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Luciano Candisani

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O porco e o vira-lata

por Luciano Candisani em 14 de junho de 2015
© Valeria Forner
 
Não, essa incrível fotografia não é minha. Eu apenas estava perto da jornalista Valeria Forner quando ela fez a imagem. Momentos antes desse clique, eu e ela viajávamos no banco de trás de uma van junto a um grupo de jornalistas escalados para conhecer a reserva do Patrimônio Natural da Serra do Tomabador, em Cavalcante, Goiás (veja os dos últimos posts). Ao passarmos pela comunidade São Domingos, nossos olhares foram quase simultaneamente atraídos para o quintal de uma casa na beira da estrada de chão. Ali, um porquinho brincava com três ou quatro cachorros como se fosse um deles. Uma cena que fala muito sobre a vida no sertão e a proximidade das pessoas com os bichos, um daqueles momentos típicos do interior do país.
 
Paramos o carro. Desci rapidamente com uma pesada Nikon D3 pendurada no pescoço e mais flash e outra objetiva no bolso. Valeria, uma profissional do texto, veio atrás. Discreta, ela carregava apenas uma digitalzinha de bolso. “Só preciso de alguns registros” me disse ela. Começamos a trabalhar. A princípio todas as atenções voltadas para o porco que pensava ser um cachorro. Mas ele logo ficou tímido, parou de brincar e a cena se dispersou. Enquanto isso, meu olhar foi se desviando para outras coisas ao redor e, sem paciência para esperar a vontade dos bichos, passei a fotografar outros temas.
 
Valéria fez o mesmo, mas logo voltou ao que realmente havia motivado a nossa parada. Resultado: ela estava exatamente na posição certa quando o menor dos vira-latas resolveu tirar um cochilo sobre as costas do amigo porco.
 
Eu fiz algumas boas imagens dos moradores locais. Nenhuma delas, porém, sequer se aproximava da composição que imaginei quando percebi os bichos através da janela do veículo. Essa foto pré-concebida na minha mente, depois vi, foi parar na digitalzinha da Valéria. E não por acaso. Ela teve paciência e seguiu abordando a situação concentrada no objetivo até o momento decisivo. Ou seja, deu todas as chances necessárias à sorte e soube responder rapidamente quando esta apareceu – regras fundamentais para a boa fotografia documental.
 
Uma hora depois, fui o último a subir no carro. Estava sem a foto e com o calcanhar meio doído pelas duas mordidadas que levei do porco.

Encontro com “Ari”

por Luciano Candisani em 24 de fevereiro de 2015

O e-mail do fotógrafo Daniel de Granville tinha poucas palavras. Apenas duas linhas recomendavam a abertura dos anexos. “Veja”, ou algo assim, dizia o texto. Curioso, segui as instruções. E mal pude acreditar quando a imagem cresceu no meu monitor: eram belas fotografias de uma ariranha nadando em água cristalina, num cenário tão belo quanto improvável para a espécie: o Rio Olho D’água, em Jardim, no Mato Grosso do Sul. Incrível, eu só tinha visto algo parecido quando, anos atrás, num sensacional golpe de sorte, uma ariranha  apareceu diante da câmera de um cinegrafista francês no Rio Sucuri, no município vizinho de Bonito.

Ariranhas são essencialmente aquáticas. Moram nas barrancas dos rios e comem peixes, muitos deles, algumas vezes ao dia. Ou seja, boa parte da vida dessas criaturas se passa debaixo da água. Porém, como em seus domínios – os rios do Pantanal e Amazônia – a água normalmente é bastante turva, imagens subaquáticas da espécie em ambiente natural são raridade.

A mensagem do Daniel me pegou de saída para uma pauta no Pantanal, com ariranhas na lista de prioridades! Nas horas seguintes, trocamos  mensagens e meu amigo ficou de me avisar sobre as novas aparições do “Ari”, como fora batizado o pequeno macho.

Só voltei a falar com Daniel 15 dias mais tarde, de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Cheguei na rodoviária da cidade às 8h, depois de ter passado a madrugada fotografando anfíbios na fazenda Nhumirim. Ele não tinha boas notícias: as avistagens da ariranha tinham rareado. Relaxei e entrei no primeiro ônibus para o aeroporto de Campo Grande. Dormi profundamente até a cidade de Miranda, quando fui surpreendido por uma ligação do Daniel: “O Ari foi visto hoje pescando no rio”, relatou ele com voz animada. Eram cinco da tarde.

“E agora?”, pensei. A avistagem não garantia a presença do animal no dia seguinte. Viajar até lá seria uma aposta, no mínimo, arriscada.

Resolvi tentar. Na escala seguinte, Aquidauna, saltei do ônibus, passei meus 100 quilos de bagagens para um táxi e segui para a cidade de Jardim. Nos dois dias seguintes, eu e Daniel passamos, ao todo, cerca de 13 horas dentro do Rio Olho D’água, na fazenda Rio da Prata, e tivemos apenas dois encontros bem rápidos com o “Ari”.

Consegui apenas dois retratos simples, mas valeu a pena. Afinal, trata-se de uma ariranha em seu mundo subaquático, coisa rara de se ver. E, além disso, a paisagem submersa do Rio Olho D’água figura entre os mergulhos mais espetaculares do mundo – não foi sacrifício algum ficar ali horas seguidas. No próximo post, vou mostrar imagens que fiz enquanto esperava a passagem do “Ari”.

