Vozes perdidas: o que se perde quando uma língua emudece?
A cada duas semanas morre uma língua. Até o início do próximo século, quase metade das cerca de 7 mil línguas faladas na Terra terão se extinguido, com suas comunidades de falantes abandonando os idiomas nativos em favor do inglês, do mandarim e do espanhol
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Um dos últimos falantes da língua indígena chemehuevi
Lynn Johnson
Johnny Hill, Jr., de Parker, no Arizona, é um dos últimos falantes da língua indígena chemehuevi: “É como um pássaro que perde as penas. A gente vê uma delas flutuando e sumindo – e outra palavra se foi”.
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Ritual feito por xamã tuvano
Lynn Johnson
TUVANO
[artyštaar] queimar zimbro | purificar
Para afastar da casa o espírito de um parente falecido, um xamã tuvano queima lascas de zimbro. A fumaça do incenso toma conta do aposento enquanto os familiares pedem aos espíritos do lar que os iluminem e protejam -
Passado e futuro no povo Tuvano
Lynn Johnson
TUVANO
[songgaar] voltar para trás | o futuro
[burungaar] ir adiante | o passadoPara os tuvanos, o passado está na frente, e o futuro, atrás. As crianças que fazem fila para um salto com cordas diante do Museu Nacional de Tuva contemplam o futuro, mas ele está atrás delas, e não pode ser avistado
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pastor tuvano cavalgando cavalo
Lynn Johnson
TUVANO
[ezenggileer] estribar | cantar no ritmo da cavalgada
Os termos usados para descrever os estilos de canto gutural – uma arte entre os pastores tuvanos – refletem com perfeição seus sons peculiares. Ezenggileer evoca o ritmo pulsante do galope sobre um cavalo -
cantores tuvanos
Lynn Johnson
TUVANO
[khei-àt] cavalo aéreo | um espaço espiritual interno
Ai-Xaan Oorzhak entoa um canto gutural e toca igil, a “rabeca de cabeça de cavalo”. Os cantores usam a expressão “cavalo aéreo” para descrever as profundezas espirituais a que recorrem para produzir sons harmônicos -
Crianca Aka
Lynn Johnson
AKA
[tradzy] colar de contas feitas de seixos amarelos
Os akas têm mais de 26 palavras para descrever as contas. Além de serem objetos de adorno, elas servem de moeda e indicador de status social. Esta criança vai herdar o colar ao se casar -
Calculando o valor de um casamento Ako
Lynn Johnson
AKA
[shobotro vyew] calcular o preço da noiva com gravetos
O valor de um casamento ako é negociado com palitos de bambu. A família do noivo deposita alguns deles, que representam dinheiro e presentes, e a família da noiva faz uma contraoferta. A negociação pode durar meses -
Preparativos para um casamento da cultura Aka
Lynn Johnson
AKA
[chofe gidego] olhar para o fígado
Um casamento só é válido após o sacrifício de um mithan, uma raça bovina, ocasião em que o fígado do animal é interpretado. Neste caso, uma manchinha indica um acidente no futuro do casal – nada que atrapalhe uma vida feliz -
Sacerdote da cultura Aka
Lynn Johnson
AKA
[nichleu-nuggo] conselheiro do vilarejo | sábio, compassivo, tolerante
Govardhan Nimasow é rico, desposou oito mulheres, teve 26 filhos e é dono de uma das raras casas de concreto no vilarejo. Mas sua condição de nichleu-nuggo significa também que possui humildade e sabedoria -
Cumprimento do povo Seri
Lynn Johnson
SERI
[ziix quih haasax haaptxö quih áno cöcacaaixaj] aquele que saúda com alegria/ paz/ harmonia
Entre os seris, não há cumprimento equivalente a apertar as mãos ou acenar. Mas Josué Robles Barnett demonstra um gesto que costumava ser usado quando se chegava a uma comunidade estranha com boas intenções -
Anciã Seri transmite tradições ao povo
Lynn Johnson
SERI
[hant iiha cöhacomxoj] aqueles que foram informados das coisas antigas
Cega e quase surda, Isabel Chavela continua a transmitir o saber tradicional. O vocabulário seri relativo às espécies do deserto de Sonora e do golfo da Califórnia revela comportamentos que só os cientistas agora começam a descobrir -
Dança folclórica Seri, cultura ameaçada no México
Lynn Johnson
SERI
[hepem cöicooit] aquele que dança como o veado-de-cauda-branca
Neto de Isabel, Jorge Luis Montaño Herrera sacode o chocalho e assume a identidade de um veado. Tal como sua avó costumava lhe cantar melodias tradicionais, ele pretende ensinar a dança para as crianças da comunidade -
Seris identificando o nascimento da comunidade
Lynn Johnson
SERI
[miixöni quih zó hant ano tiij] "Onde está enterrada a sua placenta?"
