Brasil das Aves
Avistar Talks, muito além da observação de aves
Ok, você já sabe que o Avistar ocorre este fim de semana em São Paulo no Parque Villa-Lobos. Mas, na verdade, ele começa na sexta, com um pré-evento imperdível: o Avistar Talks. É uma reunião de talentos, no palco do Teatro Santa Cruz, em apresentações curtas no estilo TED. Este ano a programação está (com o perdão do trocadilho) um show (confira aqui). Uma delas será de um grande amazonense de Envira, chamado Cleudilon. Ou Passarinho, para os mais chegados. Ele vai mostrar um pouco de sua incrível habilidade (veja mais no vídeo, que eu gravei há dois anos no Rio Negro). Outra atração do Avistar Talks é o anúncio dos vencedores do concurso de fotos Avistar. Eu vou, vamos?
Universidade Cornell tem projeto para identificar aves a partir de fotos
A universidade norte-americana Cornell lançou uma plataforma colaborativa muito ambiciosa, chamada Merlin. A ideia é usar recursos de inteligência artificial para identificação de aves a partir de imagens. No futuro, o programa poderia identificar qual a espécie de uma ave (ou as espécies mais prováveis) apenas analisando uma foto. Num futuro ainda um pouco mais distante, isso poderia ser adaptado até mesmo a binóculos e outros equipamentos óticos – eles identificariam a espécie ainda em campo. Para que o projeto tenha êxito, os pesquisadores solicitam aos observadores que contribuam com o banco de dados. Isso pode ser feito de várias formas – desde o envio de fotos até a resposta a algumas perguntas simples. Não encontrei nenhum a restrição quanto à área geográfica. Quem quiser pode acessar a plataforma clicando aqui. O futuro está mais próximo que imaginamos.
Avistar à vista!
O evento que entrou de vez no calendário dos apaixonados por aves já tem data: 17 a 19 de maio em São Paulo. Mas o certo, talvez, seria dizer que ele já tem datas. Porque a edição de SP é apenas a primeira do ano. Já estão confirmados encontros no Rio, em Brasília, Santa Catarina e Minas Gerais. E a cereja do bolo, em outubro, é o Avistar Patagônia, um workshop de fotografia de aves com nomes internacionais de peso.
O evento em São Paulo abre o calendário com o Avistar Talks, um encontro delicioso com palestrantes multidisciplinares, que falam dos mais variados temas – a paixão pela aves é apenas um fio condutor comum. A feira, no Parque Villa Lobos, tem desde boas pechinchas em livros e viagens até encontros mais aprofundados com pesquisadores e fotógrafos. Esse clima é repetido nas outras edições do Avistar pelo Brasil, que sempre reúnem bom público e gente do meio.
Mas a grande novidade este ano é o Avistar Patagônia. Uma viagem a Torres del Paine com a possibilidade de aprender com grandes fotógrafos, como Arthur Morris, David Tipling e o brasileiro Edson Endrigo, pesquisadores como Alvaro Jaramillo e especialistas em tratamento de imagens como Denise Ipolitto e Octávio Campos Salles. Tudo isso em meio à paisagem monumental da Patagônia, em uma estação especial para a observação e fotografia de aves.
Mais informações sobre o Avistar? Clique aqui. Para acessar o hotsite do Avistar Patagônia, é só entrar aqui.
A Mata Atlântica revelada
Tomas Sigrist é um nome conhecido por qualquer um que já teve contato com a observação de aves. Naturalista, ilustrador e pesquisador, ele ajudou a formar inúmeros birders no país, com seus excelentes guias de campo. E agora alça voos mais altos, com livros de arte que qualquer apaixonado pela vida selvagem gostaria de ter. Esse é o caso do monumental Iconografia das Aves do Brasil – Mata Atlântica, um volume de 400 páginas que exibe, página a página, toda a exuberância de cores e formas de um bioma riquíssimo. O livro é o segundo volume de uma série, iniciada com o Cerrado (leia aqui um artigo que escrevi sobre a obra).
