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Adriano Gambarini

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A vida pela janela do carro

por Adriano Gambarini em 24 de maio de 2013

Cão-da-pradaria

Estou no Colorado, em pleno deserto americano. Depois de um extenso trabalho no sul do estado com meu amigo e pesquisador Rogério Cunha, seguimos de carro para o norte. Um dia de folga, ou day off, como dizem por aqui.

Sempre preferi viajar de carro, com certeza um aprendizado de infância quando tomava as estradas rumo à Bahia com minha família. As paisagens transmutam a todo instante, imprime-se um sentido maior de movimento e vem a sensação de que o mundo é mutável. Assim como nós. Mas insistimos em mantermos amarras a conceitos, padrões e ego.

Num dado momento da viagem, ainda sob os domínios do deserto, vimos pela janela dezenas de pequenos bichos correrem em ritmo frenético dos campos à margem da estrada. Pareciam marmotas entrando e saindo de buracos no chão, fuçando o pouco de vegetação cuja presença era um desafio ao calor da época (ou ao frio do último inverno).

Dali, da janela do carro, olhei, fotografei, brinquei com os pensamentos. Lembrei-me dos tempos idos. Desejei mais momentos assim, quando a vida se mostra graciosamente simples. De repente uma americana, com seu filho, parou: “Vocês gostam desses animais? Que surpresa! Eu paro aqui todos os dias com meu filho só para ver esses cães-da-pradaria. Eles são tão engraçados”.

Expressões singelas da força da vida estão sempre ao nosso lado, podendo ser vista ‘pela janela do carro.’  Mas o rumo da história nos impõe o olhar para frente, para o futuro, desejando repetir (ou fugir de) um passado que já não existe mais. E sem o chão do que já vivemos, buscamos a realidade vindoura que ainda não se materializou. Enquanto isto, a única certeza efetiva, que é a beleza sutil do momento presente, passa despercebido.

Sábios são estes animais, cães-da-pradaria, que correm livres pelos campos, e em sua perfeita forma de existência só têm que se preocupar quando algum carro e dois desajeitados param perto de suas protegidas tocas.

Tamanduá-bandeira… em pé ou deitado?

por Adriano Gambarini em 26 de abril de 2013

Focinho enfurnado, inseto intocado.

Procuro abrigo, fujo calado.

Não dá pra competir, tudo é mais rápido.

Só o que me resta neste mundo dos homens

É perecer deitado.

 

Cavernas no Brasil e o Programa do Jô

por Adriano Gambarini em 11 de abril de 2013

Livro Cavernas no Brasil

Há alguns dias fui entrevistado pela segunda vez no Programa do Jô. Entre tantos assuntos – que iam da publicação do meu mais recente livro: Cavernas no Brasil, até acontecimentos engraçados e aflitivos que já vivi nas diversas viagens pelo mundo – falei sobre a labuta na documentação das cavernas brasileiras.

Mais do que a satisfação em divulgar o próprio trabalho em um programa de grande repercussão, encarei como uma forma de colocar a espeleologia e as cavernas na mídia. Eu creio que as questões ambientais deveriam ter muito mais espaço nos veículos de imprensa do Brasil e do mundo. Quando surgem, as coberturas se limitam ao desmatamento na Amazônia, às queimadas ou à poluição de rios. As cavernas quase nunca são assunto.

Falar de um tema tão específico (cavernas) é algo que nos dá uma soprada de otimismo. Sim, porque um ambiente cavernícola nada difere dos grandes biomas ameaçados em termos de fragilidade e necessidade de proteção. Aliás, enxergo até diferente: o patrimônio espeleológico demanda uma preocupação ainda maior.

Se fosse para comparar com qualquer bioma, diria que as cavernas são vistas com o mesmo descaso que o Cerrado.

Para tantos governistas, o Cerrado nada mais é do que “arvores tortas num campo seco” que impedem (ou pior, não impedem!), a expansão agrícola e os altos índices de produtividade de grãos que, ironicamente, não ficam no país. A mesma coisa acontece com a maioria dos minérios explorados por mineradoras, cuja atividade afeta diretamente as cavernas, que entram em um processo sem reversão.

Enfim, assuntos que não podem ser esquecidos, e quanto maior sua exposição na mídia, melhor. É o que tenho tentado fazer.

[Veja a entrevista no Programa do Jô]

Programa do Jô

O voo do falcão

por Adriano Gambarini em 22 de março de 2013

O voo do falcão

Me disseram que eu nasci para voar.

Que dos altos penhascos eu observaria o mundo.

