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Edição 142/Janeiro de 2012 20/12/2011

Uma ou duas coisas sobre gêmeos

O olhar intenso é o mesmo. Assim como a cor do cabelo. Mas um deles é tímido e o outro adora conhecer gente nova. O esforço para saber por que gêmeos idênticos são diferentes – apesar de terem o mesmo DNA – pode ser útil para todos nós.

por Peter Miller

 

Todo verão, no primeiro fim de semana de agosto, milhares de gêmeos afluem a Twinsburg (“Vila dos Gêmeos”), no estado de Ohio, um vilarejo a sudeste de Cleveland assim batizado por dois gêmeos idênticos quase dois séculos atrás. Eles vão chegando em pares para a Festa dos Gêmeos, uma maratona que se estende por três dias, com piqueniques, espetáculos e concursos de semelhança, e que se tornou uma das maiores reuniões de gêmeos em todo o mundo.

Dave e Don Wolf, de Fenton, no estado de Michigan, frequentam o festival há anos. Como a maioria dos participantes, eles adoram ficar juntos. Na verdade, nos últimos 18 anos, os irmãos de 53 anos, ambos motoristas de caminhão, percorreram juntos 5 milhões de quilômetros, transportando as mais diversas cargas pelos Estados Unidos. Enquanto um deles assume a direção do Freightliner a diesel, o outro aproveita para tirar uma soneca no beliche da cabine. Ambos costumam ouvir no rádio as mesmas estações de country gospel, defendem idênticas opiniões republicanas ultraconservadoras e, na estrada, se alimentam com uma dieta de linguiça, maçã e queijo cheddar. Nos períodos de folga, saem juntos para caçar e pescar. Esse modo de vida acabou se mostrando conveniente a ambos.“Deve ser coisa de gêmeos”, comenta Don.

Em uma das tardes da festa em Twinsburg, os irmãos param diante de uma barraca de pesquisa montada pelo FBI, a Universidade de Notre Dame e a Universidade da Virgínia Ocidental. No interior da tenda branca, técnicos estão fotografando pares de gêmeos, recolhendo suas impressões digitais e escaneando a íris de seus olhos a fim de comprovar se os programas digitais mais avançados de reconhecimento facial conseguem distingui-los. “Embora os univitelinos pareçam iguais, um sistema de imageamento digital consegue detectar diferenças ínfimas em sardas, poros ou curvatura das sobrancelhas”, diz o pesquisador Patrick Flynn. Por enquanto, todavia, até mesmo os mais avançados sistemas podem se equivocar devido a alterações na iluminação, em expressões faciais e outras complicações no reconhecimento facial de gêmeos ou de outros.

Os barbudos irmãos Wolf são um caso especialmente difícil. E isso parece-lhes divertido. “Depois que fizeram a foto”, conta Dave, “perguntei a um deles o que aconteceria se eu cometesse um crime e depois fosse para casa raspar a barba – conseguiriam provar que era eu? O cara me olhou de esguelha e disse: ‘Talvez não, mas isso não é motivo para sair por aí cometendo crimes’.”

 

Inato ou adquirido?

 

Flynn e seus colegas não são os únicos cientistas ali presentes. Com aval dos promotores do evento, vários outros se instalaram em um estacionamento próximo ao local da festa. Em uma barraca vizinha à do FBI, pesquisadores solicitam aos gêmeos que provem de pequenos cálices com bebidas alcoólicas a fim de constatar se reagem do mesmo modo ao gosto. Ao lado, médicos de Cleveland entrevistam irmãs gêmeas sobre questões de saúde feminina. No lado oposto do estacionamento, um dermatologista da multinacional Procter & Gamble faz perguntas a um par de gêmeos sobre problemas de pele.

Para esses cientistas, e pesquisadores biomédicos de todo o mundo, os gêmeos oferecem uma valiosa oportunidade de se distinguir a influência dos genes e do ambiente – ou seja, do inato e do adquirido. Como os gêmeos idênticos, ou univitelinos, se originam de um único óvulo fertilizado que se divide em dois, na prática eles possuem o mesmo código genético. Qualquer diferença entre eles – como um dos dois ter a pele com aparência mais jovem, por exemplo – deve ser explicada por fatores ambientais, como o fato de ter passado menos tempo ao sol.

Por outro lado, ao comparar as experiências dos gêmeos idênticos com as dos gêmeos fraternos, ou bivitelinos, que se originam de óvulos distintos e partilham em média metade do DNA, os pesquisadores têm a possibilidade de determinar em que medida os genes afetam diretamente a nossa vida. Se, no que se refere a uma disfunção orgânica, os gêmeos idênticos são mais similares entre si que os fraternos, então, eles concluem, a vulnerabilidade à doença deve estar baseada, pelo menos em parte, na hereditariedade.

Essa vertente de pesquisa – o estudo das diferenças entre univitelinos para se identificar a influência do ambiente e a comparação entre univitelinos e bivitelinos para se avaliar o papel da herança genética – foi crucial para o entendimento da interação dos fatores inatos com os adquiridos na determinação de personalidade, comportamento e propensão a doenças.

 

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