As fotos do volume Mata Atlântica são de um profissional que conhece profundamente os meandros, veredas e segredos de nossas terras. Lester Scalon, mineiro de Sacramento, percorre desde garoto as matas brasileiras. E vem, ano a ano, aprimorando sua técnica e produzindo obras consistentes que revelam fauna e flora de ambientes como a Serra da Canastra, o sertão, o Pantanal. Neste volume, as aves da Mata Atlântica são exibidas em uma profusão de cores e climas, mostrando detalhes de comportamento e habitat, levando o leitor a uma viagem visual. Um livro indispensável a qualquer birder que se preze. As fotos abaixo, todas de Lester Scalon, fazem parte da obra.
O livro Iconografia das Aves do Brasil – Mata Atlântica pode ser encomendada no site da editora Avis Brasilis.
Uma ave por dia
O mineiro Eduardo Franco é um dos líderes da Ecoavis, uma ONG que atua para promover a observação de aves em Minas (e também no Brasil). E teve, no ano passado, uma ideia sensacional. Construir um blog em 2013 mostrando uma ave brasileira por dia. Ou seja: registrar 365 aves e mostrá-las uma a uma num blog, todos os dias, chova ou faça sol. Se você pensar nas quase duas mil espécies que temos no Brasil, parece fácil. Fácil nada. Sei que ele vai ter de suar para chegar lá – registrar mais de 300 aves num ano exige tempo, disposição e viagens. Para saber mais sobre o projeto e aprender dia-a-dia sobre as aves, visite o site clicando aqui.
Fotos espetaculares de uma espécie rara e (muito) ameaçada
Um bom guia de birdwatching precisa ter várias habilidades. O primeiro, claro, é um vasto conhecimento sobre as aves, seu comportamento e hábitat. Também precisa ter uma audição apurada (mais até que a visão). Mas não basta ouvir. Tem de identificar o canto e, rapidamente, ligá-lo à ave certa dentro de seu banco de dados mental. E isso não é para qualquer um. Por fim, o bom guia tem de ser um cara de bem com a vida. Porque ele lida com o bicho mais difícil da natureza: o homem (e a mulher, claro), com suas ansiedades, humores e preferências.
No Brasil, temos alguns super-guias, que se esforçam para mostrar a observadores do mundo todo as aves brasileiras. Algumas vezes, eles têm de se superar. Afinal, há birdwatchers que, quando retornam ao Brasil, já têm no currículo 6 mil ou 7 mil aves em sua life list. Ou seja, estão aqui atrás de espécies muito, muito raras.
O cearense Ciro Albano nasceu em uma família de fotógrafos. Mas a paixão pelas aves o fez transcender o sentido da visão. O DNA fez com que ele seja, sim, um fotógrafo excepcional. Mas ele também é um guia requisitado pelos mais exigentes birdwatchers de todo o mundo, além de manter a atividade de ornitólogo. Assim, está acostumado a encontrar espécies raras. Mas este ano uma surpresa o aguardava: a oportunidade de fotografar uma ave MUITO fora do comum. Primeiro porque tem uma área de distribuição pra lá de restrita e está muito ameaçada pela perda de hábitat. Segundo porque é uma das mais belas aves que temos, com um nome comum poético e sugestivo: a saíra-apunhalada (Nemosia rourei). Ela tem esse nome por causa da mancha vermelho-sangue no pescoço e peito, contrastando com a plumagem branca do ventre. Vive nas matas de uma (hoje) pequena área de floresta na região serrana do Espírito Santo. E é dificílima de ser observada. Fazer uma foto dela de perto, então, era coisa de outro mundo. Era. Contando com a ajuda e a companhia de outro super-guia, Gustavo Magnago, especializado nas espécies capixabas, Ciro teve o privilégio de registrar a saíra de pertinho. Um feito extraordinário. Então nada melhor do que deixar que ele próprio narre a experiência:
