Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

João Marcos Rosa

t

Preparando o espírito para fotografar serpentes

por João Marcos Rosa em 15 de agosto de 2015

Em agosto de 2010 estive em Itanhaém, litoral sul de São Paulo para acompanhar uma expedição do Instituto Vital Brasil à Ilha de Queimada Grande, uma das componentes da Estação Ecológica dos Tupiniquins. Infelizmente, por uma mudança repentina no clima, tivemos que adiar a viagem de barco, já que com o aumento das ondas não poderíamos desembarcar na ilha.

 
Cascavel (Caudisona durissa)

 

Caninana (Spilotes pullatus)

Remarcamos a viagem para o final de setembro para fazer uma visita à ilustre e endêmica habitante de Queimada Grande: a jararaca-ilhoa (Bothrops insularia). Esse animal parece exercer um fascínio sobre os herpetólogos. Quase todos que conheci por essas andanças pelo Brasil sempre acabavam falando sobre esse bicho. Enquanto não chega a data da expedição, os participantes dessa jornada e mais diversos especialistas no tema estarão em Niterói, participando do Herpétil, evento que pretende discutir os desafios que cercam os acidentes com animais peçonhentos no Brasil.

Boipeva (Waglerophis merremii)

No estúdio da Nitro com o biólogo Breno Damasceno.

Eu, particularmente, não tenho medo de cobra, mas depois das conversas com os pesquisadores nos dois dias que estivemos esperando para ver se o tempo melhorava, resolvi fazer uma espécie de prática fotográfica psicológica de serpentes. Como o biólogo Breno Damasceno, um dos pesquisadores participantes da expedição, também vive aqui em Belo Horizonte, resolvemos marcar uma sessão de estúdio com cobras para fazer uma melhor preparação para a expedição. Foi uma tarde em que aprendi muito sobre a postura de um fotógrafo diante de uma cobra, tanto no que diz respeito à nossa segurança quanto aos limites de manejo desses répteis.

Urutu-cruzeiro (Rhinocerophis alternatus)

Coral falsa (Oxyrhopus guibei)

Memórias

por João Marcos Rosa em 3 de agosto de 2015

Para mudar um pouco de ares, essa semana resolvi mexer no baú e fazer uma retrospectiva dos trabalhos aqui na revista. Pois bem, comecemos do começo, a primeira publicação em National Geographic Brasil. Outubro de 2003. Eu e bióloga Talitha Monfort seguíamos rumo ao Parque Nacional das Emas (GO) para tentar documentar o fenômeno da bioluminescência que acontecia nessa unidade de conservação. A história dos cupinzeiros luminosos já povoava minha imaginação, mas não imaginava que a cena fosse tão impressionante.

 “As estrelas verdes do Cerrado”, título da matéria.

Tudo foi pesquisado e planejado levando em conta os mínimos detalhes, desde as autorizações do IBAMA (na época responsável pelo parque) até a escolha dos filmes a levar pensando nas longas exposições que seriam necessárias. O resultado do trabalho ocupou a página dupla da extinta seção Diário da Terra, na edição de março de 2004.

 A larva do vaga-lume que habita as bordas do cupinzeiro.

Por coincidência, naquela mesma edição publiquei uma outra reportagem sobre um curso de pesquisa em dossel no Parque Estadual do Rio Doce, aqui em Minas Gerais.

 – Biólogo em prática no curso de pesquisa em dossel.

Nessa viagem conheci o biólogo Benjamin da Luz, que fez a ponte para que eu iniciasse a documentação das harpias. Na mesma edição figurava também no miolo da revista um especial sobre a Mata Atlântica, produzido pelo fotógrafo Mark Moffet. Nessa reportagem, mostravam o trabalho do pesquisador Roberto Azeredo, uma das principais figuras no desenvolvimento desse mesmo documentário sobre as  harpias, que foi publicado na edição de fevereiro de 2006 de NG Brasil e que esse ano se transformou no meu primeiro livro. Nada é por acaso, um contato hoje pode ser a ponte para a outra história de amanhã.

Visitantes nas alturas

por João Marcos Rosa em 25 de junho de 2015

Sábado voltei de mais uma viagem para Carajás e ainda não me acostumei em passar o dia inteiro em cima de árvores. Aliás, acho que nunca vou me sentir bem. Talvez um pouco mais confortável, seguro. Mas bem, bem mesmo não tem jeito. Nos dias de chuva fico pensando nos raios e quando não chove, quase sempre venta muito no meio do dia, balançando demais a copa das árvores e trazendo uma sensação imensa de instabilidade: ossos do ofício.

Tremedeiras à parte, recebo quase todos os dias visitantes ilustres, que parecem não se importar com nossa presença no dossel.


Foto: Pica-pau de banda branca.


Foto: Gavião ripina.


Foto: Pipira.


Foto: Gavião branco.


Foto: Saíra de mascara preta.

