Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

Adriano Gambarini

t

Mato Grosso intocado

por Adriano Gambarini em 2 de outubro de 2008

Parque Nacional do Juruena. Mato Grosso ainda intacto. Em novembro de 2007 e janeiro de 2008 estive no Parque Nacional do Juruena, acompanhando uma expedição da WWF, para diagnóstico de biodiversidade.

Localizado entre o norte do estado do Mato Grosso e sul do Amazonas, o Parque Nacional do Juruena conta com uma área de 1,9 milhão de hectares. É o terceiro maior do Brasil, atrás apenas do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque (com 3,9 milhões de hectares) e do Parque Nacional do Jaú (com 2,3 milhões hectares).

O Juruena era uma das últimas unidades de conservação faltantes para a implementação do Corredor de Conservação do Sul da Amazônia, um mosaico de Unidades de Conservação que pode conter o processo de degradação da Amazônia.

Já havia navegado pelo Rio Juruena em outras oportunidades, ao trabalhar como fotógrafo still de cinema, em um documentário sobre a lendária Expedição Langsdorff, para a Discovery Channel. Além disso, fotografei algumas viagens de pesca esportiva, e uma intrigante expedição alemã de arqueologia, quando sobrevoei a confluência do Rio Juruena e Teles Pires, em busca de uma caverna perdida.

Devo confessar que esta região é uma das mais preservadas e fantásticas que já conheci neste país. Nestas últimas duas expedições, que chegou a ter 30 pesquisadores de diversas áreas, tive a oportunidade de me infiltrar verdadeiramente nos cantos escuros desta floresta.

Como cada pesquisador tem sua hora específica de trabalho – ornitólogos no raiar do dia, ictiólogos ao longo da manhã, herpetólogos no início da noite ou mastozoólogos durante a madrugada, não foram poucas as vezes em que permaneci mais de 30 horas acordado, obcecado, não querendo perder um segundo qualquer de oportunidade.

Quando não chovia, caminhava sozinho nos transectos (onde se realizavam as atividades de pesquisa), montava minha rede, a uns três metros de altura, e ficava à espreita de algum eventual animal que passasse ali. Digo que é uma experiência muito interessante de concentração e controle das “minhocas da mente”, permanecer sozinho e no breu total da noite amazônica, mal alojado numa rede suspensa, em tocaia com apenas uma lanterna apagada, a postos para acender a qualquer som e movimento. Uma real situação de caça sem arma. Tudo isto para tentar enxergar o bicho, apontar o equipamento que pesa cinco quilos e se equilibrar, focar e ainda acreditar que a foto vai sair!

Nestas horas até entendo porque os gringos investem em câmeras-trap. Mas meu lado de viajante, que prima tanto mais pela vivência, diz que a foto conquistada pode dar o prazer do clique, mas não o prazer da experiência vivida.

Foram mais de 20 dias acampados na beira do Rio Juruena, próximo ao impressionante Salto Augusto, onde Langsdorff perdeu um grande número de integrantes de sua expedição, e por conta disto, reina naquelas matas o mistério de um cemitério perdido nas proximidades de uma grande sumaúma.

Neste trabalho, fotografei nove espécies de primatas, roedores marsupiais, uma infinidade de fungos multicores, borboletas aos milhares e outros insetos estranhos, um sem-número de anfíbios e répteis, igarapés sombrios, espécimes raras de aves, antas e tocas de ariranhas.

Cachoeiras exuberantes caiam de paredões rochosos, comunidades ribeirinhas nos recebiam com afago, mas temerosos com as notícias que aquele grupo de “estranho” poderiam trazer. Afinal, segundo a lei, não é permitida que pessoas habitem dentro de Unidades de Conservação. Mas estávamos ali por outra razão, o reconhecimento da biodiversidade.

Em contrapartida a esta exuberância natural, documentei o Garimpo Juruena. Aliás, não apenas isto, mas também passei uma noite surreal, jogando dominó com garimpeiros e comendo feijão com farinha, escondido das tempestades nas casas mal caídas deste lugar, que na década de 70 chegou a ter 5 mil moradores.

Mas hoje resta uma cidade estilo faroeste, meio fantasma, com alguns moradores que insistem em permanecer ali, expostos a malária e péssimas condições de moradia; a verdadeira exaustão da vida.

 

Comentários (78)
Deixe seu comentário
Nome
E-mail
Comentário (Seu comentário mínimo 5 caracteres )

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

GAMBARINI – JULIO, Salve!Creio que no nosso caso, os deuses sempre ajudam! Mas, como dizem os bons mastozoólogos: “Deus ajuda, quem vara a madruga…”Abraço!

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

GAMBARINI – WALDYR, é realmente emocionante saber que meu trabalho tenha causado tantas sensações. Me dá um bem estar, dever cumprido! Saudações!

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

GAMBARINI – CLIMENE, obrigado pela visita, pelos elogios, por saber que meu trabalho cause tão boas sensações!E que isto esteja se propagando para seus clientes e amigos! Sds!

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

GAMBARINI – Annabel, surpresa encontrar você por aqui! Como pode ver, a geologia em mim, restou no ‘vício’ de estar no campo, viajar, se embrenhar nas matas. Abraços!

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – ERY E CHICO, obrigado pela visita! Realmente este lugar é fantástico! E a viagem para o documentario do Langsdorff foi algo memorável! Abraço

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

GAMBARINI – CELIA MELLO, obrigado pela visita! A fotografia tem este poder de compartilhar o mundo com as pessoas, não é mesmo! Temos a responsabilidade de fazer da melhor forma possivel!Saudações

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – REGINALDO, valeu pelos elogios! Cada um vê o mundo por seu próprio espectro, não é mesmo? E vocês, com o DOM de ver os bichos, vale tanto quanto…abraço!

