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Edição 55/Novembro de 2004 30/08/2011

Vida nos recifes de Fiji

Parte dos corais que rodeiam o arquipélago de Fiji se recupera, depois de sofrer com o aquecimento global

por Les Kaufman

Tim Laman

Peixe-palhaço entre os tentáculos de uma anêmona

Tim Laman

Os tentáculos de ponta purpúrea de uma anêmona, tóxicos para a maioria dos habitantes dos recifes, oferecem abrigo e proteção a um peixe-palhaço.

Os recifes de Fiji são duros na queda. Especialistas em recuperar-se de agressões, são o campo de estudo ideal para os cientistas que se esforçam para entender o catastrófico declínio dos hábitats coralinos da Terra. Embora ciclones, doenças, predadores e erupções vulcânicas danifiquem os recifes, os corais geralmente se recobram desses golpes. Mas a atmosfera impregnada de dióxido de carbono e a conseqüente elevação das temperaturas oceânicas podem acabar com essa capacidade de recuperação dos corais.

Quando a água se aquece, eles expelem as algas simbióticas que fornecem nutrientes e cor e passam a sofrer um tipo de branqueamento. Alguns cientistas supõem que esse branqueamento tenha surgido para ajudar os corais a se adaptarem às mudanças de temperatura, trocando as algas simbióticas por outras mais resistentes ao calor. Mas, com as elevações da temperatura global, os corais estão chegando ao máximo de sua tolerância ao calor. Em Fiji, eles resistem em águas com temperaturas até 30ºC. Acima disso, não suportam.

Lá, eles sofreram fortes agressões em 2001 e 2002, com aumentos de temperatura da água que levaram a um branqueamento generalizado. Como biólogo marinho, fui a Fiji estudar as condições dos recifes após as ondas de calor. Encontramos grandes diferenças entre os vários trechos. Alguns corais perderam suas algas e morreram de fome, restando apenas seus enormes esqueletos de calcário. Mas, em locais onde os corais-chifre-de-alce e outros corais duros haviam branqueado, surgiu vida nova. Vimos jardins de corais brotando em campos de rochas nuas, peixes tropicais multicoloridos apinhados em novas pastagens e alguns recifes que escaparam ao branqueamento. Peixes de grande porte nadavam por perto – tubarões, garoupas, arraias-jamanta, todos indicadores de um ambiente saudável.

Fiji é como um paciente com aids que sobreviveu, e a saúde dos recifes do planeta pode depender de descobrirmos por quê. Estimula-se a criação de áreas de proteção ao redor de alguns dos recifes, onde os cientistas possam buscar as respostas que ajudarão a garantir que os branqueamentos não sejam agravados por resíduos industriais, pesca predatória e multidões de turistas. Em última análise, a morte ou a renovação podem depender da capacidade humana para reverter o aquecimento global.

Colagem de corais moles

A árvore rosa inflada no estreito de Somosomo é, na verdade, um coral mole estendendo seus pólipos para alimentar-se do zooplâncton que flui pelas correntes. Ali no meio, um jovem bodião aguarda para participar do banquete. Quando ameaçado por intempéries ou predadores, o coral desinfla e assume a forma de bolas espinhentas. Muitas criaturas adaptaram-se para viver nestes corais, em busca de alimento e esconderijo em meio a seus ramos. Entre elas estão o caranguejo-aranha rosa e também o peixe-flauta-arlequim – que quase somem ao abrigo dos hospedeiros. As profundezas do canal Vatu-i-Ra revelam dezenas de peixes sobre um tapete de corais moles e um coral duro com algas. Os corais moles Dendronephthya, típicos de Fiji, não abrigam algas simbióticas, por isso não são vulneráveis ao branqueamento. Ao contrário de corais duros formadores de recifes, que necessitam da luz solar nos baixios, os moles, como o Dendronephthya, podem viver em várias profundidades, decorando quebra-mares e saliências com cores vivas.

Camadas da vida

Minúsculas criaturas encontram refúgio como habitantes da pele viva do recife. Quase transparente, esta pequena espécie de peixe-cabrinha descansa sobre a superfície do coral enquanto dois camarões amarelos parecem quase idênticos ao coral que lhes dá alimento e proteção. À noite, um pequenino camarão, talvez uma nova espécie da subfamília Pontoniinae, alimenta-se de muco do coral. Corais duros, basicamente minúsculas anêmonas com um esqueleto comum, ferroam ao ser tocados, como as anêmonas maiores. Mesmo assim, legiões de pequenos peixes e camarões evoluíram para viver entre os seus tentáculos, evitando os predadores graças à semelhança com seus hospedeiros.

Adotando estratégia diferente, um trio de camarão-imperador acomoda-se sobre um pepino-do-mar-leopardo. Eles cuidam da limpeza comendo a sujeira da pele de seu hospedeiro. Além de alimento, o pepino-do-mar oferece defesa (quando perturbado, expele dejetos tóxicos) e um local de encontro, onde os camarões podem conhecer potenciais parceiros para acasalamento.

Tudo por comida

Com ar de poucos amigos, uma garoupa-pintada passa veloz pelo humano intruso em seu território de caça. A predação é constante nos recifes de Fiji, onde conseguir alimento pode ser tarefa árdua. Um peixe-papagaio usa os dentes fundidos que formam seu bico e os dentes trituradores na garganta para escavar a rocha em busca de nutrientes das algas que perfuram e revestem o coral. (Isso pode impedir que o coral seja sufocado por excesso de algas, mas, se elas forem consumidas em excesso, os corais podem perecer.) As cavalinhas abrem sua boca e nadam como peneiras vivas, colhendo minúsculos crustáceos. O sarapintado cangulo-palhaço, à procura de invertebrados, esconde um xaréu comum, que salta da camuflagem para agarrar as presas que não temem o inofensivo cangulo.

Algumas espécies de peixe têm cores únicas em Fiji. A análise de DNA nos ajudará a descobrir se são espécimes distintos com cores adaptadas para auxiliar em sua sobrevivência – conhecimento que poderá ser fundamental à conservação.

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