Equipamento:
Canon 5D markII, objetiva 16-35 f2.8L, caixa estanque aquática com domo de 9 polegadas, dois flashes manuais Sea&Sea 120.

Transição

por Luciano Candisani em 17 de dezembro de 2013

filhote de tartaruga

Este post marca uma transição. A maior nestes cinco anos do blog Por Trás das Lentes.  Teremos que fazer uma pausa para reformulação geral deste website, e ainda não temos uma previsão de retorno. Mas as histórias que venho contando aqui passarão a aparecer na minha página no facebook: (https://www.facebook.com/luciano.candisani) com o mesmo conteúdo.

Aproveito para mais uma vez agradecer à equipe do blog, que jamais mediu esforços para colocar os meus posts no ar e, principalmente a você, caro leitor, pelo interesse no que eu tenho a dizer. A fotografia, você sabe, é a mesma publicada no longínquo primeiro post da série. A pequena tartaruga fala de início e de desafios. O fim de um ciclo é o início de outro. Boas festas e um excelente 2014 a todos!

Pantanal, na linha d’água – Esforço na composição

por Luciano Candisani em 4 de novembro de 2013

Bando de quatis

Estava atrás de onças quando fiz a foto do bando de quatis que aparece nas páginas 96/97 do livro Pantanal, na linha d’água – reproduzida aqui acima.

A cena era curiosa com dezenas de quatis juntos “pastando”. Quanto os notei, de longe, praticamente só via o rabo comprido dos animais zanzando acima do capim rasteiro, o corpo de todos eles, uns 15 ao todo, ia oculto atrás da vegetação.

Animado com aquele bando – nunca tinha visto tantos juntos –, iniciei uma aproximação silenciosa e, em pouco tempo, cheguei bem perto dos animais. Eles não perceberam, concentrados que estavam em cutucar o chão com o focinho em busca de comida.  Aparentemente tudo era perfeito: os animais em um bom ângulo, perfeitamente visíveis, boa luz, curta distância. A graça que chamara a minha atenção no início, porém, se fora.

Tratei de voltar um pouco sem que os animais me notassem. Então, deitei no chão apoiando a câmera com uma lente longa (nikkor 500mm f4) sobre o capim. Fiquei, finalmente , em uma posição em que não via quase nada além dos rabos dos quatis acima da grama. E era isso, afinal, o que eu buscava desde o início, embora não tenha percebido de imediato.

É assim mesmo, o “centro de interesse” da fotografia, muitas vezes só aparece depois de muito esforço na composição.

Sobre esse tema, recomendo o livro do fotógrafo canadense Freeman Paterson: Photography and the art of seeing (Key Porter Books, 2009), infelizmente sem tradução para o português.

O poder transformador da fotografia

por Luciano Candisani em 8 de outubro de 2013
Capa da edição especial de 125 anos de National Geographic

Capa da edição especial de 125 anos de National Geographic

O icônico retrato da menina afegã Sharbat Gula, de Steve McCurry, está de volta à capa de National Geographic. Escolha perfeita para abrir uma edição inteira dedicada ao poder transformador da fotografia.

Vi esta fotografia de McCurry pela primeira vez na adolescência.  Eu já era, então, um “leitor” inveterado da famosa revista de borda amarela, que via na biblioteca do colégio. Nessa época, pouco lia do texto em Inglês, mas nada podia ser mais eloquente pra mim do que aquelas histórias contadas com imagens espetaculares.

Ligado ao mar, me interessava sobretudo pelas reportagens do universo de ilhas remotas feitas por David Doubilet. Suas incríveis imagens de águas cristalinas e recifes multicoloridos alimentavam meus sonhos de um dia ver e fotografar aquilo tudo com meus próprios olhos.

Queria um trabalho como aquele! E  fui atrás. Aos 15 anos de idade, tirei uma credencial de mergulho autônomo e consegui uma Nikonos V, a lendária câmera anfíbia da Nikon. Fiz minhas primeiras fotografias embaixo d’água no quintal de casa, entre Ilhabela e Angra dos Reis, estabelecendo uma ligação com a natureza que  mais tarde me levou a optar pelo curso superior de biologia na Universidade de São Paulo.

No primeiro semestre da faculdade, comecei a estagiar no Instituto Oceanográfico. Adorava aquela atmosfera de pesquisa marinha e logo passei a embarcar para expedições ao longo da costa brasileira.

Trabalhava como assistente de pesquisa e também fazia fotografias submarinas de equipamentos de coleta e procedimentos de trabalho com a minha Nikonos, a pedido dos professores. Os laboratórios precisavam dessas imagens e pouca gente fazia fotografia submarina naquela época.

Os convites para trabalhos de documentação fotográfica começaram a surgir em profusão. Virei um “fotógrafo” de expedições científicas.

Foi assim que, entre 1996 e 98, fiz duas longas viagens para a Antártica, a serviço do Instituto Oceanográfico, e publiquei minhas primeiras matérias importantes na imprensa brasileira. As imagens sobre a rara vida abaixo da superfície congelada do mar, inéditas na época, conquistaram visibilidade e abriram o longo caminho que me levaria ao sonho acalentado na juventude.

Desde o ano 2000 produzo reportagens fotográficas para a National Geographic Brasil e, agora, fotografo também para a edição mundial da revista, a mesma publicação que fora decisiva na minha escolha profissional.  Histórias que se encontraram graças ao poder transformador da fotografia.