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Adriano Gambarini

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Velho Rio São Francisco, novos problemas

por Adriano Gambarini em 29 de fevereiro de 2012
Foto tirada em Penedo (AL) em 1997

Foto tirada em Penedo (AL) em 1997

Foto tirada em Penedo (AL) em 2012

Foto tirada em Penedo (AL) em 2012

Estou agora às margens do Rio São Francisco finalizando as fotos para meu próximo livro. Pela quarta vez volto ao Baixo Rio, próximo à foz. Resolvi retornar a esta região em busca dos tradicionais pescadores de pitu, que na região de Piranhas (AL) até Penedo (AL) viviam a cultura de espalhar covos pelo rio e, no dia seguinte, buscar o tão desejado camarão de água doce. Qual foi minha surpresa quando descobri que a pesca do pitu foi proibida nos próximos cinco anos!

Certamente retomarei este assunto num próximo artigo, mas o fato é que na cidade de Penedo fotografei uma cena, do mesmo ângulo, no alto do mais alto prédio da cidade. Uma situação que descreve nitidamente o quanto o Velho Chico está sofrendo, silenciosamente, as consequências de ações humanas. Como dizia os antigos: “O plantio é livre; a colheita, obrigatória”.

As tantas ações do homem nos últimos séculos têm provocado reações de adaptação no rio, nada mais do que naturais. Retirou a mata ciliar? A chuva lava suas várzeas e carrega sedimentos. Construiu uma sequências de barragens e assim controlar a força vazante das águas? O rio perde sua velocidade, aumenta o processo de sedimentação daquele material carreado pela chuva. Simples. Fácil de prever. O difícil é entender porque o homem não percebe que qualquer interferência sobre um ambiente estável tem um tempo de adaptação, muitas vezes com consequências que prejudicam o entorno. E quem vive neste entorno.

Duas enormes ilhas e um banco de areia se formaram no meio do rio em frente à cidade, vistas claramente nas fotos separadas por pouco mais de dez anos. Profecias soltas nas ruelas da cidade não dão mais cinco anos para que aquele trecho do rio fique tragicamente obstruído, permitindo que a navegação, ainda tão ativa nesta região, seja bem prejudicada. Obviamente o rio terá que se adaptar a esta nova condição. Talvez a fertilidade de suas águas à jusante das ilhas seja alterada, assim como a grande área de mangues na foz. Difícil prever, difícil remediar.

O mais provável é que algum “benfeitor do povo” tenha a grandiosa ideia de iniciar alguma licitação, para que alguma empresa de algum parente viva a feliz coincidência de ganhar aquela licitação. E assim algumas máquinas pesadas tirarão aquele sedimento que assoreou o rio. Uma “benfeitoria para o povo!”. É bem provável ainda que este mesmo sedimento seja colocado nas margens do rio. E absolutamente provável que as próximas chuvas carreguem aquele sedimento novamente, para dentro do rio. E toda aquela nova interferência no rio seja em vão. Mas aí é outra história; pois os benfeitores do povo vivem ciclos de quatro anos; o ser humano vive ciclos de setenta anos. Já aquelas águas vivem o ciclo atemporal da Terra.

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