogo Levy-Strauss passaram pela região, antes da metade do século passado, sabia-se da existência de um grupo tupi-kawahib habitando essa parte da floresta, há muito cobiçada por grileiros e madeireiros. Todavia, com a falta de novos sinais e a vulnerabilidade da área – não há reserva demarcada –, eles foram tidos como dizimados, até que, nos anos 1980, surgiram evidências de uma família com cerca de 20 índios morando nas proximidades do rio Pardo, 70 quilômetros ao norte de onde os dois piripkuras foram encontrados. Essa aldeia nômade ainda resiste? Como estão vivendo? O contato de agora poderá revelar a história de um povo que parece estar fugindo da colonização, a cada dia mais próxima e ameaçadora nesse rincão da Amazônia.

Tucan, cerca de 50 anos, o mais velho dos dois piripkuras, estava doente. No acampamento, a enfermeira Joelina Ribeiro Jorge, 57 anos, notou que a urina dele tinha “cor de Coca-Cola”, o que explicava as fortes dores no estômago que ele sentia, e decidiu mandá-lo para Ji-Paraná, em Rondônia. Sua vesícula estava necrosada. “Ele tinha pedras na vesícula do tamanho de bolas de gude. Uma semana mais e morreria”, relatou o cirurgião que o atendeu. Para piorar, depois de 15 dias na cidade, Tucan contraiu catapora. O outro índio, Mande-í, de uns 35 anos, ficou com a equipe de campo. Mas, entediado com as novas companhias e a monotonia do acampamento – ou talvez por pensar que Tucan estivesse morto –, voltou para a floresta, uma semana depois.

O período em que Tucan convalesce tem sido útil aos intérpretes que tentam desvendar o mistério do seu povo. Quando abro a porta do quarto no hospital de Ji-Paraná, o índio está estirado sobre uma rede. Parece desidratado, e o braço estendido deixa correr soro pelas veias. São quase 10 da manhã, e Mauro de Oliveira tenta apresentar-me a Tucan. Oliveira aprendeu a falar tupikawahib após o contato, em 1987, com índios uru-eu-wau-waus no leste de Rondônia. Hoje trabalha para a ONG indigenista Kanindé.

“Tapu’unha icatu”, diz ele para Tucan. “Branco bom”, traduz para mim. O índio tem o olhar distante. Sua pele é dura, cheia de calos grossos. E falta a ponta do dedo médio de sua mão direita: foi comida por um porco queixada.

 

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