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Luciano Candisani

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Transição

por Luciano Candisani em 17 de dezembro de 2013

filhote de tartaruga

Este post marca uma transição. A maior nestes cinco anos do blog Por Trás das Lentes.  Teremos que fazer uma pausa para reformulação geral deste website, e ainda não temos uma previsão de retorno. Mas as histórias que venho contando aqui passarão a aparecer na minha página no facebook: (https://www.facebook.com/luciano.candisani) com o mesmo conteúdo.

Aproveito para mais uma vez agradecer à equipe do blog, que jamais mediu esforços para colocar os meus posts no ar e, principalmente a você, caro leitor, pelo interesse no que eu tenho a dizer. A fotografia, você sabe, é a mesma publicada no longínquo primeiro post da série. A pequena tartaruga fala de início e de desafios. O fim de um ciclo é o início de outro. Boas festas e um excelente 2014 a todos!

Pantanal, na linha d’água – Esforço na composição

por Luciano Candisani em 4 de novembro de 2013

Bando de quatis

Estava atrás de onças quando fiz a foto do bando de quatis que aparece nas páginas 96/97 do livro Pantanal, na linha d’água – reproduzida aqui acima.

A cena era curiosa com dezenas de quatis juntos “pastando”. Quanto os notei, de longe, praticamente só via o rabo comprido dos animais zanzando acima do capim rasteiro, o corpo de todos eles, uns 15 ao todo, ia oculto atrás da vegetação.

Animado com aquele bando – nunca tinha visto tantos juntos –, iniciei uma aproximação silenciosa e, em pouco tempo, cheguei bem perto dos animais. Eles não perceberam, concentrados que estavam em cutucar o chão com o focinho em busca de comida.  Aparentemente tudo era perfeito: os animais em um bom ângulo, perfeitamente visíveis, boa luz, curta distância. A graça que chamara a minha atenção no início, porém, se fora.

Tratei de voltar um pouco sem que os animais me notassem. Então, deitei no chão apoiando a câmera com uma lente longa (nikkor 500mm f4) sobre o capim. Fiquei, finalmente , em uma posição em que não via quase nada além dos rabos dos quatis acima da grama. E era isso, afinal, o que eu buscava desde o início, embora não tenha percebido de imediato.

É assim mesmo, o “centro de interesse” da fotografia, muitas vezes só aparece depois de muito esforço na composição.

Sobre esse tema, recomendo o livro do fotógrafo canadense Freeman Paterson: Photography and the art of seeing (Key Porter Books, 2009), infelizmente sem tradução para o português.

E aproveito para lembrar que o meu Pantanal na linha d’água está a venda na loja virtual de NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL.

O poder transformador da fotografia

por Luciano Candisani em 8 de outubro de 2013
Capa da edição especial de 125 anos de National Geographic

Capa da edição especial de 125 anos de National Geographic

O icônico retrato da menina afegã Sharbat Gula, de Steve McCurry, está de volta à capa de National Geographic. Escolha perfeita para abrir uma edição inteira dedicada ao poder transformador da fotografia.

Vi esta fotografia de McCurry pela primeira vez na adolescência.  Eu já era, então, um “leitor” inveterado da famosa revista de borda amarela, que via na biblioteca do colégio. Nessa época, pouco lia do texto em Inglês, mas nada podia ser mais eloquente pra mim do que aquelas histórias contadas com imagens espetaculares.

Ligado ao mar, me interessava sobretudo pelas reportagens do universo de ilhas remotas feitas por David Doubilet. Suas incríveis imagens de águas cristalinas e recifes multicoloridos alimentavam meus sonhos de um dia ver e fotografar aquilo tudo com meus próprios olhos.

Queria um trabalho como aquele! E  fui atrás. Aos 15 anos de idade, tirei uma credencial de mergulho autônomo e consegui uma Nikonos V, a lendária câmera anfíbia da Nikon. Fiz minhas primeiras fotografias embaixo d’água no quintal de casa, entre Ilhabela e Angra dos Reis, estabelecendo uma ligação com a natureza que  mais tarde me levou a optar pelo curso superior de biologia na Universidade de São Paulo.

No primeiro semestre da faculdade, comecei a estagiar no Instituto Oceanográfico. Adorava aquela atmosfera de pesquisa marinha e logo passei a embarcar para expedições ao longo da costa brasileira.