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – CARLOS JAMEL, bom te encontrar aqui! Vamos pra Amazonia, sobrevoar, plotar, contar piadas! Abraço!

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – GUIDA, obrigado pelos comentários e pelas visitas! É muito bom saber que minhas fotos emocionam as pessoas! Abs.

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – CRISTINA, super obrigado pela visita! Minha alma anda cada vez mais andarilha…hei de trazer mais coisas por aqui! Abs.

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – SUEIDE, faltaram os peixes, os outros repteis, insetos, macacos…se pudesse colocava as centenas de fotos que trouxe de lá! Obrigado! abs

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – TAKUMA, fico feliz que tenha gostado da sua foto. Realmente é impressionante! Quando conto que encontramos esta aranha no meio do nosso acampamento, apesar de ser inofensiva, assusta que não está acostumado…abraço!

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – Gustavo, obrigado pelos elogios! É gratificante retornos como este! Será um prazer lhe encontrar nos próximos Posts. Saudações.

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – Olá Dorinha, grato pela visita! A disposição continuará, pode ter certeza! Saudações

  • Por: null
  • -
  • 16 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – PEPE, obrigado pelas palavras! Vc que conhece bem a região sabe da magia que reina no lugar! boa viagem!

  • Por: null
  • -
  • 17 de outubro de 2008 às 0:00

Cesar – Caro Gambarini, não me canso de ver e reler seus Posts. São realmente um descanso na nossa rotina. Parabens novamente!

  • Por: null
  • -
  • 17 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – IVANA, desculpe a demora na resposta. Muito obrigado por suas palavras, elogios e crenças! O trabalho de um pesquisador tem também um quê de DOM, isto é fato! Abs,

  • Por: null
  • -
  • 17 de outubro de 2008 às 0:00

Kleine – Olá Adriano, se lembra de mim? Estive com a Guida lá na fazenda Jatobá, no aniverssário da Gabi, falei com ela que estava fazendo um trabalho sobre Pantanal Matogrossense e ela me disse para ver suas fotos. Fiquei encantada com seu trabalho, vc tem fotos maravilhosas , mas acredito que mesmo sendo tão expressivas só vc sabe como é estar lá. Parabéns pelo seu trabalho, precisamos mesmo de pessoas como você para nos proporcionar imagéns que talvez jamais teremos oportunidade de vê-las novamente. Abraços Kleine Hellen

  • Por: null
  • -
  • 17 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – Olá Kleine, lembro de você sim. Obrigado pela visita e pelos elogios! O pantanal realmente é fantástico! Aproveite e leia um Post que escrevi sobre o Pantanal. Abs,

  • Por: null
  • -
  • 17 de outubro de 2008 às 0:00

Pablito – Caro amigo, vc tem um olhar único para fotografar. E não só isto: um talento incomum com o equipamento. Coisa de quem entende de muita coisa além de fotografia.

  • Por: null
  • -
  • 17 de outubro de 2008 às 0:00

Gambarini – PABLITO, obrigado pelas palavras. Realmente um trabalho assim, se fizer com dedicação e entrega, sai melhor! E o equipamento tem que ser a extensão dos nossos atos!Abs,

  • Por: null
  • -
  • 31 de outubro de 2008 às 0:00

Gustavo Longo – Gambá, falando de fotos, gostei muito que você tenha fotografado pessoas do local, isto acrescenta muito ao texto. Este é realmente um lugar perfeito.

  • Por: null
  • -
  • 15 de novembro de 2008 às 0:00

Eurides – simplesmente liiiindo!!!

  • Por: null
  • -
  • 17 de dezembro de 2008 às 0:00

Cristiane Figueiredo – Ei Gamba!! Muito bom os registros!O Parque Nacional do Juruena teve sorte por você ter passado por la! e não só uma vez, né? Eita sorte!!Parabéns pelo trabalho.Abçs

  • Por: null
  • -
  • 16 de fevereiro de 2009 às 0:00

luis carlos ferreira – Caro Gambarini,o Pantanal é uma série de coisas que a natureza nos presenteou e pena que algumas pessoas não pensam em preservá-lo. Valeu cara as fotos e o texto ficaram muito bacana. Como é que eu faço para entrar em contato com o WWF.

  • Por: Anônimo
  • -
  • 1 de março de 2010 às 22:24

Pedro Faustino – Que pena,s¿ agora e com o nosso proprio dinheiro meia duzia de pessoas relatam a historia do garimpo juruena e esquecem a hist¿ria, como voc¿ bem disse dos anos 70 onde mais de 5.000 pessoas tentaram contar para o mundo.Pessoas que no qual varias delas ainda residem la. Tratadas sem o minimo respeito pelas altoridades locais…

  • Por: Anônimo
  • -
  • 4 de novembro de 2010 às 9:36

Joares – Um fotógrafo agradece ao Sol pela luz, ou usa um flash.Um lugar agradece ao olhar do fotógrafo, ou não aparece.Um observador agradece a magia da fotografia e nunca mais se esquece.Parabéns pelo trabalho, parabéns pelo olhar, mas foi flash.Toshiro

  • Por: Anônimo
  • -
  • 5 de abril de 2011 às 13:18

Samantha Henzel – Deus do céu Gambarini, suas fotos são uma loucuraa, estonteantes. Parabéns.