Luciano Candisani
O sorriso do jacaré
As fotografias dos jacarés nas capas do livro Pantanal, na linha d’água e da edição de março de NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL vêm despertando uma curiosidade imediata nas pessoas: a que distância essa imagem foi feita? Você estava dentro d’água? Na frente do bicho?
A resposta surpreende a maioria: eu estava deitado de barriga no fundo de um trecho muito raso de rio, bem na frente do animal. Dessa forma, com os braços esticados, pude posicionar minha câmera subaquática a poucos centímetros das bocarras abertas.
Ao contrário do que os dentes afiados sugerem, a situação não envolve um risco extremo.
Na verdade, o que me permite trabalhar em segurança a curta distância com esses predadores é a “descoberta” de um comportamento que notei quando fazia uma matéria sobre raias, no Pantanal, tempos atrás.
Na ocasião, ao me deparar com um jacaré – enquanto focava na tarefa de achar raias camufladas no fundo do rio – senti medo. Era um animal de dois metros e estava de pé, com as patas traseiras apoiadas no fundo e a cabeça rente à superfície, só os olhos para fora. A boca toda aberta.
Passados alguns minutos, já refeito do susto daquele encontro inesperado, tentei uma aproximação para fotografar. Pensei que ele fosse fugir ou, talvez, esboçasse alguma agressividade. Mas não foi o que aconteceu. Cheguei bem perto, fiz a foto e nada de reação.
Foi então que percebi o motivo daquele comportamento indiferente: o jacaré estava concentrado em um enorme cardume de peixes que passava por ali. Isso porque ele é um predador oportunista, que ataca sua presa quando o sucesso da empreitada lhe parece certo. Naquela situação, os peixes passavam, literalmente, por dentro da sua boca. Era um banquete irresistível demais para ser interrompido.
Não fiz uma grande foto naquele primeiro encontro. Mas percebi que se me deparasse com outras situações de “pescaria”, poderia fotografar os detalhes da vida subaquática dos jacarés em segurança.
Deu certo. Na semana produzi um ensaio em profundidade da vida desconhecida dos jacarés no fundo dos rios do Pantanal. Depois ainda fiz outras viagens com essa finalidade específica. Ao todo, passei dezenas de horas com esses animais na água, e apenas alguns poucos indivíduos foram de fato agressivos. A presença de um assistente pantaneiro experiente e de especialistas na espécie também foi fundamental para encurtar a distância ente a câmera e os dentes afiados dos jacarés.
A foto da raia ou a raia da foto?
Nesse terceiro post da série sobre as fotografias do livro Pantanal, na linha d’água o tema é a raia, esse peixe achatado feito uma bolacha e temido pelo ferrão venenoso que traz na cauda. Pisar num desses é um dos maiores pavores dos pantaneiros, obrigados a andar com a água na altura dos joelhos pelos campos alagados na época da cheia.
A camuflagem perfeita torna esse animal quase invisível , especialmente em fundos de areia e lama. Para encontrar raias escondidas contei com a ajuda de um pescador local muito experiente . Ele, na verdade , encontrou várias delas. Mas apenas uma estava em posição adequada para a fotografia que eu imaginava: a raia no raso, bem iluminada e a vegetação da margem na parte de cima da composição.
O resultado do achado é a fotografia acima, publicada na página 172 do livro e também na abertura da seção Portfólio, na edição 156 de National Geographic Brasil, nas bancas.
A segunda fotografia aqui da sequência apresenta exatamente os procedimentos de trabalho para a foto acima. É interessante notar como a imagem final, a publicada, mostra pouco, ou nada, da situação real do lugar e do peixe. Ela está muito mais próxima das raias do meu imaginário. Trata-se da raia da foto mais do que a foto da raia, creio.
Uma árvore no fundo da água
No post anterior, mostrei a fotografia de uma nuvem de tempestade impregnada de uma forte mensagem sobre o poder das chuvas no Pantanal. É um “rio voador”, me disseram, depois, leitores especialistas no assunto. Hoje, neste segundo texto da série com as histórias das fotografias do livro Pantanal, na linha d’água*, não me distancio do tema do regime hídrico na grande planície e tampouco daquela nuvem peculiar.
Essa árvore submersa fora fotografada no dia seguinte àquela tormenta, em 8 de junho de 2011, no mesmo rio, o Touro Morto, durante o auge de uma das maiores cheias já registradas na região. Na minha visão, essa imagem da árvore também apresenta claramente a água como o elemento controlador da vida pantaneira.
Pelo menos foi isso que senti quando, mergulhando nos campos alagados para além da margem afogada do Touro Morto, notei essa planta típica de terreno seco com sua copa visitada por peixes. Foi “amor à primeira vista”, mas chegar na composição ideal foi um desafio à paciência: um emaranhado de cipós, raízes e vegetação aquática formava uma barricada caótica ao redor da cena e a visibilidade da água não passava de dois metros. Qualquer tentativa de produzir uma imagem minimamente organizada e clara passava por vencer esse obstáculo – e sem levantar o sedimento do fundo, para não turvar ainda mais ainda a água.
