O próximo abalo devastador
Mesmo entendendo terremotos há mais de um século, os cientistas estão realmente preparados para prevê-los com segurança?
Kimimasa Mayama
Kimimasa Mayama
Em outubro de 2004, um tremor de grau 6,6 sacudiu o município de Niigata, no Japão, matando dezenas de pessoas e desabrigando 100 mil
Uma longa e letal fissura na crosta terrestre, a falha de Hayward passa pelo sopé das colinas de Berkeley, exatamente sob o campus da Universidade da Califórnia. Sobre ela estão um teatro, alguns dormitórios e os degraus de concreto que levam ao estádio esportivo da universidade. Quem quiser pode até mesmo ficar com um pé em cada um de seus lados.
De acordo com um mapa, a falha passa entre as duas colunas que delimitam o gol na extremidade norte. Atravessa todo o campo, corre até sua extremidade sul e depois segue pela rua em direção à cidade de Oakland.
Na década de 1920, quando começaram a projetar um majestoso estádio de futebol americano na principal universidade da Califórnia, os arquitetos se recusaram a permitir que uma imperfeição geológica atrapalhasse seus planos. Os conhecimentos científicos a respeito dos terremotos ainda estavam em seus primórdios, mas os arquitetos aparentemente tinham consciência de que ali havia uma falha, ou seja, um local em que dois pedaços da crosta terrestre estão em contato e em movimento. Por isso, corajosamente, construíram um estádio bipartido, parecido com um grão de café, cuja linha central coincide com a falha, dividindo a estrutura em duas partes. Cada metade dele pode se mover independentemente da outra, acompanhando o deslocamento da crosta, sem sofrer nenhum dano.
Hoje, os cientistas sabem que o estádio de Hayward está se deslocando muito lentamente, milímetro por milímetro, ano após ano, sem cessar. No alto das arquibancadas, um dos professores da universidade, Richard Allen, me leva até um ponto em que se pode ver o resultado de 80 anos dessa movimentação: uma rachadura de 10 centímetros de largura no concreto, grosseiramente coberta com uma placa de metal enferrujado. Nós dois ficamos intrigados: que audácia construir um estádio sobre uma falha geológica!
Allen, no entanto, lembra que resta um problema incontornável: as falhas não apenas se movem pouco a pouco como também "quebram" ou "se rompem". O lento deslocamento ocorre à vista de todos, mas o rompimento, a fratura drástica e violenta - o tremor de terra -, ocorre de maneira imprevisível.
A falha de Hayward está entre as mais perigosas que existem. Além disso, uma vez que, desde 1868, ela não provoca nenhum tremor de grande intensidade, é bem provável que isto ocorra logo. Quase todo o estádio foi construído sobre um solo pouco consolidado, do tipo que amplifica as ondas sísmicas. "Em um terremoto", diz Allen, "o campo pode se liquefazer." Isso não significa que os jogadores afundariam como se tivessem caído em areia movediça, mas com certeza perderiam o equilíbrio e seriam derrubados pelo tremor.
Claro que agora um terremoto é a última coisa que passa pela cabeça daqueles que estão treinando nesse campo de futebol. Afinal, estamos em um quente dia de verão e daqui a poucas semanas tem início o campeonato. Os jogadores estão mais preocupados em ser convocados para o time. Ou, então, em vencer seus tradicionais adversários, a equipe de Stanford.
No estádio, fica evidente um problema fundamental dos abalos sísmicos: eles se recusam a respeitar os limites do tempo humano normal. As falhas que provocam tremores de terra têm o péssimo hábito de combinar uma enorme paciência com uma impulsividade explosiva. Ficam esperando, esperando, esperando - e então, de repente, elas se rompem.
