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Adriano Gambarini

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Eu vi um urso nas Montanhas Apalaches!

por Adriano Gambarini em 16 de maio de 2012

Estive no Tennessee, nos Estados Unidos, alguns dias atrás, mais precisamente na cordilheira das Montanhas Apalaches. Um dos meus maiores sonhos como viajante era ver um urso – assim como diversos fotógrafos brasileiros expressam a vontade ímpar de ver uma onça pintada em vida livre e acabam por navegar nas águas calmas do Rio Paraguai, lugar de fácil visualização de onça nos últimos anos.

As Apalaches são moradia do urso preto (Ursus americanus). Dizem que é possível vê-lo, mas bicho solitário é sempre um problema, e imagino que os americanos não estejam cevando ursos pra turista ver, como levianamente tem acontecido com onças no Brasil. Até porque em todo lugar existem áreas de camping, e um urso rondando barracas não é algo “saudável”.

Depois de alguns dias insistindo numa área onde me disseram ser a melhor para visualização de urso, já meio desistindo desta história, vi uma corcova preta bem longe, no meio do capim alto dos campos. Será? Só pode ser! Tem que ser! Caminhei meio ressabiado pelo campo enquanto tentava acompanhar o rumo do bicho.

Uma frase que li num panfleto não saía da minha cabeça: “Bears are dangerous. If the animal changes its behavior, stay tuned!”, ou algo do gênero. Mas o recado estava dado. Só me tranquilizei quando percebi que ele tinha atravessado um pequeno córrego e seguido para outro campo.

Bom, temos um vale entre nós. Qualquer coisa, pernas pra que te quero, pensei. Já estava mais do que emocionado de vê-lo dar o ar da graça ao levantar a cabeça enorme para cheirar o ar, quando o vi ficar em pé para alcançar algumas folhas numa árvore!

O bicho ficou em pé! É muita sorte a minha! Enquanto eu buscava uma lacuna entre galhos e capins que me permitisse definir melhor o animal na foto, em vez de ter apenas uma mancha preta estilo “Onde está Wally?”, o urso resolveu subir na árvore! Meu dedo não parava de clicar (nessas horas tenho que agradecer à era digital). Foi o momento em que pude chegar mais perto (afinal tinha um vale e árvores entre nós). Nada poderia dar errado. E não deu, felizmente!

Foram certamente os 10 minutos mais fantásticos desta viagem e até agora me pergunto como um bicho daquele tamanho conseguiu subir naqueles galhos tão finos (alguns rangers que viram a foto calcularam o peso do urso em torno de 250 libras, algo como 110 quilos). E mesmo que alguma desventura tecnológica sumisse com estas fotos, eu o teria na minha lembrança. Sempre tento manter meu conceito primordial de viajante: a memória humana e a capacidade de contar uma história têm o mesmo valor, às vezes maior, do que centenas de imagens digitais. A experimentação, muitas vezes, é mais importante do que o resultado.

Nova York: fotografia em terras norte-americanas

por Adriano Gambarini em 25 de abril de 2012

Faz dois dias que saímos de Nova York rumando para o sul dos Estados Unidos. Nunca fui muito de viajar para grandes cidades, a não ser de passagem para algum lugar mais “escondido”. Apesar de já ter vindo para os EUA algumas vezes, é a primeira vez que encaro esta cidade. E devo admitir que ela é simplesmente fantástica e valeu vários ensaios fotográficos.

A pressa das pessoas, o tráfego caótico, o metrô labiríntico com um verdadeiro abecedário compondo suas linhas e estações, músicos a cada esquina, taxistas de toda a parte do mundo falando um inglês incompreensível, a velocidade em que tudo acontece: tudo é motivo para causar um frenesi aos visitantes e os deixar completamente sem energia no final do dia.