Nessa etapa já pudemos ver o filhote bem maior. A mãe ainda fica o dia inteiro com ele, saindo poucas vezes para buscar galhos com folhas  para refrescar o ninho. Geralmente, ela o alimenta nas primeiras horas e no fim do dia com presas trazidas pelo macho. Esse, alias, nos deu o ar da graça por duas vezes e proporcionou um show de imagens, que com certeza entrarão para as páginas do livro.


Foto: A fêmea e seu filhote de 1 mês.


Foto: O filhote, pequenino no ninho, esperando a volta da mãe.

No outro ninho, o filhote está prestes a completar 4 meses e já ensaia alguns pulos, batendo as asas dentro do próprio ninho. Em pouco tempo já estará voando para os galhos da copa e ficando totalmente à vontade na árvore. Contrário do João, que sempre vai chegar lá em cima pensando: “O que estou fazendo aqui de novo?”


Foto: O filhotão de Carajás.

Categorias
Tags

Harpia: missão quase impossível

por João Marcos Rosa em 26 de maio de 2015

Saímos de Belo Horiozonte, eu e o escalador e biólogo Marcus Canuto, com uma missão, digamos, meio complicada para essa nova etapa da documentação dos ninhos de harpia na Floresta Nacional de Carajás, no Pará. Um dos ninhos, no qual a fêmea estava chocando em nossa última viagem, poderia ter o ovo eclodido a qualquer momento e a foto que comprovasse esse momento seria o nosso objetivo principal durante os dias em que ficaríamos na plataforma no alto da castanheira.


Foto: Para tentar avistar dentro do ninho (que tem a parte central mais profunda), o biólogo Marcus Canuto busca o topo da castanheira, utilizando técnicas de escalada em dossel.


Foto: Desde lá de cima, fotografa a plataforma onde ficamos pelo menos 10 horas por dia esperando as atividades no ninho. (Foto de Marcus Canuto)

A semana foi passando e a atividade no ninho cada dia mais nos levava a crer que o filhote poderia aparecer a qualquer momento. A fêmea buscava ramos várias vezes por dia para deixar o ninho mais fresco. Em nosso penúltimo dia de campo, o macho apareceu com uma presa, o que gerou ainda mais expectativa, já que o filhote precisaria se alimentar em seu primeiro dia de vida. Porém o prazo e a pressão nos deixavam cada vez mais tensos em cima da árvore.


Fotos: A fêmea levando galhos para amenizar a temperatura do ninho.


Foto: O macho após deixar a presa para a fêmea também ajuda na manutenção do ninho.


Fotos: As chegadas e saídas do ninho mostram a imponência da envergadura das harpias.

No último dia, subimos ao ninho bem cedo, devido aos fortes sinais observados no dia anterior. Para nossa surpresa (e felicidade!) o ovo estava rompido e o filhote, que se movimentava ainda com dificuldades no ninho, nos dava um dado importantíssimo para a ciência: a data exata do seu nascimento.


Foto: A  fêmea com uma parte do ovo no bico.


Fotos: Carinho de mãe, aconchego no peito e proteção contra o sol.

Descemos do ninho por volta das 19h, já escurecendo, com uma sensação maravilhosa de missão cumprida. Num trabalho imenso que no campo, pode envolver apenas uma pequena equipe, mas que sem o apoio do ICMBio, com o Fred Drummond, a Vale, que patrocina a documentação e o livro que faremos com o material no fim do ano, e a coordenação da grande amiga Tânia Sanaiotti do INPA, jamais sairia do papel. Dedico a eles e a todos  os parceiros nesse projeto essas imagens. A conquista é de todos nós e quem agradece é a NATUREZA!


Foto: Time da pesada: depois de dias acordando de madrugada e passando horas e mais horas documentando o ninho, cada um mais acabado que o outro! Marcus Canuto (SOS Falconiformes), José Borges (Sacramenta/Vale) e eu.


Foto: Pra terminar mostrando a alegria imensa que me deu essa viagem, nada como uma imagem do fim do dia na Floresta Nacional de Carajás, realmente um lugar abençoado.

Na próxima traremos imagens do crescimento desse filhote, não deixem de acompanhar.

Harpias da Floresta Nacional de Carajás

por João Marcos Rosa em 6 de maio de 2015


Foto: Vista aérea da Floresta Nacional de Carajás.


Foto: A castanheira que abriga o ninho. A escolha é sempre pelas árvores mais emergentes do vale.

Fotografar aves na natureza pode não ser uma tarefa muito simples. Em 2006, quando publiquei uma reportagem sobre as harpias (A rainha das selvas), na revista National Geographic Brasil, falamos um pouco sobre o tipo de abordagem feita para documentar estas águias. Pois bem, três anos se passaram e agora volto à Amazônia para encarar o desafio de trabalhar com esta espécie.


Foto: Para subir nas árvores e conseguir documentar os ninhos temos que usar técnicas de ascenção e escalada.


