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Luciano Candisani

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As super-teleobjetivas

por Luciano Candisani em 22 de dezembro de 2015

Ao perceber minha aproximação com o equipamento fotográfico, o cervo-do-pantanal saiu em disparada, saltando sucessivos tufos de capim aquático feito um corredor dos 400 metros com barreiras; acho que existe esta prova.

Dúvidas esportivas a parte, o fato é que as fotografias de esportes e da vida selvagem tem, de fato, muito em comum: o movimento constante, a dificuldade de controle da composição e da luz. E, em ambas as especialidades, a necessidade freqüente de manter grandes distância do assunto, obriga o uso de grandes teleobjetivas luminosas entre 400 e 800 mm – aqueles “canudões” comumente vistos nas arenas esportivas – resolve boa parte dos desafios técnicos.

Mas na natureza , ter à mão uma super-tele não basta. Afinal, a ação dos animais não respeita os limites definidos de um campo ou pista. É imperativo ao fotógrafo saber como aproximar-se até a distância ideal, sem ser notado. Isso significa, às vezes, literalmente, mergulhar no assunto.

Quando aquele cervo do Pantanal se assustou comigo, a distância entre nós era pelo menos o dobro da ideal para eu trabalhar com a maior tele que eu tinha na ocasião, uma 500 mm com conversor de 1.4. Depois da corrida inicial, ele parou dentro da água, no meio de uma baia forrada de plantas aquáticas e, em pouco tempo já estava a vontade, sentindo-se protegido atrás do capim. Era a melhor chance que eu já tivera de registrar o animal em seu habitat preferido – a maior parte dos cervos são flagrados em terra firme, mas a espécie é moldada para a vida em áreas alagadas.

Montei o tripé e iniciei a caminhada pela água. Só depois de meia hora, com a água na altura do peito, fui capaz de “fechar o quadro” na minha interpretação da cena. Só então a super-tele foi efetiva.

Expedição Bodoquena-Pantanal

por Luciano Candisani em 15 de dezembro de 2015

No início de outubro de 2008, mostrei, aqui no Blog, alguns momentos da expedição fotográfica de 11 dias, entre o Planalto da Bodoquena e o Pantanal da Nhecolândia, no Mato Grosso do Sul.

Foto: Ariranha, no Rio Negro.

Na ocasião, destaquei as peculiaridades de uma viagem pelas estradas semi-submersas após as primeiras fortes chuvas da temporada molhada na região – no último trecho do percurso, me lembro bem, eu e o biólogo George Camargo, chegamos ao destino completamente cobertos de lama depois de desatolar o jipe várias vezes.

Foto: O voo da curicaca diante de um paredão de calcário, na Bodoquena.

Foto: O dourado nas águas protegidas na RPPN Rio da Prata, em Jardim.

Sujos, molhados, mas felizes por estarmos ali, uma região onde a natureza ainda está no controle e o homem parece ter encontrado um equilíbrio estável com o ambiente. Coisa rara de se ver.

Foto: Biguatinga secando as penas após um mergulho.

Foto: Capivaras na margem do rio.

Hoje, apresento parte dos resultados do trabalho. O objetivo, proposto pelo grupo ambientalista Conservação Internacional Brasil, era produzir uma interpretação visual sobre a biodiversidade do corredor ecológico Bodoquena-Pantanal.

Foto: Mutum Macho.

Foto: Lontra no Rio Negro.

Os especialistas em conservação são unânimes: não é possível proteger o Pantanal sem trabalhar também no Cerrado ao redor, onde brota boa parte da água responsável pelo balanço hídrico na planície inundável.

Daí nossa jornada estender-se das nascentes cristalinas da Bodoquena até a Nhecolândia, uma das áreas mais preservadas do Pantanal.

Foto: O biólogo George Camargo (CI-Brasil) observa um cardume de piraputangas. RPPN Rio da Prata, Jardim.

Nesse trabalho, não me preocupei em fazer um registro didático sobre a expedição, ou um inventário visual das espécies importantes no ecossistema.