Tudo é absolutamente intenso, e, se porventura tal descrição pareça negativa, devo lembrar dos sorry, excuse me e thank you que se ouve a todo instante, tal é a educação das pessoas. E da atenção que os carros têm às faixas de pedestres, às bicicletas; do sol “azulado” que proporciona um contra-luz sem igual entre os prédios altíssimos. E, o melhor, do maravilhoso parque verde que cobre grande parte da ilha de Manhattan, como um coração de árvores pulsando tranquilidade àquela insana vida urbana.

Nova York tem problemas? Certamente deve ter, como toda grande cidade. Mas tem museus fantásticos que podem ser visitados, nos fazendo esquecer da loucura exterior. Tem enormes canteiros de tulipas muito bem cuidadas. Tem lixo ao final do dia? Toneladas! Mas as ruas estão limpas ao amanhecer do dia seguinte, e as pessoas, com seus trejeitos mais variados, de punks a executivos, coloridos, brancos, negros e asiáticos, se juntam e se misturam num único vagão, como uma diferente e única tribo. Muito de tudo é o que se vê por aqui.

Cadê o pitu? Não foi o gato que comeu…

por Adriano Gambarini em 22 de março de 2012

O cenário é fantástico. Águas verdes do Rio São Francisco relativamente caudaloso cortam um vale encravado entre paredões rochosos. Pequenas canoas se movimentam ao sabor do amanhecer, soltando pequenas armadilhas em formato cilíndrico ao longo do rio. São os covos, tradicionalmente feitos com varetas de taquara, por ora também confeccionados com cano de pvc. Os catadores os deixam cerca de dois dias dentro do rio e voltam para pegar a doce iguaria capturada: o saboroso pitu, o “camarão de água doce”. 

Foi isto que fotografei no final dos anos 90, quando passei pela região de Piranhas, em Alagoas. Uma tradição antiga de pesca nos domínios deste importante rio brasileiro. Mas na época os pescadores já reclamavam de uma nítida redução do animal nas águas do Velho Chico. Alegavam que a barragem de Xingó, bem perto dali, reduziu drasticamente a proliferação do animal naquelas verdes águas.

Há cerca de um mês retornei à região. Na eminência de finalizar um livro sobre o Rio São Francisco, parti em busca de mais algumas imagens dos ‘catadores de pitu’. Qual foi minha surpresa ao saber que a pesca está proibida pelo Ibama nos próximos anos. O pitu consta como animal em extinção.

Agora, um nova razão está sendo atribuída pelos pescadores: a existência de tucunaré no rio. Um pescador chegou a afirmar que já encontrou cinco a seis pequenos pitus dentro de um único tucunaré pescado. Quem conhece a fauna brasileira deve estar se perguntando o que um peixe amazônico faz no Rio São Francisco. Foi introduzido após a construção da barragem. Como é praticamente impossível controlar este tipo de introdução, sem predador natural e sendo ele mesmo um faminto predador, o tucunaré vem dominando gradativamente aquelas verdes águas, outrora habitadas por dourados, tubaranas e surubins. E pitus. Pessoas da região também afirmaram que o problema não é só este: a pesca se tornou predatória nos últimos anos, o que piorou ainda mais a recuperação da espécie. Isto corrobora o que a “Operação a Rios Federais”, do Ibama, constatou em suas ações contra a pesca predatória no Rio São Francisco. Apreenderam dezenas de covos cuja malha era tão fina que capturava até mesmo pequenos filhotes de pitu.

Triste fim para uma espécie e para uma tradição outrora sustentável. Ganância, imediatismo, interferência desorientada no meio ambiente. Os desajustes humanos realmente parecem seguir para um caminho cada vez mais caudaloso.

 

Velho Rio São Francisco, novos problemas

por Adriano Gambarini em 29 de fevereiro de 2012
Foto tirada em Penedo (AL) em 1997

Foto tirada em Penedo (AL) em 1997

Foto tirada em Penedo (AL) em 2012

Foto tirada em Penedo (AL) em 2012

Estou agora às margens do Rio São Francisco finalizando as fotos para meu próximo livro. Pela quarta vez volto ao Baixo Rio, próximo à foz. Resolvi retornar a esta região em busca dos tradicionais pescadores de pitu, que na região de Piranhas (AL) até Penedo (AL) viviam a cultura de espalhar covos pelo rio e, no dia seguinte, buscar o tão desejado camarão de água doce. Qual foi minha surpresa quando descobri que a pesca do pitu foi proibida nos próximos cinco anos!