Trabalhava como assistente de pesquisa e também fazia fotografias submarinas de equipamentos de coleta e procedimentos de trabalho com a minha Nikonos, a pedido dos professores. Os laboratórios precisavam dessas imagens e pouca gente fazia fotografia submarina naquela época.

Os convites para trabalhos de documentação fotográfica começaram a surgir em profusão. Virei um “fotógrafo” de expedições científicas.

Foi assim que, entre 1996 e 98, fiz duas longas viagens para a Antártica, a serviço do Instituto Oceanográfico, e publiquei minhas primeiras matérias importantes na imprensa brasileira. As imagens sobre a rara vida abaixo da superfície congelada do mar, inéditas na época, conquistaram visibilidade e abriram o longo caminho que me levaria ao sonho acalentado na juventude.

Desde o ano 2000 produzo reportagens fotográficas para a National Geographic Brasil e, agora, fotografo também para a edição mundial da revista, a mesma publicação que fora decisiva na minha escolha profissional.  Histórias que se encontraram graças ao poder transformador da fotografia.

Em busca dos filhotes de jacaré

por Luciano Candisani em 25 de setembro de 2013

Sétimo post da série sobre o livro Pantanal, na linha d’água

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Se tivesse que eleger a fotografia mais trabalhosa do livro Pantanal, na linha d’água, não hesitaria em apontar, de imediato, a da página 95 – um filhote de jacaré debaixo d’água. É uma certeza respaldada pela lembrança, ainda fresca na memória, de uma viagem de 11 horas na carreta de um trator e inúmeros acampamentos assolados por mosquitos em noites escaldantes de verão.

Quando embarquei no monomotor, na cidade de Aquidauana, em busca desta fotografia específica, rumo a um local distante no Pantanal apontado pelos especialistas em jacarés como o ideal para minha empreitada pioneira, sabia que a tarefa seria complicada. Até onde conseguira apurar, ninguém tinha registrado a cena. “Eles são muito ariscos e a fêmea pode atacar os intrusos que se aproximem em demasia da sua prole”, diziam.

Após muita pesquisa, descobri minha única possível chance de sucesso: achar uma ninhada com não mais que uma semana de idade. Nessa situação, as reações dos filhotes ainda são bastante lentas, embora as fêmeas sejam igualmente zelosas.

Quando finalmente conseguimos achar a ninhada recém-nascida, já fazia cinco dias que estávamos acampando em torno de uma mata com grande concentração de ninhos. Localizamos os pequenos à noite e trabalhamos ao amanhecer com todo cuidado para não despertar a fúria da mãe – devidamente vigiada por um técnico da nossa equipe.

Com tudo isso, ver aqueles pequenos dinossauros surgirem no visor da minha câmera subaquática, fez valer a pena todas as milhares (talvez milhões) de picadas de mosquito das noites anteriores e a longa viagem de trator que faríamos, dois dias depois, ao descobrir que o avião não mais poderia pousar na pastagem transformada em pista, já submersa pelas chuvas torrenciais daquele verão.

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O ponto de vista

por Luciano Candisani em 10 de setembro de 2013

Jacaré em beira de lagoa é cena das mais comuns no Pantanal, especialmente durante a seca.  Fácil de ver, difícil de mostrar. Tive que “quebrar cabeça” até chegar a um ponto de vista capaz de traduzir a minha admiração por essa cena corriqueira, mas que sempre chamou a minha atenção. O resultado está aqui

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É a foto da página 16/17 do livro “Pantanal, na linha d’água”. Hoje, sexto post da série sobre o livro, quero responder a uma pergunta recorrente sobre o ponto de vista inusitado desta imagem. É tudo visto de cima?

Poderia ter sido feito com um dos modernos helicópteros remotos com câmeras acopladas que foram usados, por exemplo, na matéria Rei Leão: vida breve e feliz, na edição de agosto de 2013 da revista. Mas, como eu não dispunha de um equipamento assim, arranjei outro jeito para alcançar a perspectiva “aérea” que queria. Desci até próximo da lagoa com o jipe e montei o tripé na capota com uma Nikon D3 e objetiva 24-70. Depois, foi só esperar os animais saírem da água, no fim da tarde, com a luz fria e suave do crepúsculo.