Adriano Gambarini
A vida pela janela do carro
Estou no Colorado, em pleno deserto americano. Depois de um extenso trabalho no sul do estado com meu amigo e pesquisador Rogério Cunha, seguimos de carro para o norte. Um dia de folga, ou day off, como dizem por aqui.
Sempre preferi viajar de carro, com certeza um aprendizado de infância quando tomava as estradas rumo à Bahia com minha família. As paisagens transmutam a todo instante, imprime-se um sentido maior de movimento e vem a sensação de que o mundo é mutável. Assim como nós. Mas insistimos em mantermos amarras a conceitos, padrões e ego.
Num dado momento da viagem, ainda sob os domínios do deserto, vimos pela janela dezenas de pequenos bichos correrem em ritmo frenético dos campos à margem da estrada. Pareciam marmotas entrando e saindo de buracos no chão, fuçando o pouco de vegetação cuja presença era um desafio ao calor da época (ou ao frio do último inverno).
Dali, da janela do carro, olhei, fotografei, brinquei com os pensamentos. Lembrei-me dos tempos idos. Desejei mais momentos assim, quando a vida se mostra graciosamente simples. De repente uma americana, com seu filho, parou: “Vocês gostam desses animais? Que surpresa! Eu paro aqui todos os dias com meu filho só para ver esses cães-da-pradaria. Eles são tão engraçados”.
Expressões singelas da força da vida estão sempre ao nosso lado, podendo ser vista ‘pela janela do carro.’ Mas o rumo da história nos impõe o olhar para frente, para o futuro, desejando repetir (ou fugir de) um passado que já não existe mais. E sem o chão do que já vivemos, buscamos a realidade vindoura que ainda não se materializou. Enquanto isto, a única certeza efetiva, que é a beleza sutil do momento presente, passa despercebido.
Sábios são estes animais, cães-da-pradaria, que correm livres pelos campos, e em sua perfeita forma de existência só têm que se preocupar quando algum carro e dois desajeitados param perto de suas protegidas tocas.
Tamanduá-bandeira… em pé ou deitado?
Focinho enfurnado, inseto intocado.
Procuro abrigo, fujo calado.
Não dá pra competir, tudo é mais rápido.
Só o que me resta neste mundo dos homens
É perecer deitado.
Cavernas no Brasil e o Programa do Jô
Há alguns dias fui entrevistado pela segunda vez no Programa do Jô. Entre tantos assuntos – que iam da publicação do meu mais recente livro: Cavernas no Brasil, até acontecimentos engraçados e aflitivos que já vivi nas diversas viagens pelo mundo – falei sobre a labuta na documentação das cavernas brasileiras.
Mais do que a satisfação em divulgar o próprio trabalho em um programa de grande repercussão, encarei como uma forma de colocar a espeleologia e as cavernas na mídia. Eu creio que as questões ambientais deveriam ter muito mais espaço nos veículos de imprensa do Brasil e do mundo. Quando surgem, as coberturas se limitam ao desmatamento na Amazônia, às queimadas ou à poluição de rios. As cavernas quase nunca são assunto.
Falar de um tema tão específico (cavernas) é algo que nos dá uma soprada de otimismo. Sim, porque um ambiente cavernícola nada difere dos grandes biomas ameaçados em termos de fragilidade e necessidade de proteção. Aliás, enxergo até diferente: o patrimônio espeleológico demanda uma preocupação ainda maior.
Se fosse para comparar com qualquer bioma, diria que as cavernas são vistas com o mesmo descaso que o Cerrado.
Para tantos governistas, o Cerrado nada mais é do que “arvores tortas num campo seco” que impedem (ou pior, não impedem!), a expansão agrícola e os altos índices de produtividade de grãos que, ironicamente, não ficam no país. A mesma coisa acontece com a maioria dos minérios explorados por mineradoras, cuja atividade afeta diretamente as cavernas, que entram em um processo sem reversão.
Enfim, assuntos que não podem ser esquecidos, e quanto maior sua exposição na mídia, melhor. É o que tenho tentado fazer.
O voo do falcão
O voo do falcão
Me disseram que eu nasci para voar.
Que dos altos penhascos eu observaria o mundo.
O vasto azul do céu? Lá seria meu palco, meu pano de fundo.
O vento seria o limite, e em tudo mais que o prazer da vida consiste.
