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Maurício de Paiva

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Arqueologia e fotografia – Parte 1

por Maurício de Paiva em 30 de março de 2012

“Imagens, tais como os textos, são artefatos culturais. É nesse sentido que a produção e análise de registros fotográficos podem permitir a reconstituição da história cultural de grupos sociais e das relações interétnicas. O uso da imagem acrescenta novas interpretações da história cultural, aprofunda a compreensão do universo simbólico, constrói identidades (…)”. A antropóloga Sylvia Caiuby, da Universidade de São Paulo, reflete, no livro O Fotográfico, a imagem não apenas como mero e ilustrativo auxílio de pesquisa e ciência. Com sua força expressiva, a fotografia narra, é duma ciência quiçá mais crítica. Não se trata de sujeitar a criação estética ao pensamento conceitual, e sim pensar que a produção de imagens é uma forma contundente de conhecimento que pode conter riqueza e apreensão das coisas do mundo – questionando, até mesmo, a produção acadêmica. Separar seria sempre confrontar. Isso, nada tolo, se afirma no estupendo livro aqui citado, organizado por Etienne Samain, da Unicamp, fotógrafo belga. O ato criativo e convergente salienta-se: “No percurso dessas ciências que elegem o homem como objeto, (…) A separação ainda hoje é forte entre a arte e ciência que a confrontação é quase inexistente. Os artistas colocam em jogo na sua criação uma forma de conhecimento operacional que pode conter uma riqueza de análise que se afirma na positividade do ato criador, (…) é um pensamento que é seu próprio ato.”

Urna funerária antropomorfa da fase Guarita, datada entre os séculos 9 a 16. Acervo particular de Luiz Neves, de Urucurituba (AM)

Urna funerária incisa encontrada em contexto multicultural, típico da foz do Rio Amazonas da fase pré-cabralina. Escavação feita na UNIFAP (AP)

Muito já me questionei se fotografia – e alguma produção de conhecimento que dela provir, é arte, de fato. Em geral as pessoas dizem que estamos (fotógrafos) em crise. Prefiro refletir que a ciência, afora a bica da razão, por vezes poderia beber da água do niilismo, da intuição e reflexão, da sua propagação para a sociedade… Enfim.

Neste sentido, tenho mais olhar do que verbo (respostas) e título. Creio que tudo se conecta. Arqueologia é amplitude, entorno, tudo é; não é simples assunto que reflita ruínas nem retrato do passado. Não é história – ao contrário, é registro do presente, das vidas e/ou da arquitetura que se espalham ao redor dos sítios, em simbiose com o ambiente, afeitas ao cotidiano. O editor da National Geographic Brasil, Ronaldo Ribeiro, escreveu, certa vez: “Maurício possui uma ‘arqueologia visual’: suas imagens, plenas de subjetividade, revelam-se pródigas na missão de conectar épocas remotas, apagá-las, torná-las voláteis, lançando o espectador em uma espécie de vácuo onde tudo parece pairar acima de noções triviais de tempo e espaço.“ Solidarizo-me com esse parecer, em 2009, por conta do livro Amazônia Antiga, arqueologia no entorno (DBA Editora). Conheça mais aqui

Vestígios arqueológicos maracá em cavernas no Amapá remetem a quatro culturas após o século 11, até a chegada dos europeus. Caboclos são guardiões no sitio

Aproximar visualmente o antigo do contemporâneo pela fotografia é tarefa deveras difícil. Contrastante. Estar no sítio, in loco, e como dar conta das aparências (aparições?) do passado no simples congelamento do instante? Ou, como, continuamente, exibir sensibilidade arqueológica sem apenas mostrar os vestígios, ruínas? E será que luz e estética de uma foto feita de um fragmento pré-colonial é mera reprodução imagética acaso sem o afinco e reflexão do fotógrafo? O que são sítios arqueológicos senão registros estáticos, no presente, de histórias complexas que se deram remotamente? Ora… O feitio fotográfico como dípticos! “Correspondências” que se tencionam. Isso é o que procuro fazer. Em parceria sortuda com a pesquisa e informação, dar ao imprescindível alheio do tempo, dados culturais tecidos em cor-narrativa e na alegoria através da observação. Mas as coisas vão virando já vestígios… caverna.

Vaso raro da região dos sítios arqueológicos denominados geoglifos, no Acre, provável feitio por intercâmbio e em cerimonial

Geoglifos do Acre, sítios de valetas geométricas próximos à Bolívia; chegam a 300 metros de diâmetro. Parecem ter sido locais de sociabilidade e exclusão. Abandonados no séc. 16

Aplique cerâmico pré- histórico da escavação do projeto Baixo Sítio Rio Urubu (AM)

Estatueta antropomorfa da tradição tapajônica, Santarém (PA). Acervo do MAE/USP

Comentários (1)
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  • Por: Sumitro
  • -
  • 13 de setembro de 2012 às 23:41

d3timo exemplo da Mf4nica. Relata bem como e9 a eduae7e3o 1.0 dos dias de hoje. Muitos eduacdores ne3o saber trabalhar com o conceito de co-criae7e3o para desenvolver pensadores nas escolas. Mas isso e9 algo que vem de cima, de toda uma poledtica de informae7e3o que modelou a nossa sociedade assim. As escolas ensinam o modelo do mundo 1.0 para que os futuros trabalhadores sejam 1.0, ne3o questionem, somente executem. A internet veio para mudar isso. A oxigenae7e3o de toda a rede secial(sociedade) vire1 da necessidade de substituir esse modelo atual por um mais colaborativo, o mundo 2.0 que flamos nas aulas e aqui no blog!