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Edição 140/Novembro de 2011 03/11/2011

Vale do medo

No Grande Vale Rift são abundantes as chuvas, os lagos profundos, o solo vulcânico e a biodiversidade. Também está ali a maior densidade demográfica do planeta

por Robert Draper

O mwami ainda se lembra bem da época em que era uma espécie de rei. Suas decisões eram incontestáveis, e seu poder, absoluto. Desde 1954, tal como o pai e o avô, ele foi o líder do povo Bashali no distrito Masisi, uma região ondulante e bucólica no leste da República Democrática do Congo (RDC). Embora seu nome seja Sylvestre Bashali Mokoto, os outros chefes o chamam apenas de doyen (“decano”), em francês – ou seja, o mais antigo deles. Durante toda a sua vida adulta, o mwami era quem acolhia os recém-chegados ao distrito. Estes lhe ofereciam gado e presentes. Ele, por sua vez, distribuía terras conforme lhe convinha.

Hoje, o chefe está sentado no sofá molambento de um barraco na cidade congolesa de Goma, distante várias horas de carro ao sul de Masisi. E seus antigos domínios encontram-se no epicentro de uma crise humanitária que se arrasta há mais de uma década, quase sempre ignorada pelo resto do mundo. A região leste da RDC está ocupada por milhares de tutsis, hutus e hundes, que se digladiam pelo controle do que alegam ser suas propriedades legítimas; por milícias empenhadas em conquistar terras a ferro e fogo; por criadores de gado em busca de pastagens; e por hordas de refugiados oriundos de todos os pontos da fértil e superpovoada África Oriental e que necessitam de um lugar qualquer em que possam sobreviver. Anos atrás, um membro de um dos bandos rebeldes apoderou-se do sítio de 80 hectares do mwami, obrigando-o a refugiar-se, humilhado e temeroso, nesse barraco em Goma.

A cidade, porém, também é um barril de pólvora. Há duas décadas, Goma contava 50 mil moradores. Hoje sua população é pelo menos 20 vezes maior. Homens uniformizados e armados vagam ameaçadores pelas ruas escuras e esburacadas, sem prestar conta a ninguém. Afluindo das matas circundantes, rumo ao mercado da cidade, dia e noite há um tráfego incessante de gente transportando enormes sacos de carvão vegetal em bicicletas ou em motonetas de madeira, as chukudus. Ao norte da cidade, fervilha o vulcão Nyiragongo, cuja última erupção ocorreu em 2002, lançando rios de lava que devastaram a zona urbana. Ao sul fica o caldeirão prateado do lago Kivu – tão impregnado de dióxido de carbono e metano que uma explosão de gás poderia matar todo mundo na cidade e nos arredores.

O mwami, como tantos outros, está num beco sem saída. Ainda guarda seu olhar altivo, de uma indiferença régia. Porém, a despeito dos punhos com abotoaduras e da bem aparada barba grisalha, em Goma ele não é chefe de mais nada.

Nas últimas décadas, a região tornou-se palco de uma violência de proporções vertiginosas: dezenas de milhares foram assassinados e sequestrados no norte de Uganda, mais de 1 milhão de pessoas foram massacradas nos genocídios de Ruanda e Burundi, e em seguida aconteceram duas guerras no leste da República Democrática do Congo. Estima-se que a última delas, conhecida como a Grande Guerra Africana devido ao envolvimento de vários países vizinhos, tenha resultado na morte de mais de 5 milhões de pessoas, em sua maioria vítimas de doenças e da fome, o que faz dela o conflito mais mortífero desde a Segunda Guerra Mundial. Disputas que eclodiram em um país transbordaram para além das fronteiras e viraram guerras por procuração, com os governos vizinhos apoiando diversos grupos rebeldes, uma confusa mixórdia de milícias identificadas por siglas – LRA, FDLR, CNDP, RCD, AFDL e MLC, entre outras –, disputando o poder e os recursos em uma das porções mais ricas de todo o continente africano.

A terrível violência que se abateu nesse lugar é impossível de ser entendida em termos simples. Mas a geografia desempenha um papel decisivo. Quando se desconsideram as fronteiras de Uganda, RDC, Ruanda, Burundi e Tanzânia, nota-se o que há de comum nessas entidades políticas disparatadas: a paisagem formada pelas forças tremendas liberadas do deslocamento das placas tectônicas. Na África Oriental, o Grande Vale Rift divide ao meio o Chifre da África – com a placa Núbia, a oeste, afastando-se da placa Somaliana, a leste – antes de se bifurcar ao sul por ambos os lados de Uganda.

O ramo ocidental do Rift inclui as cordilheiras Virunga e Rwenzori e vários dos grandes lagos do continente, nos quais a fenda profunda foi ocupada pelas águas. O Rift Ocidental – também conhecido como Rift Albertino, por causa do lago Albert – é uma fenda geológica que se estende por 1 480 quilômetros, abrangendo florestas de altitude, montanhas com picos sempre nevados, savanas, cadeias de lagos e terras úmidas, e constitui uma das regiões mais férteis e biodiversificadas da África, na qual se encontram gorilas, ocapis, leões, hipopótamos e elefantes, espécies raras de aves e peixes, além de recursos minerais que vão de ouro e estanho a coltan, um elemento crucial na fabricação de microprocessadores.

O paradoxo do Rift Ocidental é que a riqueza acabou levando à escassez. As pessoas amontoaram- se nessa área devido ao fértil solo vulcânico, às chuvas, à biodiversidade e à altitude elevada, que a torna inóspita aos transmissores de doenças, como as moscas tsé-tsé. Com o crescimento da população, aumentou o desmatamento para abrir terras para cultivo e pastoreio. Mas a questão é: há recursos suficientes para tanta gente?

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