Vale do medo
No Grande Vale Rift são abundantes as chuvas, os lagos profundos, o solo vulcânico e a biodiversidade. Também está ali a maior densidade demográfica do planeta
-
Leão acomoda-se no alto de uma árvore
Joel Sartore
Um leão acomoda-se no alto de uma árvore no Parque Nacional Queen Elizabeth, em Uganda.
-
A força das armas dita as regras em Kivu do Norte
Pascal Maitre
A força das armas dita as regras em Kivu do Norte, uma província da República Democrática do Congo (RDC). Os Kifuafua, uma das milícias locais, exibem seu poderio na estrada em que extorquem dinheiro de moradores e viajantes. Por quase 20 anos, lutas por terras, minerais e poder fizeram da região um inferno.
-
Vulcão ativo ameaça 2 milhões de pessoas
Carsten Peter
Um caldeirão de lava emite gás e fervilha na cratera do Nyiragongo, um vulcão ativo que ameaça 2 milhões de pessoas. Suas erupções marcaram a região por milhões de anos, desde que a placa tectônica africana começou a se fender, originando o Rift Ocidental
-
Goma: uma metrópole de barracos
Pascal Maitre
Uma metrópole de barracos, Goma fica na encruzilhada dos conflitos no leste da RDC. Houve uma explosão demográfica com a chegada de refugiados, soldados, especuladores e ativistas humanitários. Erguida sobre terreno vulcânico, a cidade estende-se entre o lago Kivu, impregnado de gases, e o inquieto vulcão Nyiragongo.
-
Elefantes vagam por quilômetros de savana intacta
Joel Sartore
Os elefantes vagam por quilômetros de savana intacta no parque Queen Elizabeth, em Uganda. A população local chega a 2,5 mil indivíduos, um aumento dramático desde a época de abates ilegais na década de 1980. Fora da reserva, moradores matam os elefantes que destroem as safras, mas os ataques diminuíram com as valas que agora isolam as plantações.
-
Mulher carregando cana-de-açúcar passa por uma queimada
Pascal Maitre
No caminho entre o mercado e o acampamento, uma mulher carregando cana-de-açúcar passa por uma queimada na Reserva Florestal Kagombe, em Uganda. Carentes de terras, 3 mil pessoas se instalaram na reserva, ateando fogo à floresta para depois cultivar milho e outras safras. Por motivos políticos, os guardas não podem despejar os posseiros.
-
A mão de um gorila-das-montanhas
Joel Sartore
A mão de um gorila-das-montanhas emerge em meio à mata tropical no Parque Nacional Impenetrável Bwindi, em Uganda. A quantidade de primatas ameaçados estabilizou-se em 780 animais em Bwindi e nas reservas dos montes Virunga, na RDC, em Uganda e em Ruanda.
-
Terras altas do noroeste de Ruanda
Pascal Maitre
Do alto, a cena é pastoril, uma manta verdejante de campos nas terras altas do noroeste de Ruanda. A realidade no solo é mais dura. A terra é tão escassa no interior apinhado de gente próximo a Musanze que os agricultores batalham para cultivar cada pedacinho das encostas de montanhas íngreme e acometidas pela erosão. A pressão relativa à terra armou a cena para o genocídio de 1994, em que um milhão de pessoas foram mortas.
-
Mercado de carvão em Goma
Carsten Peter
Diretamente da floresta, o carvão é vendido por US$ 17 por saco em um mercado movimentado perto de Goma. Sem eletricidade, quase todas as residências da região dependem de carvão para ferver água e cozinhar. Grupos armados controlam o setor e invadiram o parque nacional Virunga, onde dúzias de guardas florestais foram mortos ao tentar deter a destruição da floresta.
-
Menino pega pequeno peixe em Uganda
Joel Sartore
Os recursos da região estão cada vez mais pressionados pelos seres humanos famintos. No lado de Uganda do lago Albert, onde a frota de pesca cresceu de 760 barcos em meados da década de 1960 para quase 6 mil, um menino só recolhe espécies pequenas de peixes, já que os números de percas e tilápias desabou.