“Um casal de observadores/fotógrafos de aves da Inglaterra (Andy e Gil Swash), que já havia feito duas viagens comigo pelo Nordeste, entrou em contato para planejar uma terceira viagem. Eles deixaram que eu propusesse um roteiro. Assim como eu, eles também têm uma predileção por aves raras, daí resolvi montar uma tour que cobrisse o máximo de lifers pra eles – e incluísse espécies bem raras que eles ainda não haviam visto. A saíra era um dos grandes sonhos. Então convidei o amigo Gustavo Magnago (especialista nas aves do Espírito Santo) pra nos acompanhar. O Gustavo é o cara que mais registrou a saíra nesses últimos anos. Mas, só pra se ter noção da raridade do bicho fazia doze viagens que ele não avistava a espécie (cada viagem com três dias de busca em média). Então para evitar frustração deixamos bem claro que era muto difícil de encontrar a ave. E acho que dá para imaginar o quanto ficamos felizes e surpresos quando aquela voz aguda respondeu lá do alto da mata…
Chegamos cedo na floresta e seguimos na estrada onde os bichos haviam sido vistos pela última vez. A estratégia era tocar o playback de vez em quando e seguir observando/fotografando outras espécies mais comuns. Depois de aproximadamente uma hora e meia de passarinhada, estávamos tentando fotografar o piolhinho-verdoso (Phyllomyias virescens) que era lifer fotográfico pra mim. Mas sempre tocando as saíras de tempos em tempos. Numa dessas escutamos um piado agudo lá na copa. Com um frio na barriga imediato olhei para o Gustavo, que estava como os olhos arregalados – eu (tentando não acreditar) pensei: deve ser em andorinhão (Chaetura) – que tem um chamado parecido. E o Gustavo responde: “continua tocando”. Quando vimos aquela algazarra na copa a adrenalina explodiu! Havíamos reencontrado as saíras-apunhaladas! Estávamos do lado de uma clareira com um barranco alto e uma árvore isolada e baixa. Subimos o barranco e soltamos o playback. Para surpresa e alegria de todos os bichos vieram na nossa cara, ao nível do olho. Era tão inacreditável que eu não sabia se fotografava ou contemplava aquelas criaturas tão raras de tão perto. Sabemos da raridade dos bichos e tentamos conseguir as imagens o mais rápido que pudemos. Foram pouco minutos, mas correu tanta adrenalina que, depois que passou, fiquei cansado de tanta emoção. Foi sem dúvida um dos momentos mais importantes nas nossas vidas de observadores/fotógrafos (e, no meu caso, ornitólogo também) e com certeza inesquecível pra todos nós.
A esperança agora é que as imagens sirvam pra sensibilizar as autoridades/proprietários e sociedade civil a evitar a extinção de uma das aves mais bonitas e raras desse planeta!”
O recado no final do relato é importante e necessário. Como a área em que vive a saíra-apunhalada é muito pequena, é preciso um esforço de todos para a conservação. Saiba mais sobre isso no site da Save Brasil. Para conhecer melhor a saíra-apunhalada, visite a página da BirdLife International.
O mercado de publicações especializadas
Por um bom tempo era difícil encontrar, nas livrarias, obras especializadas em avifauna. Os livros editados eram poucos – e muitos tinham um pé na ornitologia. Boas obras vinham de fora (muitas com a marca da NATIONAL GEOGRAPHIC), outras saíam em número limitado, bancadas por um patrocinador. Este cenário mudou muito. Hoje, além de excelentes guias de campo (como os do Tomas Sigrist, que também publica livros de arte), há diversas opções de livros de fotografia, de muitos bons autores. O melhor: de autores em vários estados, mostrando a força de nossa biodiversidade. Um dos livros mais recentes traz as imagens capturadas por Anselmo d’Affonseca (um colaborador assíduo do blog e autor também das imagens do aplicativo de iPhone Aves da Amazônia), com textos dos pesquisadores Ingrid Torres de Macedo e Mario Cohn-Haft. A obra, intitulada Aves da Região de Manaus, conta com 137 espécies que podem ser encontradas nos parques e locais turísticos da capital do Amazonas. Para adquiri-la pode-se entrar em contato com a Editora INPA através dos e-mails: editora@inpa.gov.br ou editora.vendas@gmail.com.