Foto: Talha mar pescando.

Ao contrário, voltei minhas lentes para captar momentos capazes de evocar a relação de interdependência entre as espécies; e delas com seu meio ambiente.

Foto: O namoro das antas no Rio negro.

Aí está, na minha opinião, a essência da mensagem conservacionista no que se refere a importância da manutenção da biodiversidade.

O início gelado

por Luciano Candisani em 21 de julho de 2015

Em outubro de 2007 fui convocado para uma missão diferente pela National Geographic. Desta vez não viajaria de barraca nas costas para o isolamento de nenhuma floresta remota a bordo de um jipe sacolejante. Ao contrário, embarcaria numa van em direção a uma aconchegante pousada em Paraty para apresentar um áudio-visual sobre o meu trabalho na revista ao público do principal festival internacional de fotografia do País, o Paraty em foco. Depois da projeção, participaria de uma entrevista aberta junto com o Diretor geral de fotografia da National nos EUA, David Griffin, e o redator-chefe da edição brasileira, Matthew Shirts. Na platéia, o editor senior Ronaldo Ribeiro e centenas de outros profissionais renomados do Brasil e do exterior.

Felizmente, o seleto público recebeu muito bem o meu trabalho e logo veio o debate. E a surpresa. A primeira pergunta do mediador foi logo dirigida a mim, e veio direta, sem rodeios: “E você, de onde veio?”

Para o meu próprio espanto, comecei a responder imediatamente, como se tivesse alguma resposta óbvia guardada no inconsciente. Fiz uma breve descrição do início da carreira , como fotógrafo de expedições científicas, até chegar à minha grande chance profissional: as duas expedições de dois meses cada para a Antártica, em 1996 e em 1997. E sem saber mais o que dizer, conclui com a propriedade dos que acabam de descobrir algo inusitado: “eu vim do gelo!?”

Só depois do evento, percebi o quanto aquela resposta “sem querer” era única e verdadeira. A minha jornada profissional na fotografia de natureza tinha mesmo começado de verdade entre icebergs e neve. A oportunidade surgiu em meados de 1995. Na época eu vinha cursando biologia na USP e trabalhava como fotógrafo de expedições no Instituto Oceanográfico, no Litoral Norte de São Paulo. Eu estava ali quando a Dra. Mônica Petti, veio com a novidade: “precisamos de um fotógrafo mergulhador para documentar a vida submarina na Antártica (isso mesmo, debaixo do mar congelante) aceita?”

Que pergunta. Vou agora se for preciso!. Aos vinte e poucos anos, eu não costumava fazer muitos cálculos de riscos. Eu já tinha experiência em mergulho técnico e aquela era uma chance única , um sonho. E isso bastava para a decisão. Três meses depois eu estava entrando na água diante do olhar incrédulo dos pinguins.

Na vida real, embaixo das águas geladas e tempestuosas das Ilhas Shetland do Sul, nas proximidades da passagem de Drake, muitas vezes foi difícil manter a empolgação daqueles primeiros momentos. Até o idealismo pode sucumbir ao desgaste físico e psicológico de mergulhos sucessivos de 30 a 40 minutos abaixo de zero, com mãos e pés duros de frio, câmeras alagadas, roupas rasgadas pelo gelo, reguladores congelados e a preocupação constante com as mudanças repentinas do tempo. Mas, apesar das dificuldades esperadas, o objetivo principal foi cumprido. Voltei para o Brasil com registros inéditos de uma formação rara, uma espécie de “recife polar”, local onde as condições geográficas impedem a ação devastadora dos icebergs sobre o substrato submarino, proporcionando o crescimento de uma comunidade de invertebrados capaz de rivalizar em cores com os recifes tropicais.

O material resultou na publicação das minhas primeiras reportagens fotográficas relevantes e abriu caminho para a carreira sobre a qual eu falava naquela noite em Paraty. Eu vim do gelo, claro.