Certamente retomarei este assunto num próximo artigo, mas o fato é que na cidade de Penedo fotografei uma cena, do mesmo ângulo, no alto do mais alto prédio da cidade. Uma situação que descreve nitidamente o quanto o Velho Chico está sofrendo, silenciosamente, as consequências de ações humanas. Como dizia os antigos: “O plantio é livre; a colheita, obrigatória”.

As tantas ações do homem nos últimos séculos têm provocado reações de adaptação no rio, nada mais do que naturais. Retirou a mata ciliar? A chuva lava suas várzeas e carrega sedimentos. Construiu uma sequências de barragens e assim controlar a força vazante das águas? O rio perde sua velocidade, aumenta o processo de sedimentação daquele material carreado pela chuva. Simples. Fácil de prever. O difícil é entender porque o homem não percebe que qualquer interferência sobre um ambiente estável tem um tempo de adaptação, muitas vezes com consequências que prejudicam o entorno. E quem vive neste entorno.

Duas enormes ilhas e um banco de areia se formaram no meio do rio em frente à cidade, vistas claramente nas fotos separadas por pouco mais de dez anos. Profecias soltas nas ruelas da cidade não dão mais cinco anos para que aquele trecho do rio fique tragicamente obstruído, permitindo que a navegação, ainda tão ativa nesta região, seja bem prejudicada. Obviamente o rio terá que se adaptar a esta nova condição. Talvez a fertilidade de suas águas à jusante das ilhas seja alterada, assim como a grande área de mangues na foz. Difícil prever, difícil remediar.

O mais provável é que algum “benfeitor do povo” tenha a grandiosa ideia de iniciar alguma licitação, para que alguma empresa de algum parente viva a feliz coincidência de ganhar aquela licitação. E assim algumas máquinas pesadas tirarão aquele sedimento que assoreou o rio. Uma “benfeitoria para o povo!”. É bem provável ainda que este mesmo sedimento seja colocado nas margens do rio. E absolutamente provável que as próximas chuvas carreguem aquele sedimento novamente, para dentro do rio. E toda aquela nova interferência no rio seja em vão. Mas aí é outra história; pois os benfeitores do povo vivem ciclos de quatro anos; o ser humano vive ciclos de setenta anos. Já aquelas águas vivem o ciclo atemporal da Terra.

Xavantes e a força de ser

por Adriano Gambarini em 29 de dezembro de 2011
Fotos: Adriano Gambarini

Fotos: Adriano Gambarini

Findo o ano com a força dos xavantes amarrando meus punhos. Segui ao movimento dos remos silenciosos cortando águas escuras. A ausência nestas páginas virtuais são reflexos da presença intensa nos caminhos que percorri nos últimos meses; onde não há contatos ilusórios ou digitais. O que há é real, é tocável, é cheirado à fumaça densa de lenha queimada. Lá a energia vem do olhar forte de um povo guerreiro, da luz amarelada do candieiro, da brincadeira ingênua e infantil das gerações futuras. Em outros cantos, nas rabetas que cortam furos está a sabedoria empírica dos povos ribeirinhas; nos tachos quentes o calor amarelado da sobrevivência e da farinha. Nas matas ainda primárias as aves ensurdecem as réstias de sol. Nos campos devastados pela ganância branca, surge a tradição ávida em relembrar os entes, passados.

Já não me basta apenas o registro. Ou se um dia assim foi, brota agora o desejo incondicional do desapego. Pois é fugaz o documento sem o aprendizado; assim o é volátil, sem o compartilhar.

2012 está aí, no calcanhar de aquiles, daquilo e disto que já não sabemos se existirá ou não. E aos incautos que insistem em blasfemar que tudo acaba: percebam que o fim é só o recomeço num outro estado daquilo que deixou de ser. A recriação começa se algo finda. Simples.