-
Transporte de carvão
Pascal Maitre
A demanda por combustível está acabando com as florestas na região do Rift Albertino. Árvores de madeira de lei são transformadas em carvão e enchem os sacos de homens que se deslocam para um mercado do Congo
-
Mulheres levam seus bebês para adoção
Pascal Maitre
Atacadas em suas casas e nos campos, violentadas e às vezes abandonadas por suas famílias, mulheres levam seus bebês para ver uma assistente social no vilarejo de Shasha, em Kivu do Norte, província afligida pelo que, segundo os ativistas, configura o uso do estupro como arma de guerra na RDC. Soldados e rebeldes violentaram mais de 800 mulheres só nesse vilarejo.
-
Crateras no parque Queen Elizabeth
Joel Sartore
Em uma região apinhada de gente, só restam alguns poucos grandes espaços abertos – como o fundo do Rift no parque Queen Elizabeth, marcado por lagos de cratera formados por explosões vulcânicas. Se áreas protegidas não tivessem sido separadas no Rift Albertino entre as décadas de 1920 e 1960, os conservacionistas duvidam que hoje existiriam áreas selvagens extensas
-
Um jovem gorila-das-montanhas e sua mãe
Joel Sartore
Atentos aos visitantes humanos, um jovem gorila-das-montanhas e sua mãe se mantêm impassíveis no Parque Nacional Bwindi. Quando a reserva foi criada, em 1991, os moradores se ressentiram de não mais poder entrar na selva, onde buscavam mel e madeira. Hoje o parque divide a renda dos turistas interessados nos primatas com as comunidades – uma trégua nas disputas por espaços vitais.
-
Terra para agricultura próxima ao parque Queen Elizabeth
Joel Sartore
A terra que foi desmatada para a agricultura se extende até a fronteira leste do Parque Nacional de Queen Elizabeth
-
Búfalos africanos fazem trilhas na lama salgada
Joel Sartore
Búfalos africanos fazem trilhas na lama salgada na beira de um lago de cratera no Parque Nacional Queen Elizabeth.
-
Rede de pesca grande é estendida para secar em Kiryamboga
Joel Sartore
Uma rede de pesca grande é estendida para secar em Kiryamboga, um vilarejo no lago Albert. Na medida em que a quantidade foi diminuindo graças à pesca excessiva, os aldeões se sentem compelidos a usar as redes de malha fina, ilegais, até mesmo redes de mosquitos convertidas, para tirar o máximo possível da água, incluindo peixes imaturos – assim baixando o estoque do lago ainda mais.
-
Soldados no parque nacional Virunga
Pascal Maitre
Soldados do governo patrulham as ruas de um assentamento dentro do parque nacional Virunga, próximo ao lago Edward. Sua missão é proteger civis e guardas florestais de ataques das milícias.
-
Porto de Kasanga, na Tanzânia
Pascal Maitre
No porto de Kasanga, na Tanzânia, operários carregam a balsa Liemba com cimento; o veículo transporta bens e pessoas pelo lago Tanganyika há quase cem anos
-
Pescador descansa próximo aos destroços do S.S. Robert Coryndon
Pascal Maitre
Um pescador do lago Albert descansa perto dos destroços do S.S.Robert Coryndon, uma relíquia do passado colonial do Rift. Na década de 1930, o navio britânico transportava passageiros e cargas pelo lago Albert – até afundar, ou ser afundado, depois que a Uganda conquistou a independência da Grã-Bretanha, em 1962.
O mwami ainda se lembra bem da época em que era uma espécie de rei. Suas decisões eram incontestáveis, e seu poder, absoluto. Desde 1954, tal como o pai e o avô, ele foi o líder do povo Bashali no distrito Masisi, uma região ondulante e bucólica no leste da República Democrática do Congo (RDC). Embora seu nome seja Sylvestre Bashali Mokoto, os outros chefes o chamam apenas de doyen (“decano”), em francês – ou seja, o mais antigo deles. Durante toda a sua vida adulta, o mwami era quem acolhia os recém-chegados ao distrito. Estes lhe ofereciam gado e presentes. Ele, por sua vez, distribuía terras conforme lhe convinha.
Hoje, o chefe está sentado no sofá molambento de um barraco na cidade congolesa de Goma, distante várias horas de carro ao sul de Masisi. E seus antigos domínios encontram-se no epicentro de uma crise humanitária que se arrasta há mais de uma década, quase sempre ignorada pelo resto do mundo. A região leste da RDC está ocupada por milhares de tutsis, hutus e hundes, que se digladiam pelo controle do que alegam ser suas propriedades legítimas; por milícias empenhadas em conquistar terras a ferro e fogo; por criadores de gado em busca de pastagens; e por hordas de refugiados oriundos de todos os pontos da fértil e superpovoada África Oriental e que necessitam de um lugar qualquer em que possam sobreviver. Anos atrás, um membro de um dos bandos rebeldes apoderou-se do sítio de 80 hectares do mwami, obrigando-o a refugiar-se, humilhado e temeroso, nesse barraco em Goma.
