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Maurício de Paiva

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Fotografia e arqueologia em São Paulo

por Maurício de Paiva em 21 de fevereiro de 2012

Antes que as imagens predominem neste espaço, permita-me, leitor, uma apresentação. Colaboro com NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL desde 2004, sendo autor de diversas reportagens que, além de propagarem a revista como título que valoriza a arqueologia, também ajudaram a consolidar meu projeto pessoal: aliar a fotografia com pesquisa antropológica e arqueológica.

A arqueologia tem sido base de muitos de meus trabalhos na Amazônia, e por vezes, até mesmo em São Paulo. Atualmente, eu e o editor Ronaldo Ribeiro estamos trabalhando na produção de um grande ensaio sobre os sítios históricos e o trabalho dos arqueólogos na metrópole – sim, eles estão presentes e são necessários no dia a dia urbano, ao contrário do que muita gente imagina. Dias atrás, os estudantes Camila Fragazi, Davi Frutuoso de Oliveira, Déborah Lilian Silva Santos e Thamires Aparecida Clemente – todos participantes do projeto Narrativas Visuais, da Praça Victor Civita, da Editora Abril – estiveram conosco em uma etapa da produção dessa pauta de NATIONAL GEOGRAPHIC. O cenário: as ruínas de uma fábrica centenária de cimento em Perus. Meu recado aos jovens fotógrafos assim que chegamos lá foi: “Esse é um lugar misterioso e homogêneo. O desafio na fotografia aqui é limpar o caos e trazer alma!”

A fábrica de cimento da The Brasilian Cement Company foi erguida no bairro de Perus – periferia isolada pelo cinturão verde da serra da Cantareira e o vale do rio Juquery – em 1914, fruto de uma estratégia de ocupação advinda da construção da Estrada de Ferro Perus- Pirapora. A fábrica atendia na época a um mercado que precisava de cimento suficiente para atender a construção de edifícios, túneis, bibliotecas, estradas, fábricas e viadutos. O começo do século 20 foi um período de desenvolvimento acelerado da cidade; a população de São Paulo saltava rapidamente de 600 mil habitantes para mais de 3 milhões.

A arqueologia é a área do conhecimento que estuda as sociedades do passado através dos vestígios por elas deixados. Sendo assim, a fábrica abandonada de Perus é um fascinante convite à documentação da arqueologia industrial urbana. Caminhando naquele território de solidão, ministrando o estágio aos quatro jovens, tentei estimulá-los a descobrir caminhos para trazer à tona a estética antiga. “A fábrica remete à ideia do cotidiano operário que, no início do século passado, empregava ex-agricultores, mulheres e crianças em meio a todo o maquinário importado. Foi uma época de crescimento às custas da industrialização”, nos explicou a amiga e arqueóloga Paula Nishida, pesquisadora responsável no Sítio Morrinhos, também visitado pelo grupo.

Um dos preceitos da revista, desde sua fundação como sociedade científica e educacional, em 1888, é: propagar, inspirar e explorar o conhecimento. Eu, Camila, Davi, Déborah e Thamires e Ronaldo tivemos a chance rara de estar em um lugar incomum. Em grupo, pudemos até mesmo nos aventurar a subir andaimes e escadas de ferro antigas para conseguir uma boa imagem. Nas vezes em que estive lá sozinho, sempre nos fins de tarde, a luz era vaga nas sombras da ruína. Pichações contemporâneas de cruzes invertidas (uma alusão ao “anti-cristo”, me ensinou Davi) tornavam o cenário ainda mais sombrio. E me induziam a pensar na metrópole mutante que se esvai-se, se ergue e se destrói sem parar… De quando em quando, um trem da CPTM surgia no horizonte de Perus para marcar o tempo de minhas fotos, vislumbres e devaneios. Mal sabia que meu retorno à fábrica, exercitando profícua cidadania, seria junto a esses interessados alunos paulistanos.

Visão do sítio Morrinhos, que fora abrigo de monges beneditinos no séc. XVII

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A Fábrica “Cimento Perus”, que funcionava desde a década de 20. 'Arqueologia industrial' será feito

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As ruínas não conservadas da fábrica. Em primeiro plano, o laboratório para análises do cimento.

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Pichações contemporâneas mostram um dinamismo de ocupação na cidade que se reinventa

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As alunas Camila Fragazi, Thamires Aparecida e Déborah Santos fotografando no dia do estágio.

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Um dia de campo numa pauta urbana para National Geographic Brasi - projeto “Narrativas Visuais”

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O laboratório e o que é perene dele

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Conseguir o exercício fotográfico é gratificante, David e Thamires aprumaram suas percepções

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Ronaldo Ribeiro, editor de National Geographic Brasil, presença singular no estágio de fotografia

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Proposta de exercício misto no uso do flash e tripé com luz natural e modelos para remeter à ideia arqueológica

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Repentinamente, uma luz de sol refletida invadiu a tomada. A dinâmica em lidar com locação externa

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David Frutuoso, mais expansivo e disposto, dirigido por Déborah e Camila, altivas por trás da lente

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Exposição “Escavando o passado”: Urna funerária encontrada no Brás, em 1896. Acervo MAE/USP

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Comentários (1)
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  • Por: You
  • -
  • 14 de setembro de 2012 às 4:35

I’m really irsesempd with your writing skills and also with the layout on your blog.Is this a paid theme or did you modify it yourself?Either way keep up the nice quality writing, it is rare to see a great blog like this one these days..Best Regards Yoder