É assim que os seris perguntam de onde vem uma pessoa. Aqueles que ainda nasceram em casa conhecem o lugar exato onde sua placenta foi enterrada, sob areia e cinza e recoberta com pedras -
Um dos últimos quatro falantes da língua euchee
Lynn Johnson
EUCHEE
K’asA Henry Washburn, de 86 anos, é um dos quatro últimos falantes de euchee. Todos os dias ele percorre 16 quilômetros de sua casa em West Tulsa até a Casa da Língua Euchee, onde crianças aprendem sua língua indígena. Às vezes os estudantes são repreendidos na escola por conversarem na língua de seus ancestrais. Richard Grounds, diretor do projeto que está registrando as lembranças de Washburn, o considera um “dicionário vivo”
TUVANO (Rússia)
Número de falantes: 235.000
A compaixão de Khoj Özeeri
No princípio do outono, Andrei Mongush e seus pais iniciam, pela manhã, os preparos para a refeição noturna, escolhendo no rebanho uma ovelha de cara preta e cauda gorda e colocando-a deitada de costas em uma lona. A família Mongush vive na taiga siberiana, à beira das estepes intermináveis, logo além do horizonte que se descortina desde Kyzyl, a capital da República de Tuva, na Federação Russa. Embora esteja próxima ao centro geográfico da Ásia, em termos linguísticos e pessoais, a família habita uma área fronteiriça, na divisa entre progresso e tradição.
Os tuvanos são pastores nômades, deslocando o aal – o acampamento de iurtas – e suas ovelhas, vacas e renas de um pasto a outro conforme as estações. Os Mongush idosos, que voltaram ao aal na área rural após trabalharem na cidade, falam tanto tuvano quanto russo. Andrei e sua mulher também falam inglês, que aprendem colando etiquetas de papel com palavras nos objetos de sua cozinha moderna em Kyzyl. Ambos são músicos da Orquestra Nacional de Tuva, que usa os instrumentos e as melodias tradicionais do país em arranjos sinfônicos. Andrei é um mestre da modalidade mais típica de música tuvana: o canto gutural, ou khöömei.
Quando pergunto a estudantes universitários em Kyzyl quais palavras em tuvano seriam intraduzíveis para o inglês ou o russo, eles mencionam khöömei, pois esse cantoestá de tal modo associado ao ambiente tuvano que só pode ser entendido por um nativo, e também lembram de khoj özeeri, o método local de matar uma ovelha. Depois de fazer um corte na pele do animal, o encarregado do abate rompe com os dedos uma artéria vital, extinguindo a vida da ovelha de maneira tão pacífica que é preciso até examinar seus olhos para comprovar que ela está morta. Na língua do povo tuvano, khoj özeeri não significa apenas “abate de ovelha” mas também benevolência, compaixão – assim como a cerimônia na qual uma família mata e despedaça o animal, salga a pele, prepara a carne, e faz linguiça com o sangue reservado e as entranhas limpas. Tudo isso de maneira tão ordenada que a coisa toda é concluída em duas horas (como fizeram os Mongush nessa manhã), sem exigir roupas especiais e sem derramar uma gota de sangue. Khoj özeeri apresenta um relacionamento com os animais que reflete o caráter do povo.