Outro lançamento, este já tradicional, é o Calendário Aves Brasileiras. A versão 2013 já está disponível. É um ótimo presente de fim de ano. As fotos são todas do grande Edson Endrigo, e trazem um mosaico de cores e formas da avifauna por todo o Brasil. A publicação da Aves & Fotos pode ser encomendada pelo site da editora. O preço é de R$ 20.
Portfólio Jarbas Mattos
O Wikiaves não é só um banco de dados virtual, nem só uma baita ferramenta de pesquisa. É também uma comunidade viva, onde dá para trocar experiências, aprender e se divertir. Logo vou voltar a ele em outro post. Mas a introdução é para dizer que no Wikiaves eu aprendi a admirar o trabalho de muita gente. Um dos fotógrafos que sempre me chamou a atenção é Jarbas Mattos, um paulista boa gente. Um cara que vive viajando, sempre atrás de lifers e descobertas, mas também uma pessoa muito atenta ao comportamento das aves. Suas fotos sempre têm uma ação, um componente diferente, algo que as destacam e as tiram do lugar-comum. Aqui está uma pequena apresentação própria que ele fez a meu pedido, e um pequeno portfólio de suas fotos (os comentários sobre as fotos nas legendas são dele). Pedi também ao fotógrafo que desse dicas a que está começando. Com vocês, Jarbas Mattos:
“Apesar de ser biólogo por formação, eu só descobri as aves pouco depois de descobrir a fotografia; eu trabalhava junto ao SEBRAE na área de treinamentos e viajava muito a trabalho, e normalmente os cursos ocorriam em um período, noite ou dia, e eu ficava o outro período sem nada para fazer. Foi aí que a fotografia entrou. E, claro, como biólogo, a fotografia de natureza foi a opção lógica. No começo fotograva de tudo, porém sempre via as aves e amava suas cores, aprendendo aos poucos a conhecê-las melhor, por isso a fotografia e a fotografia de aves vieram juntas.
Na verdade eu não tenho um estilo de birding preferido, mas prefiro fotografar quando estou em grupos bem pequenos, 3 ou 4 no máximo. Quanto ao tipo de terreno, gosto de todos, mas curto muito o cerrado devido à boa luz, às cores de fundo sempre diferenciadas e à possibilidade de se fazer fotos mais limpas.
Birding para mim é algo extremamente natural, que faz parte minha rotina, afinal saio todos os dias para observar e fotografar. Inclusive, hoje, batalho para tentar editar meu primeiro livro – estou procurando por patrocínio no momento.
Algumas boas dicas para se fotografar aves são: aprender com quem sabe mais, estude MUITO as informações EXIF das fotos dos fotógrafos mais experientes e tente fazer igual, conheça sua máquina para poder usufruir dos recursos que ela oferece, nunca abuse do playback ou use esse recurso perto de ninhos (muitas espécies podem abandonar o ninho se sentirem ameaçadas e nenhuma foto vale isso). Na fotografia de aves silêncio é essencial por isso ande devagar e não faça movimentos bruscos na mata, as aves além do som se assustam facilmente com movimento, por isso seja discreto, use roupas camufladas ou discretas, tenha cuidado onde pisa e onde apóia a mão (encontros com animais peçonhentos são comuns). Mas, acima de tudo, divirta-se!”

Eu sempre quis fazer uma boa foto gaturamo-bandeira (Chlorophonia cyanea) e Itatiaia foi o lugar perfeito!