Com muito esforço cheguei na posição apropriada me esgueirando na trama vegetal. Cheguei, mas sem vencer os cipós. Ao contrário, fiquei completamente enroscado neles e, pior, levantei uma densa nuvem de “poeira” que reduziu meu campo de visão a um palmo.
Essa manobra toda, dificultada pela forte correnteza do rio, durou cerca de 40 minutos e consumiu todo o ar que restava no meu cilindro de mergulho. Quando finalmente a “poeira” assentou, já não vinha ar no regulador, cilindro zerado. Mas como o local era muito raso, pouco mais de um metro, coloquei o snorkel na boca e passei a respirar por ele. Tomava o ar na superfície, baixava lentamente o corpo, fazia uma foto, voltava a superfície, baixava de novo tentando não mexer o fundo, esperava um pouco, outra foto.
E foi assim, depois de hora e meia nesse procedimento cômico, com frio, fome, um cilindro de ar vazio nas costas, preso numa rede vegetal e respirando precariamente por um snorkel, que consegui a composição que imaginei quando vi aquela árvore no fundo da água.
* O livro Pantanal, na linha d’água será lançado no dia 14 de março às 19 horas, na livraria Fnac da Avenida Paulista.
Como uma nuvem no céu
Esse post inaugura uma série de textos com as histórias por trás das principais fotografias do livro Pantanal, na linha d’água, meu trabalho mais recente para a National Geographic, com lançamento em 14 de março. Essa imagem da nuvem de chuva está no primeiro capítulo e, não por acaso, fora escolhida para essa primeira crônica. Acho que ela diz muito sobre a prática do jornalismo na natureza.
É uma fotografia fundamental dentro da proposta do livro: evocar a magnificência da água na maior planície inundada do planeta. Nela, a força da nuvem, seu formato inusitado e dinâmico, o abutre de asas abertas, todos os elementos trabalham para, a um só tempo, atrair o olhar do leitor e trazer a importância da chuva num ambiente onde a vida é controlada pela água.
Muito planejamento, esforço e tempo foram necessários para cumprir essa pauta. Mas os momentos fundamentais da narrativa final, essa nuvem entre eles, tiveram, em sua maioria, uma existência efêmera. Cinco minutos: esse foi o exato intervalo de tempo entre a formação e completa dissipação do céu dramático captado nesta imagem. E o abutre esteve planando na composição por um minuto, talvez.
E tudo aconteceu quando o objetivo nada tinha a ver com céu ou chuva. Ao contrário: ao me deparar com essa chance, estava a bordo de uma lancha da polícia ambiental em busca de águas claras no rio Touro Morto, Pantanal do Miranda. Tudo vinha preparado para fotos subaquáticas; câmera na caixa estanque, cilindros e demais equipamentos de mergulho cobrindo cada espaço da da lancha.
Mas, ao alcance da minha mão, pronta, estava uma Nikon D700 com uma objetiva zoom 24-70 2.8, que separei para um momento que pudesse aparecer fora d’água, nunca se sabe…
Quando vi a nuvem se formando, pedi para o nosso piloto parar o barco. Tirei a D700 da bolsa e, em menos de um minuto, já estava fotografando a cena enquanto as primeiras gotas de chuva caiam sobre nós. Logo notei o abutre planando e mal pude acreditar na sorte quando ele passou a voar ao longo da formação.
Fiz a foto e, no mesmo momento, sabia que ela seria importante no livro. O que eu não podia prever naquele momento é que não encontraríamos as tão esperadas águas claras durante aquela viagem especialmente planejada para mergulhos.
Na natureza, onde boa parte dos eventos relevantes tem ocorrência tão fortuita quanto efêmera, é preciso estar pronto para responder o mais rápido possível diante das oportunidades que surgem. Elas podem ser tão únicas quanto o formato particular de uma nuvem no céu.
Palestra no Planeta no Parque, o Caminho das Águas
Comecei minha jornada pela fotografia no fundo do mar aos 15 anos de idade, inspirado pelas histórias que via em National Geographic e nos documentários de Cousteau. Nesse tempo, com uma câmera anfíbia na mão, a Nikonos V, perambulava pelo litoral de Ilhabela , onde vivo, até Angra dos Reis (RJ), em busca do tema que se transformaria em profissão.
Mais tarde, passei a me interessar também pelas florestas e campos , pelos grandes espaços naturais em geral. Mas a água permaneceu como um fio condutor, um elo de ligação entre todas as minhas imagens. Amanhã (25/01) e sábado (26/01), estarei no evento Planeta no Parque - o Caminho das Águas, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. E vou falar exatamente sobre o meu trabalho em National Geographic, tendo a água como fio condutor, naturalmente. As projeções, com fotos e suas histórias, acontecem na Marquise, a partir das 17 horas. Até lá!


