Maurício de Paiva
Reflexões após o Carnaval
Prezo literatura como cortejo e desfilamento; vejo sempre nessa imagem, dela, imagens fantasia. E como muitas vezes é “fio condutor” para o pensar fotográfico! O escritor Italo Calvino, em “Cidades invisíveis”, conta o que um viajante enfrenta em terras longínquas: “A mudança não concerne às palavras, mas às coisas…”
Mudo um pouco o rumo neste segundo post – apesar de prosseguir a falar do passado, literalmente. Consciente, retomarei mais a frente o tema da arqueologia (…), de viagem e conexões fotográficas numa Amazônia “longínqua”, como artefato cultural visual etc, ao qual tenho me dedicado nos últimos anos.
Pois, a celebração foliã carnavalesca já se findou no país e, revendo um material já “vestígio” que produzi em 2011 no Sambódromo do Anhembi (SP), pensei a calhar na musica “Fado tropical”, de Chico Buarque com o cineasta Ruy Guerra no disco Calabar:
Oh, musa de meu fado/ Oh, minha mãe gentil/ te deixo consternado/ No primeiro abril/ Mas não se tão ingrata/ não esquece quem te amou/ E em tua densa mata/ Se perdeu e se encontrou/ Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal/ (…) Ainda vai tornar-se um império colonial.
Minha família é, como a maioria no sudeste, de origem lusitana (e calabresa, italiano). No primeiro caso, afeitos ao lirismo, deslizantes à exploração, à aventura, ao sentimentalismo, à ironia, arbitrariedade, à plástica social, teimosia, à idiossincrasia e a quem numa bravata até arrebata um beijo! Meu avô Jorge Felicíssimo era cordial, mas autoritário com as filhas e rígido nos carnavais da década de 50. Porém deixava minha mãe, Margarida Maria (última foto do post representada nas duas fotografias preto e branco nas mãos de uma amiga), sair no corso carnavalesco em cortejo sentada no pára-lamas de seu Renault Juvaquatre 1948, desfilando pela avenida 9 de julho. Nos anos 20 eram calhambeques.
Corso é o nome que se dava na virada do milênio – e até os anos 60 –, aos passeios das sociedades carnavalescas do século 19, escancaradamente reproduzindo os carnavais da França – certas permanências coloniais. A foto à esquerda (exibida na última imagem deste post), que data de 1952, mostra minha mãe, à espreita de óculos grossos na casa do alto da Lapa. Parece que leva nas mãos, marota e ingênua, o símbolo dos jovens na época, o “rodouro metálico”, um tubo (ou uma bisnaga?) para ejetar éter ou qualquer fluido, água, lança-perfume. Gelavam costas de adolescentes suaves e caretas nos bailes de salão com serpentinas e confetes coloridos, causando risos sensuais, longe da avenida, sem a alusão ao culto à imagem que vemos hoje nas escolas de samba.
Nesse tempo das marchinhas lascivas e do samba sassaricante, era preciso obedecer meu avô cristão indo à procissão “Encontro do Nosso Senhor dos Passos com a Nossa Senhora do Brasil” na igreja da Praça Portugal, na quaresma (na última foto do post, à direita, minha mãe traveste-se com sentido religioso e devoto), quando Cristo pressupõe sua volta no tal domingo da ressurreição.
Algum escritor consagrado já fez boa ode da festa e ritual do carnaval que diz mais ou menos: “… Haverá festas que, no fundo, não tenham uma ideia? Festas sem fundamento, festas irreais?” Aludindo ao antropólogo Roberto da Matta, se o carnaval pode abolir diferenças e contradições entre passado e o presente, a exemplo, o que ele explicaria do Brasil? Na São Paulo deste carnaval, a Gaviões da Fiel reverenciou a saga de Lula por meio da literatura de Cordel. A escola Águia de Ouro enredou a Tropicália e a morte do jornalista Vladimir Herzog (morto sob tortura na ditadura militar), a Dragões da Real fez homenagem às mães simulando um parto, a Mocidade Alegre homenageou o escritor Jorge Amado sob coreografia do mestre Sombra!
Bacana, positivo, mas no “tudo pode” e no avesso foi uma confusão que paralisou a apuração das escolas numa algazarra aparentemente iniciada por alguém da Império da Casa Verde. A coisa se espalhou pelo entorno do sambódromo, onde um carro alegórico representando um índio gigante da Pérola Negra foi queimado. Depois deu um vazio utópico na cidade.
Das contradições implícitas que suscitam da festa do Carnaval no sentido sócio-antropológico e de alguns clichês imagéticos, ideias e conceitos como liberdade e moralidade, religião, fetiches, libertinagem e tradição, hierarquias, poder, invisibilidade e máscara, improvisos e trabalho no olho do dragão da maior festa da terra, não sei bem o que pensa a geração ética de mamãe, que só frequentou bailes e blocos depois de casada, e agora vê tudo pela TV… em clima novelesco.
Entre tapas e beijos líricos, comuns à nossa mestiçagem, e o tal dito popular “aos trancos e barrancos”, típicos do cotidiano, afora o tom meio surrealista e exuberante dos desfiles e a historieta luso – familiar aqui colocada, fiz o ensaio como estética e despretensão, imagens que já são de outrora, ópio e pérola e vácuo, embora evoquem a folia da massa de corpos na cor e dinâmica de dias contemporâneos. Sempre me peguei num prazer fugaz de passar a madrugada junto a esse fenômeno antropológico chamado de Carnaval. Ter sido interím próximo à energia das pessoas, na concentração ou na avenida, já funciona mais como Instante contínuo (título de um livro de Geoff Dyer) do que como momento decisivo.


