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EDIÇÃO 145/ ABRIL DE 2012 23/03/2012

Titanic - 100 anos depois

Novas imagens comprovam que, 100 anos depois, o maior transatlântico a singrar nos mares continua a assombrar nossa imaginação.

por Hampton Sides

Os destroços jazem na escuridão, uma confusão de aço corroído dispersa por 400 hectares no fundo do Atlântico Norte. Estranhas formas de vida, pouco afetadas pela pressão esmagadora, vagueiam pelas amuradas. Desde a descoberta do local do naufrágio em 1985 por Robert Ballard, explorador residente da NGS, e Jean-Louis Michel, submersíveis robóticos ou tripulados vasculharam os sombrios desvãos do Titanic, emitiram pulsos de sonar em sua direção, fizeram algumas imagens – e partiram.

Nos últimos anos, exploradores, como o cineasta James Cameron e Paul-Henry Nargeolet, coletaram imagens cada vez mais nítidas da embarcação. Todavia, quase sempre só pudemos vislumbrar a cena do naufrágio como se a víssemos pelo buraco de uma fechadura, com a visão limitada pelos sedimentos suspensos na água e pelo alcance dos holofotes dos submersíveis. Nunca foi possível ter uma ideia geral do relacionamento entre todos os elementos dispersos e disparatados no fundo do mar.

Essa situação começa a mudar. Em um trailer atulhado de equipamentos no Instituto Oceanográfico Woods Hole (Whoi, na sigla em inglês), William Lange debruça-se sobre a cópia ampliada de um mapeamento por sonar feito no local em que repousa o Titanic – um mosaico elaborado que levou meses para ficar pronto. À primeira vista, a imagem mais parece a superfície da Lua, mas um exame revela que o local está pontilhado de detritos de origem humana – uma confusão de linhas e esferas, fragmentos e estilhaços. Lange indica uma área no mapa que se tornou mais compreensível graças ao acréscimo de dados ópticos à imagem obtida pelo sonar. Ele faz um zoom, depois outro. Agora dá para ver a proa do Titanic com nitidez granulada, um buraco negro onde antes se erguia a chaminé dianteira e uma escotilha aninhada na lama uma centena de metros ao norte. As imagens são ricas em detalhes: em uma delas, dá para distinguir um caranguejo esbranquiçado agarrado a uma amurada.

Um simples movimento do mouse torna acessível todos os destroços do Titanic – cada turco, cada guindaste, cada caldeira. O que antes não passava de uma mixórdia indecifrável virou uma foto em alta resolução do acidente. “Agora sabemos onde está cada coisa”, diz Lange. “Após 100 anos, por fim, a cena toda está iluminada.”

Bill Lange é o responsável pelo Laboratório de Visualização e Imageamento Avançados do Whoi, um estúdio fotográfico de alta tecnologia dedicado à documentação das profundezas oceânicas. A poucos quarteirões do pitoresco porto de Woods Hole, na ponta sudoeste do cabo Cod, no estado de Massachusetts, o laboratório é uma sala cavernosa, com revestimento acústico, repleta de monitores de TV de alta definição em meio ao zumbido de fileiras de computadores. Lange foi um dos membros originais da expedição de Ballard que encontrou os destroços e, desde então, vem explorando o local com câmeras cada vez mais avançadas.

Esse último conjunto de imagens, resultado de uma ambiciosa e multimilionária expedição realizada em agosto e setembro de 2010, foi obtido por três veículos robóticos de ponta que se deslocaram no leito oceânico, cobrindo extensas faixas predeterminadas. Equipados com sonares de varrimento lateral e de feixes múltiplos, assim como câmeras ópticas de alta resolução que fazem centenas de fotos por segundo, os robôs foram “aparando a grama”, como essa técnica é mais conhecida, ao ziguezaguear por uma área de 5 por 8 quilômetros no fundo do mar. Esses levantamentos em faixas foram agora montados com tecnologia digital de modo a formar uma imensa imagem em alta definição, na qual todos os detalhes estão localizados por meio de sistemas reticulares e de georreferenciamento.

“Isso nos coloca em outro patamar”, comenta o arqueólogo James Delgado, da Noaa, órgão americano responsável pelos oceanos e a atmosfera, cientista-chefe do projeto. “No passado, tentar entender o Titanic era o mesmo que tentar compreender Manhattan à noite no meio de uma tempestade – usando apenas uma lanterna. Agora dispomos de uma área de pesquisa que pode ser compreendida e medida. Nos próximos anos, graças a esse levantamento histórico, será possível recuperar a voz daquelas pessoas que foram caladas quando afundaram nas águas frias.”

Por que, afinal, os destroços do RMS Titanic despertam tanto interesse? Por que, um século depois, as pessoas ainda dedicam tanto esforço intelectual e tantos recursos para vasculhar esse cemitério de metal 4 mil metros abaixo da superfície do oceano? Por que razão, tal como Pearl Harbor, o terreno no qual ficava o World Trade Center, em Nova York, e algumas outras raras e veneradas zonas de desastre, ele continua a seduzir nossa imaginação?

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