Adriano Gambarini
A Pequena Senhora

Ela saiu da pequena casa de taipa, num passo lento mas firme. Trazia consigo uma leiteira amassada de alumínio, provavelmente comprada de algum caixeiro viajante, única fonte de utensílios domésticos naquela remota região do sertão nordestino. Um pequeno vilarejo que até hoje não consta no mapa.
Informal, despejou um tanto de água num buraco da rua de terra, onde um pequeno porco rosado esperava ansiosamente por aquela benção sob o sol escaldante. Voltou calmamente para sua casa, deixando a porta entreaberta. Após a terceira vez em que realizou aquele ritual de compartilhar a água tão sagrada para o sertanejo, com o indefeso porco, me aproximei vagarosamente da pequena casa de taipa.
Encontrei a senhora sentada perto da porta, olhando para fora, para o porco, para o calor que vibrava no solo ressequido.
- Tarde!
- Tarde, respondeu com uma voz suavemente rouca, e já emendou: "Donde o sinhô é?"
- Sou nascido e criado em São Paulo, mas minha família é daqui da Bahia, de Santo Amaro.
- Tenho um sobrinho que mora em São Paulo, o João. Faz tempo que ele num parece por aqui… quando o sinhô incontrá ele, manda um abraço!
Neste momento me arrepiei, como quem sente o primeiro golpe de felicidade por uma sensação nunca antes percebida. Jamais havia provado tamanha ingenuidade vinda de alguém que não fosse criança.
- É que tô com 102, 103… num alembro direito mais das coisa!
- A senhora diz, que está com 102 anos?
- É meu sinhô, acho que sim… num me alembro mais…
- Posso tirar uma foto da senhora?
- Pode sim, e mostra pro meu sobrinho, o João.
E ficou me olhando, com um olhar de candura, opaco pelo tempo, brilhante pela sabedoria que carrega. Alguns incautos diziam ser fruto da catarata. Prefiro acreditar no devaneio de poeta, e enxergar uma beleza infinitamente superior, simples e pura. Uma alma que há um século vive neste mundo, descobrindo, reaprendendo, experimentando. Compartilhando seu bem maior, a água. Proseando com um estranho, que no fundo não é estranho. Apenas mais uma alma vivente neste mundo físico. E aqueles olhos enxergaram isto, olhos que já viram de tudo, já lacrimejaram um tanto mais, e agora sorriem.
- Qual o nome da senhora?
- Maria.
Simplesmente Maria.
- Por: Anônimo
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- 3 de fevereiro de 2010 at 10:20
Fernando Barros – Linda foto acompanhada e um belo texto que emociona. abraço
- Por: Anônimo
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- 10 de fevereiro de 2010 at 12:11
Ana – Simplesmente maravilhoso tamto a narrativa como a fotografia.Parab¿ns.
- Por: Anônimo
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- 25 de julho de 2010 at 21:45
Mirian Felix – Lindo texto! Bela foto! Emoção à flor da pele e nesse momento me faltam palavras…Seus textos são dignos de publicação. Lágrimas…
- Por: Anônimo
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- 3 de outubro de 2010 at 22:20
Thaenna – Nossa que Lindo ! Seu texto me faltou as palavras est¿ de parab¿ns e a foto enta¿ retrata tudo.
- Por: Anônimo
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- 15 de dezembro de 2010 at 22:49
Mague – Muito lindo, me emocionei ao ler.Procurava imagens do sertão e me deparei com seu blogQue bom saber que ainda existem pessoas sensiveis em meio a um mundo tão desumano.Um grande abraço!
- Por: Anônimo
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- 6 de janeiro de 2011 at 23:54
Michelle – Obrigada por compartilhar essa experiência incrivel.
- Por: Anônimo
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- 26 de janeiro de 2011 at 20:24
DANIEL – ESTA FOTO É UMA AMOSTRA QUE NESTE MUNDO NOS SOMOS IGUAIS RICO,POBRE,PRETO, BRANCO E AMARELO QUE DESTE LUGAR NÃO LEVAMOS NADA QUE AINDA TEM PESSOA SIMPLES ;
- Por: Anônimo
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- 19 de abril de 2011 at 16:39
Samantha Henzel – Simplesmente chorei! Com a história, com a personagem, com a humildade e ingenuidade, mas principalmente com o modo como tudo isso foi apresentado, pois não me causaria o mesmo efeito se tivesse sido escrito de outro modo. Lindo, perfeito! Meus sinceros parabéns, Adriano Gambarini, é por este e outros motivos semelhantes que escolhi Jornalismo, pois sei que nas andanças dessa vida encontrarei em meu caminho histórias como esta que encanta e amolecem o coração de qualquer um. Abraço.


Mirella – Simplesmente Maria. Simplesmente linda. Simplesmente pequena e grande ao mesmo tempo. Ainda bem que o Brasil tem gente t¿o simples assim. Obrigada por simplesmente deixar as Marias entrarem, assim, t¿o simplesmente, nas nossas vidas.