O tuvano é uma das muitas línguas minoritárias do mundo. Os 7 bilhões de pessoas da Terra falam 7 mil idiomas, estatística que poderia indicar que cada língua viva conta cada qual com a robusta quantidade de 1 milhão de falantes, caso a divisão fosse equitativa. Mas no âmbito da linguagem, tal como na vida, não é bem assim. De toda a população mundial, 78% das pessoas falamos 85 idiomas mais comuns. Por outro lado, as 3,5 mil línguas menos comuns são faladas por apenas 8,25 milhões de indivíduos. Assim, enquanto 328 milhões têm o inglês como língua materna, e o mandarim nada menos que845 milhões, os falantes de tuvano na Rússia são 235 mil. No decorrer dos próximos 100 anos, acreditam os linguistas, é provável a extinção de quase metade do atual estoque de idiomas no planeta. Mais de um milhar deles são considerados em estado crítico ou muito ameaçados – ou seja, estão prestes a desaparecer.
Em uma época cada vez mais globalizada, interconectada e homogeneizada, as línguas faladas em locais remotos não são protegidas, por fronteiras nacionais ou divisas naturais, das línguas que dominam a comunicação e o comércio mundiais. O alcance de idiomas como mandarim, inglês, russo, hindi, espanhol ou árabe chega a todos os recantos do planeta, onde competem com o tuvano, o ianomami e o altaico, em uma batalha feroz. Muitas vezes, nos vilarejos tribais, os pais incentivam os filhos a abandonar a língua de seus antepassados em favor daquelas que vão lhes dar maiores chances de êxito.
Quem vai censurá-los por isso? A chegada da televisão, com seu materialismo glamourizado e seu proselitismo do consumo de luxo, é ainda mais irresistível. A prosperidade, fica-se com a impressão, fala inglês. Na tentativa de definir oque é um idioma, um linguista ficou famoso ao afirmar, com humor, que uma língua não passa de um dialeto que tem por trás um exército. Hoje, qualquer povo que pode contar com uma estação de TV e uma moeda tem condições de obliterar aqueles desprovidos desses recursos, e por isso os habitantes de Tuva precisam falar russo e chinês se quiserem se relacionar com o mundo circundante. O avanço do russo em Tuva é evidente na geração que cresceu em meados do século 20, quando era moda falar, ler e escrever nessa língua, em detrimento do idioma nativo.
Mas o tuvano ainda é robusto se comparado a outras línguas minoritárias mais fracas, algumas hoje reduzidas a um milhar de falantes, a um punhado deles ou mesmo a um único indivíduo. Línguas como wintu, da Califórnia, ou siletz dee-ni, no Oregon, ou ainda amurdak, falado por aborígines da Austrália, contam com um ou dois falantes apenas. Esses derradeiros, que já não têm com quem conversar, estão condenados a uma solidão inimaginável.
À medida que os linguistas reconhecem a magnitude da extinção das línguas e se apressam a catalogar as mais vulneráveis, cada vez mais se defrontam com questões implícitas sobre o valor e a utilidade dos idiomas. Será que cada um guarda em si conhecimento benéfico insubstituível? Existem aspectos das culturas que correm o risco de se perder caso sejam traduzidos para alguma das línguas dominantes? Que perspectivas inusitadas o mundo perde com a redução de sua diversidade linguística?
O tuvano não está entre os idiomas ameaçados de extinção, mas bem que poderia estar. Desde o colapso da União Soviética, a língua estabilizou-se. Conta, agora, com um exército bem aparelhado – mas não com estação de TV nem moeda, embora disponha de jornal e um conjunto de falantes que se estende à Mongólia e à China. Contudo, o tofa, um idioma siberiano vizinho, está reduzido a 30 falantes. A importância do tuvano para o nosso entendimento do sumiço das línguas está em outra questão que intriga os linguistas: o que faz com que um idioma prospere, enquanto outros minguam e morrem?
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Brasil Poliglota – Línguas brasileiras ameaçadas de extinção
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Uma voz para resistir – A luta pelo reconhecimento do Quilombo do Cafundó, que tem língua própria, a cupópia