O vasto azul do céu? Lá seria meu palco, meu pano de fundo.

O vento seria o limite, e em tudo mais que o prazer da vida consiste.

Só não me disseram onde eu não poderia pousar.

A onça que vale cinquenta

por Adriano Gambarini em 20 de fevereiro de 2013

Existe alguma semelhança entre este desenho e a foto? É isso mesmo! Anos atrás fui contatado pela Casa da Moeda do Brasil, que solicitou esta foto para usar como referência para as notas que seriam renovadas. É claro que foi motivo de orgulho ter uma onça-pintada fotografada por mim desenhada para sempre na moeda brasileira! Bom, “sempre” é uma palavra meio relativa em se tratando de Brasil, mas espero que se mantenha por vários anos!

Esta onça tem história na NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Em 2000, eu a fotografei para a primeira matéria produzida para a revista em sua versão nacional. Cerca de três meses após sua chegada por aqui, ofereci a história sobre pesquisadores de felinos em Goiás, com quem trabalhava já fazia alguns anos. Prontamente aceita por Matthew Shirts, lá estava eu com biólogos, veterinário e equipe de captura no Cerrado goiano, 10 filmes cromos no bolso e muita disposição para, literalmente, correr, correr e correr atrás da dita cuja! Ou melhor, atrás dos cachorros que tentavam acuá-la em meio aos brejos e veredas. Foram dias de muito desgaste físico e psicológico, afinal, correr atrás do maior felino das Américas não é exatamente um passeio de barco. A matéria foi publicada em maio de 2001.

Foi uma época em que ver onça-pintada em vida livre era uma raridade, e até então as únicas fotos conhecidas vinham do Haroldo Palo Jr., excelente fotógrafo por seu minucioso trabalho nos confins pantaneiros. Era normal, para mim e para os pesquisadores, participar de campanhas de capturas durante 20 dias e simplesmente não ver uma onça sequer. Atualmente, fotógrafos e aspirantes podem avistá-las muito facilmente, sentados tranquilamente num barco-voadeira sobre as águas do Rio Paraguai. “Onça garantida ou seu dinheiro de volta.”

Leigos dizem que a facilidade para tal observação se deva à proibição da caça e o aumento de onças na região. Como aqui não é o País das Maravilhas, e durante todos estes anos acabei aprendendo um pouco sobre a ecologia destes grandes animais, sei muito bem que a caça não acabou e um predador topo de cadeia alimentar não “sobra” num ambiente equilibrado. Se elas estão ali, decorando os barrancos do rio para o deleite de curiosos, é por um motivo bem diferente. Obscuro até. No final das contas, o problema é, ou será, bem maior. Para a onça, obviamente.

O poder das legendas

por Adriano Gambarini em 24 de janeiro de 2013

Desde que me conheço por fotógrafo, e até mesmo antes disso, quando era um mero admirador dos olhares alheios e de suas frugais revelações em forma de fotografia, tento entender o porquê da informação distorcida, para não dizer mentirosa, que alguns fotógrafos atribuem às legendas de seu próprio trabalho. Mentir para o leitor é, antes de qualquer coisa, mentir pra si mesmo. Afinal, o fotógrafo estava lá na cena que registrou, sabe o que aconteceu, onde foi e sob quais circunstâncias. Então por que atribuir uma história que não existiu?

E agora, neste mundo digital onde as pessoas querem alcançar a perfeição a todo custo, a fotografia virou um mero instrumento de brincar em ser divino; e assim os pássaros começam a ter cores extravagantes e os insetos se tornam de tal forma coloridos que nem mesmo eles se reconheceriam num espelho. Foi-se o tempo das cores em tons pastéis. A interferência está institucionalizada, e as legendas ainda mais banalizadas.

Talvez a sociedade tenha esta necessidade inerente à observação de uma fotografia;  a de quantificar, mistificar, endeusar a imagem e, por conta disto, quem a produziu. Mas uma escada tem sempre duas direções – para cima e para baixo. E isto é tão verdade como a possibilidade de ficar parado em algum degrau. Depende do que queremos deixar como legado.

Susan Sontag escreveu: “todas as fotos esperam sua vez de serem explicadas, ou deturpadas, por suas legendas”.

Todo fotógrafo tem uma grande responsabilidade, como ser humano que é, de atribuir à sua obra a exata informação sobre a cena que documentou. Pode até haver um polimento na história, mas não uma distorção. Afinal, polir é dar brilho, distorcer é alterar.

Se existe a premissa de que a fotografia eterniza um momento, que cada um possa ser nobre o suficiente para eternizar uma verdade.