Muito bacana poder ver esse papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta), ave ameaçada de extinção por perda de hábitat, voando pelos campos da Canastra!

Os sporophilas, como esse patativa macho (Sporophila plumbea), são um fraco meu, adoro essas avezinhas, e um lugar bacana de encontrá-las é a Serra da Canastra, em Minas Gerais.

Quem disse que beija-flores não gostam de água? Esse aí (beija-flor-preto, Florisuga fusca), pelo jeito, gosta!

Eu posso dizer que foi um privilégio ficar assistindo a esse beija-flor-de-orelha-violeta (Colibri serrirostris) defender seu bebedouro por horas a fio de todas as outras aves que se aproximavam, mostrando assim todas as suas cores para meu deleite.
Estudo mapeia evolução das aves em todo o mundo
Um projeto ambicioso, que envolve várias universidades, ganhou as páginas da revista Nature na semana passada. A ideia é mapear as interações de evolução entre todas as 9 993 espécies conhecidas no mundo, situando-as no tempo e no espaço. Para isso, os cientistas criaram um banco de dados com informações de DNA, cruzando também informações geográficas e de evolução ao longo do tempo (estas últimas incluem também o estudo de fósseis). Os primeiros resultados, publicados agora, já permitem algumas conclusões interessantes, como a de que a diferenciação entre espécies acontece mais conforme a longitude do que pela latitude.
“É um artigo notável, que resultou em um produto definitivamente muito interessante e que, como todo bom trabalho, vai abrir um leque outras questões muito relevantes nos próximos anos”, diz o pesquisador Luís Fábio Silveira, do Museu de Zoologia da USP. Ele completa: “Além do esforço para conseguir sequências de mais de dois terços de todas as espécies atualmente reconhecidas (um número ainda subestimado), houve um avanço também nas técnicas de análises destes dados, que geralmente requerem um arranjo computacional muito complexo para que todas as possibilidades sejam igualmente analisadas. Para mim, o trabalho tem méritos não só pela abordagem do tema, e por lançar luz em um grupo cujas relações filogenéticas ainda são muito complicadas, mas também por conseguir analisar esta imensa quantidade de dados”.
Leia mais sobre o estudo no site Nature News.
Levantamento de avifauna, um trabalho fundamental
Pesquisa científica e conservação sempre andaram juntas. Entender as interações de fauna e flora é fundamental para o planejamento das ações em qualquer unidade, de uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) a um parque nacional. O levantamento de avifauna está na base dessas ações. O pesquisador Paulo de Tarso Zuquim Antas e sua equipe realizam projetos assim por todo o país. O blog acompanhou um dia de trabalho dos pesquisadores em uma unidade de conservação mantida pela empresa Fibria em Teixeira de Freitas, no Sul da Bahia. A área está em processo de tornar-se uma RPPN, e guarda uma boa porção de Mata Atlântica em ótimo estado de conservação. Entre outras aves, vive ali o Glaucis dohrnii, ou balança-rabo-canela, um pequeno beija-flor muito raro. Um outro trabalho, em paralelo, tenta analisar conectividade entre dois fragmentos florestais através de uma plantação de eucalipto.
A rotina dos pesquisadores é pesada, movida a muita paciência, atenção e entusiasmo. O dia começa muito antes de o sol nascer – quando as primeiras luzes aparecem, as redes de neblina já estão instaladas em pontos estratégicos. Estas redes têm malhas finíssimas, de um material leve e macio, para não machucar as aves. De tempos em tempos, os pesquisadores se dividem para examinar as redes e coletar os espécimes que caíram nelas. Eles são pesados, medidos, recebem a marcação de uma anilha e em seguida voltam para a natureza. Esse processo leva alguns dias e é repetido todos os anos. Os resultados, com o tempo, mostram não só a composição da avifauna na área, mas também revelam muito sobre comportamento. A seguir, uma entrevista com o pesquisador Paulo de Tarso Zuquim Antas, falando um pouco mais sobre este trabalho fundamental e também sobre a importante área de conservação da Mata Atlântica.
