Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

Luciano Candisani

t

Expedição Bodoquena-Pantanal

por Luciano Candisani em 15 de dezembro de 2015

No início de outubro de 2008, mostrei, aqui no Blog, alguns momentos da expedição fotográfica de 11 dias, entre o Planalto da Bodoquena e o Pantanal da Nhecolândia, no Mato Grosso do Sul.

Foto: Ariranha, no Rio Negro.

Na ocasião, destaquei as peculiaridades de uma viagem pelas estradas semi-submersas após as primeiras fortes chuvas da temporada molhada na região – no último trecho do percurso, me lembro bem, eu e o biólogo George Camargo, chegamos ao destino completamente cobertos de lama depois de desatolar o jipe várias vezes.

Foto: O voo da curicaca diante de um paredão de calcário, na Bodoquena.

Foto: O dourado nas águas protegidas na RPPN Rio da Prata, em Jardim.

Sujos, molhados, mas felizes por estarmos ali, uma região onde a natureza ainda está no controle e o homem parece ter encontrado um equilíbrio estável com o ambiente. Coisa rara de se ver.

Foto: Biguatinga secando as penas após um mergulho.

Foto: Capivaras na margem do rio.

Hoje, apresento parte dos resultados do trabalho. O objetivo, proposto pelo grupo ambientalista Conservação Internacional Brasil, era produzir uma interpretação visual sobre a biodiversidade do corredor ecológico Bodoquena-Pantanal.

Foto: Mutum Macho.

Foto: Lontra no Rio Negro.

Os especialistas em conservação são unânimes: não é possível proteger o Pantanal sem trabalhar também no Cerrado ao redor, onde brota boa parte da água responsável pelo balanço hídrico na planície inundável.

Daí nossa jornada estender-se das nascentes cristalinas da Bodoquena até a Nhecolândia, uma das áreas mais preservadas do Pantanal.

Foto: O biólogo George Camargo (CI-Brasil) observa um cardume de piraputangas. RPPN Rio da Prata, Jardim.

Nesse trabalho, não me preocupei em fazer um registro didático sobre a expedição, ou um inventário visual das espécies importantes no ecossistema.

Foto: Talha mar pescando.

Ao contrário, voltei minhas lentes para captar momentos capazes de evocar a relação de interdependência entre as espécies; e delas com seu meio ambiente.

Foto: O namoro das antas no Rio negro.

Aí está, na minha opinião, a essência da mensagem conservacionista no que se refere a importância da manutenção da biodiversidade.

O início gelado

por Luciano Candisani em 21 de julho de 2015

Em outubro de 2007 fui convocado para uma missão diferente pela National Geographic. Desta vez não viajaria de barraca nas costas para o isolamento de nenhuma floresta remota a bordo de um jipe sacolejante. Ao contrário, embarcaria numa van em direção a uma aconchegante pousada em Paraty para apresentar um áudio-visual sobre o meu trabalho na revista ao público do principal festival internacional de fotografia do País, o Paraty em foco. Depois da projeção, participaria de uma entrevista aberta junto com o Diretor geral de fotografia da National nos EUA, David Griffin, e o redator-chefe da edição brasileira, Matthew Shirts. Na platéia, o editor senior Ronaldo Ribeiro e centenas de outros profissionais renomados do Brasil e do exterior.

Felizmente, o seleto público recebeu muito bem o meu trabalho e logo veio o debate. E a surpresa. A primeira pergunta do mediador foi logo dirigida a mim, e veio direta, sem rodeios: “E você, de onde veio?”

Para o meu próprio espanto, comecei a responder imediatamente, como se tivesse alguma resposta óbvia guardada no inconsciente. Fiz uma breve descrição do início da carreira , como fotógrafo de expedições científicas, até chegar à minha grande chance profissional: as duas expedições de dois meses cada para a Antártica, em 1996 e em 1997. E sem saber mais o que dizer, conclui com a propriedade dos que acabam de descobrir algo inusitado: “eu vim do gelo!?”

Só depois do evento, percebi o quanto aquela resposta “sem querer” era única e verdadeira. A minha jornada profissional na fotografia de natureza tinha mesmo começado de verdade entre icebergs e neve. A oportunidade surgiu em meados de 1995. Na época eu vinha cursando biologia na USP e trabalhava como fotógrafo de expedições no Instituto Oceanográfico, no Litoral Norte de São Paulo. Eu estava ali quando a Dra. Mônica Petti, veio com a novidade: “precisamos de um fotógrafo mergulhador para documentar a vida submarina na Antártica (isso mesmo, debaixo do mar congelante) aceita?”

Que pergunta. Vou agora se for preciso!. Aos vinte e poucos anos, eu não costumava fazer muitos cálculos de riscos. Eu já tinha experiência em mergulho técnico e aquela era uma chance única , um sonho. E isso bastava para a decisão. Três meses depois eu estava entrando na água diante do olhar incrédulo dos pinguins.