Inicio o ano com a força dos xavantes nas entrelinhas desta tão humilde retratação. Sentir a cena antes do gesto incondicional de gravar. Ou só olhar. E quem sabe, num momento lúcido de ser, o ver.

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O lendário Jupará

por Adriano Gambarini em 21 de outubro de 2011

Crédito da foto: Adriano Gambarini

O papo começa sempre da mesma forma:

- Tem macaco da noite aqui?
 
- Tem demais! Outro dia mesmo apareceu uns quatro ali, pra lá daquela bacaba.
 
 

Se dou trela, o assunto cresce.

 
- Antesdonte tava caçano, e uns gogó viero no fogo, se não dou conta dois pulava no meu pescoço!
 
 

E numa conversa que transita o surreal, tento seguir na prosa e entender aquelas palavras.

 
- Vamos hoje procurar uns pra eu fotografar?
 
- Bora!

 

Esta conversa com uma ribeirinha da Amazônia foi para descobrir se existia Jupará ali na região.

O Jupará é uma espécie de carnívoro arborícola, de hábitos noturnos. Na realidade, é um procionídeo e nada tem de primata. Mas os ribeirinhos chamam de macaco-da-noite, pois realmente parece um macaquinho com grandes olhos, facilmente confundido com o verdadeiro macaco-da-noite.

Muito folclore cerca os hábitos deste animal, que é tido como arisco e que (dizem os ribeirinhos), costuma atacar a população local. Até então, eu nunca havia o encontrado, mesmo depois de anos de expedições noturnas pela Amazônia. Desta vez eu o encontrei depois de anos de busca.

Após um dia inteiro tocaiando um ninho de harpia, voltava pela trilha com Adermar, líder da comunidade, que me ajudou nas trilhas, quando ouvimos um ruído sutil.

A primeira impressão foi a de que se tratava de um macaco-da-noite, mas na segunda foto vi a coloração do pescoço e tive certeza: era o Jupará!

Apesar de curioso, o bicho é tímido demais, e sua aparição não chega a durar um minuto. Neste tempo tenho que iluminar, preparar o flash, segurar a câmera (que pesa uns 11 kg com a lente, flash e bateria) a 90o graus para cima, encontrar o bicho na ramagem, atrair a curiosidade dele, focar o bicho a uns 30 m de altura…

O resultado disto tudo? Três ótimas fotos, 2 fotos escuras, 2 fotos desfocadas. Ademar perdeu um jabuti (ele vinha carregando dois deles para alimentar sua família), ganhamos muitos carrapatos e o enorme prazer de ver, e compartilhar, um bicho talvez tão lendário quanto o olingo (e que está na minha lista de desejos também).

 

 

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TEDx Ver-o-peso, o encontro

por Adriano Gambarini em 1 de setembro de 2011

Odores herbais impregnam os corredores enquanto cores sutis e mundanas ilustram nossos olhares. Idéias, sonhos, conceitos e verdades compõem o fantástico palco da transmutação. Um único objetivo envolve todos que percorrem ansiosos aquele pequeno espaço temporal de oito horas, cujos efeitos transformarão para sempre o tempo da vida de cada um ali presente. Assim é o evento TEDx. Assim foi o TEDx Ver-o-Peso da semana passada, onde tive a honra de palestrar. Mais, de compartilhar minha vida com aqueles que acreditam no poder da troca. Foram nove meses de preparação, uma gestação sentida por todos e cujo parto mais do que natural trouxe a força do sentir, observar, lutar e mudar. “Eventos TEDx mexem mesmo com nossas emoções e visões de mundo. TEDx é só o começo…”, diz Karina Miotto, host do evento.

Desse encontrou surgiu outro, unindo o ofício de três palestrantes e assistido por um sem número de pessoas que também se entregaram à energia do TEDx.