Só não me disseram onde eu não poderia pousar.
A onça que vale cinquenta
Existe alguma semelhança entre este desenho e a foto? É isso mesmo! Anos atrás fui contatado pela Casa da Moeda do Brasil, que solicitou esta foto para usar como referência para as notas que seriam renovadas. É claro que foi motivo de orgulho ter uma onça-pintada fotografada por mim desenhada para sempre na moeda brasileira! Bom, “sempre” é uma palavra meio relativa em se tratando de Brasil, mas espero que se mantenha por vários anos!
Esta onça tem história na NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Em 2000, eu a fotografei para a primeira matéria produzida para a revista em sua versão nacional. Cerca de três meses após sua chegada por aqui, ofereci a história sobre pesquisadores de felinos em Goiás, com quem trabalhava já fazia alguns anos. Prontamente aceita por Matthew Shirts, lá estava eu com biólogos, veterinário e equipe de captura no Cerrado goiano, 10 filmes cromos no bolso e muita disposição para, literalmente, correr, correr e correr atrás da dita cuja! Ou melhor, atrás dos cachorros que tentavam acuá-la em meio aos brejos e veredas. Foram dias de muito desgaste físico e psicológico, afinal, correr atrás do maior felino das Américas não é exatamente um passeio de barco. A matéria foi publicada em maio de 2001.
Foi uma época em que ver onça-pintada em vida livre era uma raridade, e até então as únicas fotos conhecidas vinham do Haroldo Palo Jr., excelente fotógrafo por seu minucioso trabalho nos confins pantaneiros. Era normal, para mim e para os pesquisadores, participar de campanhas de capturas durante 20 dias e simplesmente não ver uma onça sequer. Atualmente, fotógrafos e aspirantes podem avistá-las muito facilmente, sentados tranquilamente num barco-voadeira sobre as águas do Rio Paraguai. “Onça garantida ou seu dinheiro de volta.”
Leigos dizem que a facilidade para tal observação se deva à proibição da caça e o aumento de onças na região. Como aqui não é o País das Maravilhas, e durante todos estes anos acabei aprendendo um pouco sobre a ecologia destes grandes animais, sei muito bem que a caça não acabou e um predador topo de cadeia alimentar não “sobra” num ambiente equilibrado. Se elas estão ali, decorando os barrancos do rio para o deleite de curiosos, é por um motivo bem diferente. Obscuro até. No final das contas, o problema é, ou será, bem maior. Para a onça, obviamente.
O poder das legendas
Desde que me conheço por fotógrafo, e até mesmo antes disso, quando era um mero admirador dos olhares alheios e de suas frugais revelações em forma de fotografia, tento entender o porquê da informação distorcida, para não dizer mentirosa, que alguns fotógrafos atribuem às legendas de seu próprio trabalho. Mentir para o leitor é, antes de qualquer coisa, mentir pra si mesmo. Afinal, o fotógrafo estava lá na cena que registrou, sabe o que aconteceu, onde foi e sob quais circunstâncias. Então por que atribuir uma história que não existiu?
E agora, neste mundo digital onde as pessoas querem alcançar a perfeição a todo custo, a fotografia virou um mero instrumento de brincar em ser divino; e assim os pássaros começam a ter cores extravagantes e os insetos se tornam de tal forma coloridos que nem mesmo eles se reconheceriam num espelho. Foi-se o tempo das cores em tons pastéis. A interferência está institucionalizada, e as legendas ainda mais banalizadas.
Talvez a sociedade tenha esta necessidade inerente à observação de uma fotografia; a de quantificar, mistificar, endeusar a imagem e, por conta disto, quem a produziu. Mas uma escada tem sempre duas direções – para cima e para baixo. E isto é tão verdade como a possibilidade de ficar parado em algum degrau. Depende do que queremos deixar como legado.
Susan Sontag escreveu: “todas as fotos esperam sua vez de serem explicadas, ou deturpadas, por suas legendas”.
Todo fotógrafo tem uma grande responsabilidade, como ser humano que é, de atribuir à sua obra a exata informação sobre a cena que documentou. Pode até haver um polimento na história, mas não uma distorção. Afinal, polir é dar brilho, distorcer é alterar.
Se existe a premissa de que a fotografia eterniza um momento, que cada um possa ser nobre o suficiente para eternizar uma verdade.


