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Edição 123/Junho de 2010 01/09/2011

Verão Viking

A Groelândia recupera o clima ameno da época em que lá chegou Erik, o Vermelho - para a alegria de seus habitantes

por Tim Folger

James Balog

Groenlândia: degelo forma cânion azul

James Balog

A água do degelo escavou um cânion azul com 45 metros de profundidade. Isto é um motivo de otimismo, pelo menos para os groenlandeses.

Um pouco ao norte e a oeste da extremidade sul da Groenlândia, em uma íngreme colina dando para um fiorde repleto de icebergs, que foi explorado pela primeira vez por Erik, o Vermelho, há mais de mil anos, dá para notar algumas anomalias em termos de horticultura: um bem cuidado jardim, touceiras de ruibarbo e árvores (choupos, abetos, salgueiros). Tudo isso está no vilarejo de Qaqortoq, situado a 60º 43’ de latitude norte, no quintal de Kenneth Høegh, 650 quilômetros ao sul do Círculo Polar Ártico.

"Tivemos geada na noite passada", comenta Høegh, enquanto caminhamos pelo quintal em uma quente manhã de julho. Sob o sol forte, o porto de Qaqortoq reluz lá embaixo com um tom azulado de safira. Um pequeno iceberg - com o tamanho aproximado de um ônibus - flutua a poucos metros do píer do vilarejo. Casas de tábuas pintadas de cores vivas, construídas com madeira importada da Europa, pontilham as colinas de granito quase desnudo, que se elevam como um anfiteatro em volta do porto.

Høegh, um homem musculoso com cabelo loiro-avermelhado e barba bem aparada - ele poderia facilmente fazer o papel de viking em um filme -, é agrônomo e foi o principal consultor do Ministério da Agricultura da Groenlândia. Sua família vive em Qaqortoq há mais de 200 anos. Fazendo uma pausa junto à divisa do quintal, Høegh ajoelha-se e espia, sob um toldo de plástico branco que serve de proteção, alguns nabos que plantou no mês anterior. "Uau! Que incrível!", exclama. As folhas dos nabos parecem saudáveis e viçosas. "Faz três ou quatro semanas que não venho até aqui olhar, e neste ano nem sequer reguei o jardim. Só a água da chuva e da neve derretida. Isso é espantoso. Poderíamos colher os nabos agora mesmo, sem problema."

Parece pouca coisa esse amadurecimento precoce dos nabos em uma manhã de verão, mas em um país com cerca de 80% do território coberto por um manto de gelo com espessura de até 3,5 quilômetros - e onde há pessoas que jamais tocaram uma árvore -, isso representa algo muito importante. A temperatura na Groenlândia está aumentando num ritmo duas vezes mais rápido do que no resto do mundo. Mensurações feitas por satélites mostram que o seu manto de gelo, que contém quase 7% de toda a água doce do mundo, está encolhendo cerca de 200 mil metros cúbicos por ano. O degelo acelera o aquecimento - pois as áreas oceânicas e terrestres que ficam expostas passam a absorver a radiação solar refletida para o espaço pela superfície branca gelada. Se todo o gelo da Groenlândia derreter nos próximos séculos, o nível dos mares vai subir mais de 7 metros, provocando inundações nos litorais de todo o planeta.

Na própria Groenlândia, contudo, a apreensão diante das mudanças climáticas muitas vezes é superada por expectativas de outra ordem. Por enquanto, essa região autônoma da Dinamarca ainda continua muito dependente de sua antiga metrópole colonial. Todos os anos, a Dinamarca injeta 600 milhões de dólares na anêmica economia local - mais de 11 mil dólares para cada groenlandês. O derretimento do Ártico, porém, já começou a facilitar o acesso a depósitos de petróleo, gás e minérios que poderiam assegurar a independência financeira e política tão almejada pelos groenlandeses. Estima-se que as águas costeiras da região abriguem reservas de petróleo equivalentes à metade das existentes nos campos do mar do Norte. As temperaturas mais elevadas também poderiam garantir uma temporada de cultivo mais longa para a meia centena de propriedades rurais lá instaladas e reduzir a dependência do país em relação a alimentos importados. A impressão é de que todos estão com a respiração suspensa, esperando para ver se o reverdecimento vai mesmo ocorrer.

A primeira experiência da Groenlândia com esse tipo de publicidade teve lugar um milênio atrás, quando Erik, o Vermelho, lá desembarcou, vindo da Islândia, à frente de um pequeno grupo de nórdicos, também conhecidos como vikings. Erik estava fugindo da Justiça por ter morto um homem que se recusara a devolver alguns catres emprestados. Em 982, ele explorou um fiorde perto de Qaqortoq e, em seguida, apesar do incidente com os catres, voltou à Islândia para difundir as notícias sobre a região que havia descoberto, a qual, segundo conta a Saga de Erik, o Vermelho, "ele chamou de Groenlândia (Greenland, terra verde), pois as pessoas ficariam mais interessadas se tivesse um nome favorável".

Esse esforço explícito de marketing deu resultado. Cerca de 4 mil nórdicos acabaram migrando e se estabelecendo na ilha. A despeito de sua reputação de ferocidade, os vikings eram basicamente agricultores. Nos abrigados fiordes do sul e do oeste da Groenlândia, passaram a criar ovelhas e um pouco de gado bovino, bem o que fazem hoje os groenlandeses nos mesmos lugares. Eles construíram igrejas e estabeleceram centenas de áreas de cultivo agrícola. Além disso, trocavam peles de foca e presas de leão-marinho por madeira e ferro do continente europeu. Partindo de uma dessas fazendas a cerca de 55 quilômetros a nordeste de Qaqortoq, Leif, o filho de Erik, lançou-se ao mar e chegou à América do Norte por volta do ano 1000. Na Groenlândia, os povoados nórdicos resistiram por mais de quatro séculos. Aí, de repente, desapareceram.

O fracasso desses rijos agricultores-navegantes é um exemplo perturbador de como as mudanças climáticas podem ameaçar até mesmo as culturas mais engenhosas. Os vikings ocuparam a Groenlândia durante um período excepcionalmente quente, na mesma época que testemunhou a expansão da agricultura e o surto de construção das grandes catedrais no continente europeu. Por volta de 1300, contudo, a Groenlândia havia se tornado bem mais fria, e a sobrevivência ali, mais difícil. Os inuits, que nesse meio tempo haviam migrado da região norte do atual Canadá e avançavam para o sul ao longo do litoral oeste da Groenlândia, enquanto os vikings faziam o caminho oposto, saíram-se bem melhor. (Quase todos os groenlandeses modernos descendem dos inuits e dos missionários e colonos dinamarqueses que lá se instalaram a partir do século 18.) Foram os inuits que introduziram os trenós puxados por cães, os caiaques e outras ferramentas essenciais para caçar e pescar no Ártico. Segundo alguns pesquisadores, os povoadores nórdicos fracassaram porque se mantiveram apegados demais a seus antigos costumes escandinavos, dependendo de animais de criação importados, em vez de aproveitarem os recursos locais.