Na vida real, embaixo das águas geladas e tempestuosas das Ilhas Shetland do Sul, nas proximidades da passagem de Drake, muitas vezes foi difícil manter a empolgação daqueles primeiros momentos. Até o idealismo pode sucumbir ao desgaste físico e psicológico de mergulhos sucessivos de 30 a 40 minutos abaixo de zero, com mãos e pés duros de frio, câmeras alagadas, roupas rasgadas pelo gelo, reguladores congelados e a preocupação constante com as mudanças repentinas do tempo. Mas, apesar das dificuldades esperadas, o objetivo principal foi cumprido. Voltei para o Brasil com registros inéditos de uma formação rara, uma espécie de “recife polar”, local onde as condições geográficas impedem a ação devastadora dos icebergs sobre o substrato submarino, proporcionando o crescimento de uma comunidade de invertebrados capaz de rivalizar em cores com os recifes tropicais.

O material resultou na publicação das minhas primeiras reportagens fotográficas relevantes e abriu caminho para a carreira sobre a qual eu falava naquela noite em Paraty. Eu vim do gelo, claro.

Categorias
Tags

O porco e o vira-lata

por Luciano Candisani em 14 de junho de 2015
© Valeria Forner
 
Não, essa incrível fotografia não é minha. Eu apenas estava perto da jornalista Valeria Forner quando ela fez a imagem. Momentos antes desse clique, eu e ela viajávamos no banco de trás de uma van junto a um grupo de jornalistas escalados para conhecer a reserva do Patrimônio Natural da Serra do Tomabador, em Cavalcante, Goiás (veja os dos últimos posts). Ao passarmos pela comunidade São Domingos, nossos olhares foram quase simultaneamente atraídos para o quintal de uma casa na beira da estrada de chão. Ali, um porquinho brincava com três ou quatro cachorros como se fosse um deles. Uma cena que fala muito sobre a vida no sertão e a proximidade das pessoas com os bichos, um daqueles momentos típicos do interior do país.
 
Paramos o carro. Desci rapidamente com uma pesada Nikon D3 pendurada no pescoço e mais flash e outra objetiva no bolso. Valeria, uma profissional do texto, veio atrás. Discreta, ela carregava apenas uma digitalzinha de bolso. “Só preciso de alguns registros” me disse ela. Começamos a trabalhar. A princípio todas as atenções voltadas para o porco que pensava ser um cachorro. Mas ele logo ficou tímido, parou de brincar e a cena se dispersou. Enquanto isso, meu olhar foi se desviando para outras coisas ao redor e, sem paciência para esperar a vontade dos bichos, passei a fotografar outros temas.
 
Valéria fez o mesmo, mas logo voltou ao que realmente havia motivado a nossa parada. Resultado: ela estava exatamente na posição certa quando o menor dos vira-latas resolveu tirar um cochilo sobre as costas do amigo porco.
 
Eu fiz algumas boas imagens dos moradores locais. Nenhuma delas, porém, sequer se aproximava da composição que imaginei quando percebi os bichos através da janela do veículo. Essa foto pré-concebida na minha mente, depois vi, foi parar na digitalzinha da Valéria. E não por acaso. Ela teve paciência e seguiu abordando a situação concentrada no objetivo até o momento decisivo. Ou seja, deu todas as chances necessárias à sorte e soube responder rapidamente quando esta apareceu – regras fundamentais para a boa fotografia documental.
 
Uma hora depois, fui o último a subir no carro. Estava sem a foto e com o calcanhar meio doído pelas duas mordidadas que levei do porco.
Categorias
Tags

RPPN Serra do Tombador, esperança no Cerrado

por Luciano Candisani em 7 de junho de 2015

É um prazer especial fotografar paisagens protegidas dentro de reservas, especialmente no Cerrado, um bioma originalmente soberano no Brasil central e hoje reduzido a manchas isoladas. Pois tudo o que vi e registrei em 2010, durante três dias de caminhadas pela Serra do Tombador, em Cavalcante, nordeste de Goiás, está, desde 2007, nos limites da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Serra do Tombador, criada pela Fundação O Boticário numa área de 8.902 hectares.

Comprada com o apoio da ONG ambientalista The Nature Conservancy, a reserva tem o objetivo de trazer facilidades para a pesquisa na região e incentivar a conservação nas propriedades vizinhas. “Pretendemos ajudar a aumentar as áreas protegidas ao redor da Chapada dos Veadeiros, que ainda abriga importantes remanescentes de Cerrado em bom estado”, me explicou o engenheiro florestal Gustavo Gatti, coordenador do núcleo de áreas protegidas da fundação.

A principal dessas áreas citadas por Gatti é o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Essa unidade nasceu em 1961 com mais de 600 mil hectares, mas após várias diminuições, conta hoje com apenas 1/10 dessa área original. Porém, considerando que apenas 5% do depauperado Cerrado conta com remanescentes maiores do que 2000 mil hectares, Veadeiros representa, de fato, uma das mais expressivas extensões contínuas do que resta desse bioma.

