Adriano Gambarini
Amazônia Extrema

Acabo de voltar de duas expedições na divisa entre Amazonas, Rondônia e Mato Grosso. Foram 30 dias pertencentes aos escondidos cantos desta que é a maior (por enquanto) floresta tropical do mundo. Lugar forte, onde tudo é exponencialmente extremo. E mesmo para quem é acostumado, a intensidade desta rotina vai minando a energia, criando feridas, umedecendo a disposição. Foram dias e dias enfurnado em acampamentos, tomando banho em igarapés escuros, vendo o sol apenas nas pequenas clareiras de árvores que caem. Com os pés e roupas molhadas, que não davam conta de secar. Enfrentando hordas de inúmeras variedades de abelhas, que lambem seu suor, seus olhos, e picam se forem molestadas. Centenas delas, sem trégua. Só a calada da noite proporcionava sua ausência.

Vi mateiros caírem de febre, no vai-e-vem da malária, e tantos outros que voltavam das trilhas, e calados, pegavam seu ‘rancho’ de feijão, charque e farinha, e buscavam algum canto para alimentar o corpo castigado. As conversas vão escasseando à medida que o tempo passa; sinal de inércia, de fadiga física e mental. Dizem que a floresta é claustrofóbica. E é. A luz é pouca, a umidade é muita, a altura das árvores é extrema. A sensação que estamos sendo observados é constante. Ao mesmo tempo é fantasticamente misteriosa, livre de conceitos sobre certo ou errado, bem ou mal. E apenas quem consegue ver a beleza escondida entre seus troncos seculares percebe que os monstros estão na imaginação. Tudo segue seu ritmo natural, e para tanto, temos que entender este movimento.

O curupira, no final das contas, é amigo, e dá seu conselho: "Não pise distraído, não aja na insegurança, não vacile. Seja prudente". Pois as jararacas estão ali, camufladas, e só o olhar treinado dos herpetólogos são capazes de ver. Os mosquitos asa-de-palha também estão ali; só uma picada sutil e quem sabe você perceba que já pousou na sua pele, e só nos resta a esperança que aquele pequeno inseto não transmita a leishmaniose. "Leish para os íntimos". As formas invisíveis de vida capazes de nos adoecer podem estar ali, nas águas dos igarapés.

Mas também está ali o gracioso vôo das araras, o sacudir bagunceiro dos galhos pelos grupos de macaco-aranha e cuxiú, os cantos dos pequenos passarinhos que não se vê (privilégio apenas dos olhos binoculares dos ornitólogos, capazes de distinguir ínfimos movimentos na folhagem escura).

A curiosa irara pulando nos troncos também está ali; e a sensação deliciosa ao perceber que aquele agitado animal talvez nunca tenha visto um humano. O rastro dos gatos, grandes e pequenos, as pererecas coloridas, os ligeiros lagartos. O nascer memorável do sol sobre o lajedo de pedra, resquício de um cerrado que outrora dominara a Amazônia – também está ali.

Está ali a imponência das castanheiras, que deixa despencar seus duros ouriços e nos remete à desenfreada vontade de comer suas sementes. Estão ali nossos golpes de facão para expor as castanhas deliciosas, cuja casca abrimos com os dentes (e que meu irmão dentista não me condene!), para roer fervorosamente como a melhor das iguarias. Está ali a ganância daqueles que não visam o futuro, e alheios a qualquer bom senso insistem em deitar aquele mar de árvores. Afinal, a plantação baixa de verdes vagens lhes dá mais lucro, não é mesmo?

Mas estão ali os gestos ideológicos de quem percebe o valor das coisas, da continuidade, da importância deste ecossistema e seus moradores, e vive pela conservação desta que ainda continua sendo a maior floresta tropical do mundo.
- Por: null
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- 17 de dezembro de 2008 at 0:00
Gambarini – Oi LUIZ CAETANO, é mais relaxante ainda saber que tenho um “anjo médico”, primo e amigo, para resolver meus problemas posteriores a viagens como esta…obrigado pela visita!abs
- Por: null
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- 17 de dezembro de 2008 at 0:00
Gambarini – olá FABIANA, obrigado pelas palavras e pela sensibilidade de enxergar tudo isto no meu trabalho. É gratificante retornos como este. Sobre a foto da Irara…certamente aquele espécime nunca tinha visto um humano…seu comportamento foi desafiador, curiosidade! bjo
- Por: null
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- 17 de dezembro de 2008 at 0:00
Paulo Sérgio Bernarde – Grande Gambarini,Parabéns! Magníficas fotos!Domina não somente a arte da fotografia como também a de escrever. Ótimos textos!Usarei algumas de suas fotos “Triste visão de um Brasil ambiental” em uma disciplina de Biologia da Conservação. Com os devidos créditos.Sucessos meu amigo.Abraços
- Por: null
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- 17 de dezembro de 2008 at 0:00
Gambarini – Caro Paulão, valeu pelas palavras!Como fotógrafo e pesquisador que outrora já fui, é bom saber que meu trabalho pode ajudar a conservação, de alguma forma…Abs
- Por: null
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- 17 de dezembro de 2008 at 0:00
Fabiana Lopes Rocha – Oi Gambá, primeiro gostaria de parabenizar seu trabalho, as fotos estão fantásticas e o texto lindo. Incrível como vc consegue descrever o dia-a-dia no campo com tanta poesia e nos transmitir a sensação de estarmos lá. E depois dizer que morri de inveja da sua foto de irara. Como você conseguiu fotografar esse bicho na Amazônia? Como a Ivana, fico admirada de ver como todas as belezas e experiências que vc já viu e viveu estão impregnadas no seu trabalho. Sorte nossa que temos oportunidade de acompanhá-lo. Parabéns! Bjs, Bia.
- Por: null
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- 29 de dezembro de 2008 at 0:00
Guida – Oi Dri,Parabens pelo trabalho! Você está cada dia melhor menino.Fiquei muito Feliz em reencontrá-lo no dia de Natal. Abraços – 29/12/2008
- Por: null
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- 7 de janeiro de 2009 at 0:00
Amarildo Oliveira – Parabéns pelo trabalho, minha região é cheia de dificuldades realmente para fotografar as vezes faço alguns safaris para conseguir imagens. Mais uma vez parabéns.Amarildo Oliveirawww.amarildooliveira.com
- Por: null
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- 10 de fevereiro de 2009 at 0:00
Gabi – Oi, Adriano! Não pude resistir a deixar um recado quando encontrei suas imagens anestesiantes e texto inquietante sobre a “minha” Amazônia. Obrigada por tanta generosidade na forma de compartilhar! Você sempre me faz lembrar de uma frase de Érico Veríssimo… “Na minha opinião, existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar!” Parabéns e toda a sorte, sempre!
- Por: Anônimo
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- 11 de maio de 2010 at 16:56
Erica Gaspar – Realmente suas fotos retratam com perfeição a beleza e a emoção desses lugares belíssimos.Parabéns!


Gambarini – Olá DOMINGOS, valeu pela visita ao BLOG. Vamos nos encontrando nos rios do Brasil! Abs,