Blog: Quais são os objetivos do trabalho realizado na futura RPPN Esperança do Beija-flor?
Paulo de Tarso: Duas questões centrais vinculadas à conservação da biodiversidade na Mata Atlântica estão sendo abordadas no trabalho realizado na futura RPPN e seu entorno. A primeira delas corresponde à dinâmica das comunidades nativas dentro do fragmento principal, onde está delimitada a futura RPPN. Apesar de seu tamanho, cerca de 1.700 ha, esse fragmento estava isolado fisicamente dos demais na região antes da aquisição pela Fibria, por estar envolvido por pastagens plantadas. Pastagens e outros ambientes abertos são evitados por uma série de espécies florestais de animais, incluindo diversas aves. Esse comportamento foi adquirido ao longo da evolução dentro de um ecossistema de mata contínua. Tais espécies evitam cruzar ambientes não florestais, porque esses não oferecem recursos necessários para a vida do indivíduo ou possivelmente para evitar predadores.
Quando a floresta era contínua, ao se deparar com uma clareira essas espécies simplesmente contornavam a área aberta no interior da mata e continuavam seu deslocamento. Isso acontece ainda hoje em matas como na Bacia Amazônica ou nos grandes maciços contínuos de Mata Atlântica da Serra do Mar em São Paulo por exemplo.
Ao fragmentarmos o ambiente florestal, envolvendo os remanescentes com pastagens e sistemas agrícolas não florestais, ele transforma-se em um sistema de ilhas isoladas entre si, cada uma portando um conjunto de indivíduos. As populações das espécies que não cruzam ambientes abertos mantêm-se como náufragos nessas ilhas, sem meios para atravessar o oceano. O resultado é o aumento de cruzamentos entre indivíduos cada vez mais aparentados, ocasionando perda da variabilidade genética da população, números de reprodutores insuficientes para manter populações viáveis e alta sensibilidade a variações climáticas pontuais, capazes de levar à extinção as populações isoladas. Ocorre uma erosão lenta da biodiversidade, muitas vezes despercebida por ocorrer em escala temporal de dezenas de anos.
O trabalho no interior do fragmento, feito pela Funatura (Fundação Pró-Natureza, uma ong sem fins lucrativos com sede em Brasília e atuação em todo o país) com o apoio da área de Meio Ambiente Florestal da Fibria, visa verificar a saúde populacional das espécies florestais, com ênfase naquelas já consideradas ameaçadas, raras e as exclusivas (endêmicas) do bioma Mata Atlântica. Conforme problemas são detectados, sugerir medidas capazes de evitar essa perda de biodiversidade.
Além de avaliar esses parâmetros, uma das medidas para reduzir o risco de perda de espécies é aumentar a conectividade das populações entre os fragmentos em escala regional. Para isso está sendo realizado, em conjunto com o Centro de Tecnologia da Fibria, um estudo usando corredores de eucalipto com sub-bosque adensado de vegetação nativa.
Nesse experimento foram deixadas faixas de plantio de eucalipto com pelo menos 120m de largura e 800m ou mais de comprimento sem serem colhidas em pontos estratégicos no entorno da RPPN e ligando-a a outros fragmentos. Implantado há 3 anos, quando da colheita da madeira dos talhões vizinhos, esses corredores mantiveram-se como faixas de floresta enquanto o novo ciclo de crescimento do plantio de eucalipto estava em seu início.
Para verificar a efetividade do uso desses corredores foram usadas as espécies florestais de aves presentes em toda a sua extensão. Um dos registros mais importantes foi a captura em rede ornitológica de um beija-flor Glaucis dohrnii, espécie endêmica da Mata Atlântica e ameaçada, no interior do corredor, a 400m da borda da mata mais próxima.