Nos seus 60.514  hectares atuais, os típicos campos e florestas de árvores baixas  habitadas por uma grande diversidade de fauna, permanecem relativamente protegidos das ameaças dos arredores: desmatamento, carvoarias, minerações, abertura de pastagens, queimadas criminosas e caça. Isso não é pouco, mas os especialistas em biologia da conservação são unanimes em confirmar a insuficiência da área para sustentar a longo prazo a saúde do ecossistema ali protegido.

Fica evidente, portanto, a premência de promover a expansão da área protegida. No Cerrado, os fazendeiros são obrigados a preservar integralmente a cobertura florestal em 20% de sua área. Mas não há critérios estabelecidos quanto a melhor localização e manejo para tais reservas obrigatórias e o que se vê hoje são mosaicos de pequenas matas desconectadas. Estudos para o planejamento e apoio  a manutenção dessas reservas legais estão entre as ações prioritárias  na pauta das pesquisas a serem desenvolvidas na RPPN da Serra do Tomabador. Quando esses planos forem implementados, o Cerrado contínuo protegido ao redor da Chapada dos Veadeiros poderá mais que dobrar de tamanho. Só a área da etnia Kalunga, legalmente demarcada na vizinhança do Parque, são 60 mil hectares obrigatoriamente destinados à preservação.

A perspectiva é animadora. Ainda é possível evitar em Veadeiros o que aconteceu, por exemplo, no Parque parque das Emas, que tem seus 120 mil hectares de Cerrado ilhados por centenas de quilômetros de lavouras e pastagens. O tema é recorrente aqui no blog. Veja também os posts:

Cerrado, um drama em silêncio

Cerrado, conhecer para conservar

Parque das emas, uma ilha no sertão

A caminho da RPPN Serra do Tombador


Comunidade no caminho para a reserva da serra do Tomabador


Comunidade no caminho para a reserva da serra do Tomabador


Comunidade no caminho para a reserva da serra do Tomabador


Comunidade no caminho para a reserva da serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador


RPPN Serra do Tomabador

Encontro com “Ari”

por Luciano Candisani em 24 de fevereiro de 2015

O e-mail do fotógrafo Daniel de Granville tinha poucas palavras. Apenas duas linhas recomendavam a abertura dos anexos. “Veja”, ou algo assim, dizia o texto. Curioso, segui as instruções. E mal pude acreditar quando a imagem cresceu no meu monitor: eram belas fotografias de uma ariranha nadando em água cristalina, num cenário tão belo quanto improvável para a espécie: o Rio Olho D’água, em Jardim, no Mato Grosso do Sul. Incrível, eu só tinha visto algo parecido quando, anos atrás, num sensacional golpe de sorte, uma ariranha  apareceu diante da câmera de um cinegrafista francês no Rio Sucuri, no município vizinho de Bonito.

Ariranhas são essencialmente aquáticas. Moram nas barrancas dos rios e comem peixes, muitos deles, algumas vezes ao dia. Ou seja, boa parte da vida dessas criaturas se passa debaixo da água. Porém, como em seus domínios – os rios do Pantanal e Amazônia – a água normalmente é bastante turva, imagens subaquáticas da espécie em ambiente natural são raridade.

A mensagem do Daniel me pegou de saída para uma pauta no Pantanal, com ariranhas na lista de prioridades! Nas horas seguintes, trocamos  mensagens e meu amigo ficou de me avisar sobre as novas aparições do “Ari”, como fora batizado o pequeno macho.

Só voltei a falar com Daniel 15 dias mais tarde, de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Cheguei na rodoviária da cidade às 8h, depois de ter passado a madrugada fotografando anfíbios na fazenda Nhumirim. Ele não tinha boas notícias: as avistagens da ariranha tinham rareado. Relaxei e entrei no primeiro ônibus para o aeroporto de Campo Grande. Dormi profundamente até a cidade de Miranda, quando fui surpreendido por uma ligação do Daniel: “O Ari foi visto hoje pescando no rio”, relatou ele com voz animada. Eram cinco da tarde.

“E agora?”, pensei. A avistagem não garantia a presença do animal no dia seguinte. Viajar até lá seria uma aposta, no mínimo, arriscada.

Resolvi tentar. Na escala seguinte, Aquidauna, saltei do ônibus, passei meus 100 quilos de bagagens para um táxi e segui para a cidade de Jardim. Nos dois dias seguintes, eu e Daniel passamos, ao todo, cerca de 13 horas dentro do Rio Olho D’água, na fazenda Rio da Prata, e tivemos apenas dois encontros bem rápidos com o “Ari”.

Consegui apenas dois retratos simples, mas valeu a pena. Afinal, trata-se de uma ariranha em seu mundo subaquático, coisa rara de se ver. E, além disso, a paisagem submersa do Rio Olho D’água figura entre os mergulhos mais espetaculares do mundo – não foi sacrifício algum ficar ali horas seguidas. No próximo post, vou mostrar imagens que fiz enquanto esperava a passagem do “Ari”.

Equipamento:
Canon 5D markII, objetiva 16-35 f2.8L, caixa estanque aquática com domo de 9 polegadas, dois flashes manuais Sea&Sea 120.

Categorias
Tags