Adriano Gambarini
Cadê o pitu? Não foi o gato que comeu…

O cenário é fantástico. Águas verdes do Rio São Francisco relativamente caudaloso cortam um vale encravado entre paredões rochosos. Pequenas canoas se movimentam ao sabor do amanhecer, soltando pequenas armadilhas em formato cilíndrico ao longo do rio. São os covos, tradicionalmente feitos com varetas de taquara, por ora também confeccionados com cano de pvc. Os catadores os deixam cerca de dois dias dentro do rio e voltam para pegar a doce iguaria capturada: o saboroso pitu, o “camarão de água doce”.

Foi isto que fotografei no final dos anos 90, quando passei pela região de Piranhas, em Alagoas. Uma tradição antiga de pesca nos domínios deste importante rio brasileiro. Mas na época os pescadores já reclamavam de uma nítida redução do animal nas águas do Velho Chico. Alegavam que a barragem de Xingó, bem perto dali, reduziu drasticamente a proliferação do animal naquelas verdes águas.

Há cerca de um mês retornei à região. Na eminência de finalizar um livro sobre o Rio São Francisco, parti em busca de mais algumas imagens dos ‘catadores de pitu’. Qual foi minha surpresa ao saber que a pesca está proibida pelo Ibama nos próximos anos. O pitu consta como animal em extinção.
Agora, um nova razão está sendo atribuída pelos pescadores: a existência de tucunaré no rio. Um pescador chegou a afirmar que já encontrou cinco a seis pequenos pitus dentro de um único tucunaré pescado. Quem conhece a fauna brasileira deve estar se perguntando o que um peixe amazônico faz no Rio São Francisco. Foi introduzido após a construção da barragem. Como é praticamente impossível controlar este tipo de introdução, sem predador natural e sendo ele mesmo um faminto predador, o tucunaré vem dominando gradativamente aquelas verdes águas, outrora habitadas por dourados, tubaranas e surubins. E pitus. Pessoas da região também afirmaram que o problema não é só este: a pesca se tornou predatória nos últimos anos, o que piorou ainda mais a recuperação da espécie. Isto corrobora o que a “Operação a Rios Federais”, do Ibama, constatou em suas ações contra a pesca predatória no Rio São Francisco. Apreenderam dezenas de covos cuja malha era tão fina que capturava até mesmo pequenos filhotes de pitu.
Triste fim para uma espécie e para uma tradição outrora sustentável. Ganância, imediatismo, interferência desorientada no meio ambiente. Os desajustes humanos realmente parecem seguir para um caminho cada vez mais caudaloso.

