Teatro Amazonas
Óperas, glamour e história em Manaus
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Rodrigo Baleia
<p> O público atravessa o largo São Sebastião para assistir ao festival anual de ópera da cidade. Depois de várias reformas, o prédio mantém-se bem conservado desde que foi tombado como patrimônio histórico, em 1966.</p>
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Rodrigo Baleia
<p> Inaugurado em 1896, o teatro fica no centro de Manaus, que foi fundada no fim do século 17 como um forte às margens do rio Negro. O salão, de 701 lugares e três pavimentos de camarotes, tem colunas de ferro francês, e suas pinturas retratam a fauna e a flora amazônicas. No teto está a maior e mais suntuosa delas: A Glorificação das Belas Artes na Amazônia, na qual musas descem das alturas sobre a floresta.</p>
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Amazonas Filarmônica tocando
Rodrigo Baleia
<p> Integrantes da Amazonas Filarmônica, a orquestra oficial do festival de ópera, afinam seus instrumentos. “Vejo-me um dia neste palco”, diz Heloisa Judith, de 14 anos, jovem manauense que cresceu atraída pela ribalta – é filha de músico.</p>
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Rodrigo Baleia
<p> Dançarinos ensaiam. “A monumentalidade do teatro configurava um processo maior de mudanças na Manaus do século 19. Antes de ser erguida, a obra já estava pronta no imaginário popular”, diz o historiador Otoni Mesquita.</p>
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Rodrigo Baleia
<p> O teatro, no centro da capital do Amazonas, era um ponto de encontro das elites da borracha. Cem anos depois, companhias de ópera estrangeiras são de novo vistas na cidade, em um festival anual.</p>
Vista de longe, a cúpula do Teatro Amazonas destaca-se no centro de Manaus como símbolo de um tempo glorioso. Há 100 anos, francês e inglês eram idiomas correntes nas ruas da capital amazonense, na boca de homens de negócio que portavam no bolso notas de libras esterlinas. Senhoras esbanjavam elegância em roupas finas encomendadas a costureiros da Europa. Pairava no ar o espírito da modernidade, do crescimento econômico e da renascença cultural. Manaus, na época, era “a única cidade brasileira a mergulhar de corpo e alma na franca camaradagem dispendiosa da belle époque”, observa o escritor Márcio Souza em seu livro História da Amazônia.
Estou sentada no largo São Sebastião, na frente do belo teatro de paredes rosadas, sorvete na mão para amenizar o calor. Casais apaixonados beijam-se sem pudor e pessoas circulam animadas pela noite. Gosto de vir para cá desde que morei em Manaus, em 2007. Já assisti a inúmeros concertos, espetáculos de dança, shows de jazz. Espremi-me na multidão para contemplar o prédio iluminado na noite de Natal. Não importa quanto tempo eu fique longe da cidade: sempre que volto, corro a essa praça que povoa minha mente de lembranças da história local.
A riqueza que fez de Manaus uma cidade cosmopolita e levou à construção do teatro foi gerada por uma árvore da floresta, a seringueira. No fim do século 19, a borracha, flexível e à prova d’água, causou furor em um mundo em plena expansão industrial, mas acostumado a lidar apenas com madeira e ferro. O látex, suco que emana da seringueira e é a matriz da borracha, respondia, em 1910, por um quarto de todas as exportações brasileiras, e saía da Amazônia em barcos a vapor direto para a Europa e os Estados Unidos, onde fábricas da Goodyear produziam de espartilho a mola para porta e zepelins.
A alta sociedade manauense apreciava a dramaturgia estrangeira, mas reclamava de seus palcos acanhados. O projeto do grande teatro ganhou corpo em 1893, com o governador Eduardo Ribeiro. “Ele queria usar a beleza para transforma a cidade”, diz Otoni Mesquita, professor da Universidade Federal do Amazonas. “E, naquele momento, aspirar melhores condições de vida implicava em reproduzir o modelo europeu.”
No porto no rio Negro, a cidade viu desembarcar materiais, arquitetos, construtores, pintores e escultores renomados vindos do Velho Mundo. Espelhos foram importados de Veneza; lajedos e escadarias de pedra, de Lisboa; a cúpula, em verde , amarelo e azul, possui 36 mil peças de escamas de cerâmica esmaltada e telhas vitrificadas na França. No começo de 1897, uma semana depois da inauguração, via-se no palco La Gioconda, de Ponchielli, apresentada pela Companhia Lírica Italiana. O Guarani, Fausto, Carmen e La Traviata foram outras famosas óperas assistidas a seguir no coração da selva. Doenças tropicais não impediam a vinda dos artistas, animados pelos ótimos cachês. (De acordo com o historiador Mário Ypiranga, em 1900, pelo menos seis deles morreram de febre amarela por não cuidar da saúde e se entregar a “excessos boêmios”.)
O teatro era um espaço social tão importante que mantinha o próprio jornal, A Platéa. Em 4 de maio de 1907, os textos mostravam indignação com o fato de que poucos cavalheiros sabiam vestir corretamente o smoking. A mesma edição revela que o chapéu das mulheres era uma questão polêmica: por menor que fosse, atrapalhava a vista de quem se sentava na poltrona de trás.
Entre outras regalias, as elites locais mandavam lavar roupa em Portugal e passavam férias em Nova York. Essa vida fácil iludiu os senhores da borracha. Para eles, a seringueira, ao contrário do ouro, uma riqueza finita da floresta, era uma planta que crescia em um ritmo de fartura eterna. Mas tanto esplendor começou a ruir diante da ambição de um único homem, o jovem inglês Henry Wickham, que convenceu o comandante de um navio a contrabandear 70 mil sementes de seringueira, a pedido do diretor do Jardim Botânico de Londres. Da Inglaterra, elas seguiram para a Malásia, onde milhares de árvores dispostas em plantações sistemáticas resultaram em produção intensa e regular – uma ideia simples e eficiente ignorada pelos barões de Manaus, acomodados na exploração extrativista.
Em 1914, o preço da borracha despencou no mercado internacional; dois anos depois, 200 firmas foram à falência em Manaus. E assim acabou o sonho de quem acendia charutos com notas de 1 000 réis. A cidade entrou em colapso, como descreve Márcio Souza: “Numa manhã calorenta, apareceram os quadros da falência: suicídios, navios lotados de arrivistas em fuga, famílias inteiras de mudança, palacetes abandonados”.
