Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

Edição 40/Agosto de 2003 29/08/2011

No coração da selva

Expedição procura pelas últimas tribos selvagens da Amazônia

por Scott Wallace

Nicolas Reynard

Índios da tribo Canamari, na Amazônia

Nicolas Reynard

No calor da noite, na Amazônia, Alfredo, Bejou, José e Ramil - índios da tribo Canamari  que se juntaram à expedição - se besuntam com sementes para uma dança

Nessa manhã, encontramos indícios humanos recentes. Todos apontavam para a mesma direção da mata virgem em que marchamos, na parte mais ocidental da bacia Amazônica. Em algum lugar ao longe soa a zoada tagarela dos macacos-barrigudos, pontuada pelo zunido ocasional de um facão vibrando no ar e pelo canto estridente do pássaro capitão-do-mato. Os 34 homens da nossa coluna seguem silenciosos em fila indiana floresta adentro. O tempo todo, somente um ou dois companheiros ficam visíveis em meio ao torvelinho de verdes vibrantes e tons de marrom-ensopado-de-chuva. O resto é lançado para fora do âmbito de visão por uma cascata de galhos que pendem do alto, junto com cipós que descem por 30 metros da copa das árvores até o chão. À minha frente caminha Sydney Possuelo, a passos largos, por um estirão de terreno plano, folga bem-vinda da encosta íngreme dos morros que tivemos de galgar durante dias. “Nós somos provavelmente os primeiros a pisar aqui”, me diz ele. “Nós e os índios.”

Iconoclasta rabugento, de protuberantes olhos castanhos, barba grisalha e madeixas rebeldes ondulando sob o chapéu, Possuelo, 63 anos, é considerado um dos últimos grandes sertanistas da Amazônia e principal autoridade em matéria de redutos isolados de índios. Depois de duas semanas navegando pelo rio e 20 dias abrindo caminho pela mata, Possuelo nos conduziu para dentro de um dos lugares mais remotos e inexplorados do planeta, próximo às cabeceiras de dois rios adjacentes, o Itaquaí e o Jutaí. Essa é a terra dos misteriosos “flecheiros”, uma tribo raramente vista. Esses índios destacam-se sobretudo pela destreza no arco e pelas flechas de ponta envenenada que não hesitam em disparar na defesa de seu território contra intrusos de todo naipe.

De repente, Possuelo estanca o passo. Um tronco de árvore nova recém-cortado, pendente ainda da base por filamentos da casca, jaz no meio do caminho. Por si mesmo, aquela porteira improvisada não seria capaz de barrar nem sequer um curumim, quanto mais uma coluna de três dezenas de homens armados. Mesmo assim, aquilo traz uma mensagem – e uma advertência – que Possuelo logo reconhece e acata. “Isto é da língua universal da floresta”, sussurra ele. “Quer dizer: ‘Fique fora. Não passe daqui’. A gente deve estar chegando perto da aldeia deles.” E isso é algo que Possuelo quer evitar. Ele se vira e, com um gesto silencioso e dramático, determina que nossa coluna saia para fora da trilha, adentrando a densa macega que flanqueávamos.

Depois de meia hora chafurdando numa lama de sugar as botas, em meio a uma galhagem traiçoeira fervilhando de formigas-lava-pé, chegamos à barranca íngreme de um riacho estreito, de águas claras, onde Possuelo ordena a parada da marcha, dando tempo aos retardatários de nos alcançar. Os flecheiros figuram entre as 17 assim ditas tribos não-contatadas que vivem nos recessos mais encafuados da Amazônia brasileira. Nessa parte da selva – a terra indígena do vale do Javari –, deve haver, no máximo, 1 350 índios não-contatados, talvez a maior concentração mundial desses grupos. A maioria descende dos sobreviventes do massacre perpretado pelo invasor branco ao longo dos séculos. A partir daí, esses índios se espalharam pelos terrenos acidentados da região das cabeceiras e seguem esquivando-se do contato com o mundo exterior.

Os confrontos violentos, no entanto, respondem apenas por uma fração das mortes infringidas pelos intrusos às comunidades nativas. A maioria pereceu de doenças epidêmicas, inclusive o corriqueiro resfriado, para o qual os índios não tinham defesas biológicas. Ivan Arapa, um de nossos mateiros, provém da etnia matis, contatada pela primeira vez cerca de 25 anos atrás. Ivan se lembra da mortandade que acompanhou essas primeiras visitas dos agentes do governo a sua aldeia. “Todo mundo tossindo, todo mundo morrendo”, conta ele. “Muitos matises morreram, muitos. A gente não sabia por quê.” Mais da metade dos 350 matises que vivem ao longo do rio Ituí, dentro da reserva Javari, pereceu nos meses subseqüentes ao contato.

É uma triste história que, infelizmente, tornou-se familiar a Possuelo durante sua carreira de 40 anos como sertanista, profissão brasileira por excelência que combina todas as habilidades e paixões do etnólogo, do aventureiro e do ativista pelos direitos indígenas. Eis por que nossa missão não é estabelecer contato com os flecheiros, mas sim levantar informações sobre a extensão do território deles. Possuelo utilizará os novos dados em seus esforços para proteger as terras desses índios, para que permaneçam imersos no mistério.

Ao passarmos por esquálidos assentamentos dos canamaris em nossa rota pelo rio Itaquaí acima, um mês antes, os índios nos fizeram vagos e contraditórios relatos sobre os flecheiros, seus confrontos com os madereiros que operavam antes na área – histórias de terceira ou quarta mão traduzidas num português claudicante.

Alguns disseram que os flecheiros são altos e musculosos, com longas e ondulantes cabeleiras. Segundo outras versões, eles pintam cara e corpo de vermelho e trazem o cabelo no clássico formato de cuia. Mas todos os canamaris concordavam numa coisa: os flecheiros são perigosos e “indomados”, dizem eles, levando o pessoal da aldeia a manter distância de suas terras, rio acima. “Nós não vamos lá”, disse um canamari que encontramos certa tarde remando numa pequena piroga sobre as águas carameladas. “Tem índio bravo. É território deles.”