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Arara-azul: fotografia cada vez mais comum no Pantanal

por Luciano Candisani em 25 de junho de 2015
Araras-azuis pousadas em uma bocaiuva

Araras-azuis pousadas em uma bocaiuva

 

Neste post da série Pantanal, na linha d’água,, quero falar de uma imagem instigante. Ela está nas páginas 128 e129 do livro e mostra duas araras-azuis no alto de uma palmeira bocaiuva.

É uma fotografia que atrai o olhar para o centro de interesse da história: o movimento das duas belas aves azuis na árvore que lhes fornece alimento. E o mais intrigante é que o fundo, que poderia ser um elemento de distração, trabalha em favor da imagem ao conferi-la movimento. Mas como o fundo tem movimento enquanto as araras e a árvore aparecem congeladas?

A pergunta tem uma resposta simples: ventava bastante naquele dia e a árvore balançava de um lado para o outro ao sabor das rajadas. Ao invés de tentar congelar o movimento da árvore com uma alta velocidade de obturador, decidi trabalhar em velocidade baixa e acompanhar o vai e vem da árvore – apenas deslocando a camera montada com uma objetiva de 500 milímetros sobre o tripé (Nikon D300 com objetiva 500 f4) . Para ajudar a congelar o movimento das aves, usei um flash com um fresnel capaz de projetar a luz para mais longe.

O melhor de tudo, porém, é fechar esse breve texto com uma ótima constatação: cenas de arara-azul em bocaiuvas são cada vez mais frequentes no Pantanal.

O porco e o vira-lata

por Luciano Candisani em 14 de junho de 2015
© Valeria Forner
 
Não, essa incrível fotografia não é minha. Eu apenas estava perto da jornalista Valeria Forner quando ela fez a imagem. Momentos antes desse clique, eu e ela viajávamos no banco de trás de uma van junto a um grupo de jornalistas escalados para conhecer a reserva do Patrimônio Natural da Serra do Tomabador, em Cavalcante, Goiás (veja os dos últimos posts). Ao passarmos pela comunidade São Domingos, nossos olhares foram quase simultaneamente atraídos para o quintal de uma casa na beira da estrada de chão. Ali, um porquinho brincava com três ou quatro cachorros como se fosse um deles. Uma cena que fala muito sobre a vida no sertão e a proximidade das pessoas com os bichos, um daqueles momentos típicos do interior do país.
 
Paramos o carro. Desci rapidamente com uma pesada Nikon D3 pendurada no pescoço e mais flash e outra objetiva no bolso. Valeria, uma profissional do texto, veio atrás. Discreta, ela carregava apenas uma digitalzinha de bolso. “Só preciso de alguns registros” me disse ela. Começamos a trabalhar. A princípio todas as atenções voltadas para o porco que pensava ser um cachorro. Mas ele logo ficou tímido, parou de brincar e a cena se dispersou. Enquanto isso, meu olhar foi se desviando para outras coisas ao redor e, sem paciência para esperar a vontade dos bichos, passei a fotografar outros temas.
 
Valéria fez o mesmo, mas logo voltou ao que realmente havia motivado a nossa parada. Resultado: ela estava exatamente na posição certa quando o menor dos vira-latas resolveu tirar um cochilo sobre as costas do amigo porco.
 
Eu fiz algumas boas imagens dos moradores locais. Nenhuma delas, porém, sequer se aproximava da composição que imaginei quando percebi os bichos através da janela do veículo. Essa foto pré-concebida na minha mente, depois vi, foi parar na digitalzinha da Valéria. E não por acaso. Ela teve paciência e seguiu abordando a situação concentrada no objetivo até o momento decisivo. Ou seja, deu todas as chances necessárias à sorte e soube responder rapidamente quando esta apareceu – regras fundamentais para a boa fotografia documental.
 
Uma hora depois, fui o último a subir no carro. Estava sem a foto e com o calcanhar meio doído pelas duas mordidadas que levei do porco.
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