Foto: Plataformas como esta, construída na copa de uma castanheira, facilitam esse tipo de fotografia que exige lentes longas e uso de tripé. (foto de Marcus Canuto)


Foto: A fêmea aguardando a chegada do macho com o almoço.


Foto: Embaixo da árvore do ninho, biólogas Aline Gaglia e Tânia Sanaiotti coletam restos de presas descartados pelo casal.


Foto: Um bugio visita uma árvore ao lado da plataforma.

Depois de tanto tempo de convivência com os pesquisadores, durante a produção da reportagem, mantivemos um contato constante e seguimos trabalhando juntos em projetos em prol da conservação da espécie. Recentemente tivemos o prazer de voltar à campo para dar início à uma empreitada fabulosa: estudar e documentar dois novos ninhos de harpias, na Floresta Nacional de Carajás, no Pará. Um dos ninhos tem um filhote recém-nascido e, no outro, a fêmea ainda está chocando o ovo, que deve eclodir em meados de maio.


Foto: O casal  na borda do ninho e um retrato do macho com a crista eriçada.


Foto: O casal  na borda do ninho e um retrato do macho com a crista eriçada.


Foto: No caminho de volta para o alojamento várias surpresas na estrada de terra: primeiro a árvore caída depois um casal de antas que cruzou a pista.


Foto: No caminho de volta para o alojamento várias surpresas na estrada de terra: primeiro a árvore caída depois um casal de antas que cruzou a pista.


Foto: No caminho de volta para o alojamento várias surpresas na estrada de terra: primeiro a árvore caída depois um casal de antas que cruzou a pista.

Começamos aqui uma série que pretende mostrar o dia-a-dia desse projeto, que será realizado em seis campanhas para contar a história destes dois filhotes até que cresçam e comecem a voar. Além disso vou mostrar os bastidores de uma produção fotográfica desse tipo.
Vamos juntos nessa viagem para entender um pouco mais sobre a maior águia das Américas e sobre o desafio de documentá-la na natureza.

Categorias
Tags

Arara-azul na Amazônia: a luta para salvar a espécie na maior floresta tropical do mundo

por João Marcos Rosa em 8 de abril de 2015

Casal de araras-azuis em palmeira na Floresta Nacional de Carajás, Pará

Desde o início da minha carreira, as imagens das araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) no Pantanal me causam fascínio. Depois de algum tempo de estrada, tive a oportunidade de conhecer a região e finalmente pude ver de perto essas belezas.

Passei a acompanhar as notícias do Projeto Arara Azul e presenciei o progresso da espécie a cada nova matéria publicada sobre o tema. As reportagens Céu mais azul – de autoria do fotógrafo Luciano Candisani, publicada na edição de agosto de 2005 de National Geographic Brasil – e Da beira da extinção aos céus do Pantanal – do biólogo Fábio Paschoal, autor do blog Curiosidade Animal, aqui no site da revista – são alguns exemplos.

Porém, em 2011, a surpresa foi ainda maior. Ao trabalhar na produção de fotos para um livro da fauna da Floresta Nacional de Carajás, no sudeste do Pará, me deparei com um bando de araras-azuis na Amazônia. Fiquei chocado com a cena!  Frederico Drumond, chefe da unidade, me contou que uma população daquela espécie ameaçada habitava a região. Os pesquisadores já haviam visitado a área e logo iniciariam um estudo para saber porque aquelas aves se encontravam ali.

Algum tempo depois a bióloga Flávia Presti, da UNESP de Botucatu, coordenadora do Projeto Conservação das araras-azuis no Mosaico Carajás, entrou em contato comigo e me convidou para fazer parte da equipe que acompanharia a população na Amazônia. Aceitei na hora.

Após alguns meses foi assinado um convênio com a mineradora Vale, que financia o projeto, e enfim fomos para campo em março de 2013.

Documentar a espécie em um ambiente tão diferente do Pantanal e ver as araras-azuis construírem ninhos em castanheiras com 50 metros de altura ou fazerem voos rasantes em nosso barco em meio à floresta foi uma experiência incrível.

O projeto de pesquisa está apenas no começo e, com certeza, vai trazer novas informações dessas aves. Tenho certeza de que ações prioritárias para sua conservação na região serão definidas a partir das pesquisas que acabo de presenciar.

Cientistas procuram ninhos nas margens do Rio Itacaiúnas

A pesquisadora Talita Roberto apresenta o projeto em escola de Parauapebas, no Pará

Jogos sobre a espécie fazem parte do trabalho de educação ambiental do Projeto Conservação das araras-azuis no Mosaico Carajás

Uma imensa castanheira abriga um ninho de arara-azul

Ninho de araras-azuis em uma árvore conhecida como estopeira

Pesquisadores coletam sementes de faveira, possível alimento das araras

Casal de araras-azuis na região de Canaã dos Carajás, Pará

Ao anoitecer algumas araras se abrigaram nessa enorme árvore seca