Em 2011 foi associado um novo experimento nesses corredores, com o plantio de mudas de árvores nativas em áreas onde a vegetação nativa estava com baixa implantação. Essa intervenção visa efetuar o maior adensamento dos estratos inferior e médio nesses locais dentro do corredor, para avaliação quando da próxima colheita da madeira dos talhões comerciais vizinhos em 2014.
Também foi iniciado um estudo avaliando o papel das Áreas de Preservação Permanente (APP) com vegetação nativa nessa conectividade regional desde a RPPN.
Blog: Há quanto tempo os estudos são realizados?
Paulo de Tarso: Os trabalhos começaram em março de 2002, no início dos plantios de eucalipto em toda a área do entorno, substituindo as pastagens da antiga fazenda de pecuária.
Blog: Já existem resultados?
Paulo de Tarso: Na questão de conectividade, os resultados mostraram o uso dos corredores de eucalipto deixados para esse fim. Além do beija-flor florestal, outras 4 espécies florestais foram detectadas em seu interior pelas redes. Uma quinta espécie florestal colonizou o fragmento menor na borda oposta do corredor em relação à RPPN, também mostrando o uso do mesmo após seu estabelecimento.
O anilhamento dos beija-flores já possibilita estimar sua população no local ao redor de 100 indivíduos. Essa é a primeira estimativa populacional para a espécie, bem como são coletados dados inéditos sobre a sua biologia e ecologia básica, ainda pouco conhecidas . São informações fundamentais para a sua conservação no local e em outros pontos de ocorrência.
Blog: Como a área da RPPN pode ser qualificada?
Paulo de Tarso: É um fragmento de Mata Atlântica de baixada, uma floresta ombrófila densa. Parte da área está em franco processo de recuperação depois de ter passado por extração madeireira ampla até os anos de 1980. A proteção das suas bordas dos efeitos dessecantes de vento e insolação direta, através da substituição de pastagens por plantios de eucalipto, auxiliou e acelerou essa recomposição desde 2002
Blog: Qual a sua importância para o bioma Mata Atlântica e para a região em que está inserida?
Paulo de Tarso: A RPPN é o principal fragmento de Mata Atlântica de tabuleiro na região entre o rio Jucuruçu e a divisa com o estado do Espírito Santo. Sua importância para a conservação da biodiversidade regional é patente, também sendo de grande significado para o bioma como um todo. O fato de abranger uma mata estruturada em terreno plano, de baixada, já é significativo por si só pela raridade dessa formação ter ficado intacta. Nas áreas planas o desmatamento foi mais intenso pela facilidade de acesso do que em regiões montanhosas. O conjunto de espécies detectadas de aves, mamíferos e flora demonstra ainda mais essa importância.
Blog: Além do Glaucis dohrnii, que outras aves ameaçadas estão presentes na reserva?
Paulo de Tarso: A lista total de espécies é de 237 aves, das quais 27 (11% do total) constam em pelo menos uma das três listagens de ameaçadas: brasileira (Ministério do Meio Ambiente), internacional (União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) ou do Espírito Santo (Secretaria do Meio Ambiente). Como a Bahia ainda não elaborou uma lista estadual e até o rio Jequitinhonha (mais ao norte de onde trabalhamos) há uma identidade biogeográfica do Espírito Santo com o extremo sul baiano, a lista capixaba serve de referência.
Também estão presentes 17 aves (7% do total) consideradas raras na natureza naturalmente ou por efeito da ação humana, bem como 24 (10%) de espécies exclusivas da Mata Atlântica.
Essas listas são exclusivas e hierarquizadas, isto é, se uma ave consta da lista de ameaçadas e é endêmica da Mata Atlântica, ela é contada somente como ameaçada. O mesmo nas demais categorias. Desse modo, se somamos os três contingentes a futura RPPN apresenta 68 espécies de alta relevância para a conservação. Esse total significa 29% da listagem completa, mostrando sua significância no panorama regional e nacional de conservação da biodiversidade da Mata Atlântica.