Beth Cheirosinha é erveira há 45 anos na maior feira livre da América Latina, o Mercado Ver-o-Peso. Sua vida, que se funde a garrafadas milagrosas, perfumes e histórias, cedeu sua barraca de ervas aos sprays do grafiteiro Mundano, artista das ruas paulistanas que ganhou a estrada na carona dos catadores de rua. Seus grafites deram nome e voz aos anônimos que caminham invisíveis nas grandes cidades.

Eu, mais um crente de um mundo possível e melhor, simplesmente fotografei. Um singelo registro da certeza da possibilidade. Da crença na verdade absolutamente universal: Se quisermos, podemos transformar este mundo, num mundo em constante e prazerosa transformação.

Beth Cheirosinha, erveira há 45 anos na maior feira livre da América Latina, o Mercado Ver-o-Peso - Foto: Adriano Gambarini

Mercadorias do Ver-o-peso, em Belém, Pará

sprays de tinta, usados para grafite

Beth Cheirosinha, erveira há 45 anos na maior feira livre da América Latina, o Mercado Ver-o-Peso

Mercado Ver-o-peso, em Belém, Pará

Beth Cheirosinha, erveira há 45 anos na maior feira livre da América Latina, o Mercado Ver-o-Peso, em Belém, no Pará

Mercado ver-o-peso, em Belém, no Pará

Mercado ver-o-peso, em Belém, Pará

 

Lobo-guará, um solitário no cerrado

por Adriano Gambarini em 18 de agosto de 2011

Saiu na edição deste mês da National Geographic Brasil uma reportagem sobre um fantástico carnívoro brasileiro, o lobo-guará. A matéria rumou mais para um ensaio intimista do autor do que propriamente a descrição biológica sobre a espécie.

Contribuí com a foto de um filhote de lobo em vida livre. A forma como a fêmea constrói o ninho é surpreendente: túneis labirínticos escondidos no capim alto do cerrado, não usados mais do que alguns parcos dias. Depois, numa estratégia de defesa, ela troca o ninho de lugar sem deixar rastros.

Há dois anos escrevi um post sobre o lobo, mas confesso que nunca é demais quando se trata deste arisco animal. Me sinto honrado em documentar, há mais de 10 anos, um dos principais projetos de pesquisa e conservação deste canídeo, na Serra da Canastra. Já fotografei o lobo em tantas e diversas condições que, atualmente, quando vejo um lobo caminhando livre, por vezes prefiro cair em devaneios e observações do que sair em busca de melhores ou exclusivas imagens. Simplesmente admiro seu andar desengonçado, sua eficaz forma de caçar ou seu jeito inusitado de seguir em frente, passo a passo, abrindo calmamente o capim alto da Canastra.

Lançamento do livro Serra da Canastra – Diversidade Infinita

por Adriano Gambarini em 21 de julho de 2011

Em setembro de 2000, comecei meus trabalhos na Serra da Canastra para documentar lobo-guará e o projeto do biólogo Rogério Cunha de Paula. Naquela época, as fotos serviriam para o livro Natureza, Conservação e Cultura, para onde documentei todos (ou quase) os carnívoros brasileiros e os projetos do Instituto Pró-Carnívoros. Num certo dia, enquanto rastreávamos um lobo tivemos simultaneamente a mesma visão: produzir um livro sobre a região da Serra da Canastra que fizesse jus à sua grandiosidade e beleza. Não seria apenas um livro sobre fauna, flora ou aspectos do ecossistema existente; muito menos se atentar culturalmente apenas à produção do famoso queijo Canastra. Isto seria óbvio demais e não explicitaria de fato a diversidade natural e sociocultural do lugar.

Três anos se passaram e a jornalista Laís Duarte Mota, conhecedora profunda da cultura da região, gostou da idéia. Três olhares distintos enxergando as mesmas belezas. Em 2006 lançamos o primeiro livro, chamado simplesmente Serra da Canastra; se esgotou rapidamente, já que era o primeiro livro no mercado a abordar com profundidade os aspectos ambientais e principalmente culturais da região.