A cidade, porém, também é um barril de pólvora. Há duas décadas, Goma contava 50 mil moradores. Hoje sua população é pelo menos 20 vezes maior. Homens uniformizados e armados vagam ameaçadores pelas ruas escuras e esburacadas, sem prestar conta a ninguém. Afluindo das matas circundantes, rumo ao mercado da cidade, dia e noite há um tráfego incessante de gente transportando enormes sacos de carvão vegetal em bicicletas ou em motonetas de madeira, as chukudus. Ao norte da cidade, fervilha o vulcão Nyiragongo, cuja última erupção ocorreu em 2002, lançando rios de lava que devastaram a zona urbana. Ao sul fica o caldeirão prateado do lago Kivu – tão impregnado de dióxido de carbono e metano que uma explosão de gás poderia matar todo mundo na cidade e nos arredores.
O mwami, como tantos outros, está num beco sem saída. Ainda guarda seu olhar altivo, de uma indiferença régia. Porém, a despeito dos punhos com abotoaduras e da bem aparada barba grisalha, em Goma ele não é chefe de mais nada.
Nas últimas décadas, a região tornou-se palco de uma violência de proporções vertiginosas: dezenas de milhares foram assassinados e sequestrados no norte de Uganda, mais de 1 milhão de pessoas foram massacradas nos genocídios de Ruanda e Burundi, e em seguida aconteceram duas guerras no leste da República Democrática do Congo. Estima-se que a última delas, conhecida como a Grande Guerra Africana devido ao envolvimento de vários países vizinhos, tenha resultado na morte de mais de 5 milhões de pessoas, em sua maioria vítimas de doenças e da fome, o que faz dela o conflito mais mortífero desde a Segunda Guerra Mundial. Disputas que eclodiram em um país transbordaram para além das fronteiras e viraram guerras por procuração, com os governos vizinhos apoiando diversos grupos rebeldes, uma confusa mixórdia de milícias identificadas por siglas – LRA, FDLR, CNDP, RCD, AFDL e MLC, entre outras –, disputando o poder e os recursos em uma das porções mais ricas de todo o continente africano.
A terrível violência que se abateu nesse lugar é impossível de ser entendida em termos simples. Mas a geografia desempenha um papel decisivo. Quando se desconsideram as fronteiras de Uganda, RDC, Ruanda, Burundi e Tanzânia, nota-se o que há de comum nessas entidades políticas disparatadas: a paisagem formada pelas forças tremendas liberadas do deslocamento das placas tectônicas. Na África Oriental, o Grande Vale Rift divide ao meio o Chifre da África – com a placa Núbia, a oeste, afastando-se da placa Somaliana, a leste – antes de se bifurcar ao sul por ambos os lados de Uganda.
O ramo ocidental do Rift inclui as cordilheiras Virunga e Rwenzori e vários dos grandes lagos do continente, nos quais a fenda profunda foi ocupada pelas águas. O Rift Ocidental – também conhecido como Rift Albertino, por causa do lago Albert – é uma fenda geológica que se estende por 1 480 quilômetros, abrangendo florestas de altitude, montanhas com picos sempre nevados, savanas, cadeias de lagos e terras úmidas, e constitui uma das regiões mais férteis e biodiversificadas da África, na qual se encontram gorilas, ocapis, leões, hipopótamos e elefantes, espécies raras de aves e peixes, além de recursos minerais que vão de ouro e estanho a coltan, um elemento crucial na fabricação de microprocessadores.
O paradoxo do Rift Ocidental é que a riqueza acabou levando à escassez. As pessoas amontoaram- se nessa área devido ao fértil solo vulcânico, às chuvas, à biodiversidade e à altitude elevada, que a torna inóspita aos transmissores de doenças, como as moscas tsé-tsé. Com o crescimento da população, aumentou o desmatamento para abrir terras para cultivo e pastoreio. Mas a questão é: há recursos suficientes para tanta gente?