Mas apenas agora, 11 anos depois, conseguimos concretizar todas as idéias e propostas que tivemos conjuntamente, num fim de tarde do ano 2000. Inclusive acrescentar no nome desta obra as palavras que melhor expressam a Serra da Canastra: diversidade infinita.

Leia também a resenha do livro no site do Planeta Sustentável

Talvez seja prepotência chamá-lo assim de "obra", mas este livro é o retrato de um investimento pessoal e emocional sem precedentes. Nós três perdemos a conta das vezes que seguimos para estes rincões mineiros em busca de olhares, histórias e animais. O Rogério trabalha na região desde 1997 e dedica sua vida à conservação de lobos. Laís Duarte, quando trabalhava na TV Globo de Uberlândia, garimpava na Canastra temas culturais e ambientais para suas matérias televisivas. E eu, um aficionado por lugares simples onde a beleza é sutil entre luzes, formas e cores, disparei milhares de cliques em cromos, negativos P&B e digital.

Creio que conseguimos harmonizar em 240 páginas tudo de mais raro e especial que já vimos por aquelas serras, vales e casas. Entremeados entre informações ambientais e histórias curiosas da cultura local, estão neste livro cerca de 140 fotos de animais comuns e raros, paisagens diversas, olhares, cultura, pureza de pessoas centenárias, crenças e fé. Como assumi a coordenação editorial, mais do que a preocupação em trazer cenas raras, minha intenção na seleção das fotos foi tentar passar ao leitor uma sensação de êxtase, de prazer em saber que existe um lugar tão fantástico; compartilhar a honra de conhecer estas serras, animais e pessoas, e tornar este livro um convite para que todos visitem e se tornem parte deste pedaço de paraíso.

Lançamento do livro Serra da Canastra – Diversidade infinita

Quando: 24 de julho (domingo), das 17 as 21 horas
Onde: Espaço Araguari, 593, Jardim Europa, São Paulo, SP

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Morte e vida pantaneira

por Adriano Gambarini em 30 de junho de 2011

Recentemente vivi "a lida" do ir e vir pelas estradas do Mato Grosso do Sul. Me lembrei de tempos de outrora, quando pisei nos campos encharcados do Pantanal pela primeira vez, trazido pelos trilhos e vagões que agora adormecem esquecidos em algum pátio qualquer. Através das janelas, meus olhos se perderam nas paisagens que corriam para trás, como um filme de galope invertido. Um galope de cavalo pantaneiro que não dá chance pra jacaré amuado.

Nos dias presentes encontrei os mesmos moradores; os lobinhos continuam a caminhar a passos ligeiros pelos campos, enquanto os focinhos das capivaras ondulam as águas metalizadas dos rios. Aves brancas, aos montes e sem o menor pudor, desnudam o céu numa chuva ascendente de asas. Jacarés "carapaceando" as barrancas dos rios sob o amigo sol, que continua a tocar o horizonte e se desmantelar em tons incorrigíveis de amarelo. Tudo parece continuar como o tempo da vida.

Mas a sonoplastia das araras parece que agora ecoa menos, ou será que os banhados encolheram? Pois uma sensação estranha arremete; agora são mais estradas, mais campos monótonos e monopolizadores de grãos substituindo as cordilheiras e capões, mais tropas de "cavalos" roncando motores. Agora o vento não sopra apenas brisas e cheiro molhado de mato em vida, mas também nuvens densas e avinagradas de (trágicas) mudanças.
 
Até mesmo os animais em passos parecem calados. Como se não bastasse a lida diária atrás de comida e fugindo de ser ela – a comida, os lobinhos, as capivaras, os tatus e tudo quanto é bicho dos campos agora tem de caminhar a passo ainda mais ligeiro pra fugir da tropa. Mas não a tropa de pantaneiros que trotam cavalos molhados. O que afugenta agora é aquela tropa que tem luz nos olhos, ronca para caminhar e solta nuvem densa do rabicó. E que não desvia nem perdoa.

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