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Maurício de Paiva

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Fotografia do alto e arqueologia no Acre – parte 2

por Maurício de Paiva em 2 de maio de 2012

Fiz um sobrevoo no panorama dos geoglifos do Acre, na Amazônia ocidental.  Foram 3 horas que voaram como nunca dantes. Estes sítios arqueológicos são estruturas de terras geométricas e valas (valetas), trincheiras, muretas/caminhos lineares e montículos escavados em solo de terra firme, argiloso e típico. Trata-se de uma vasta região com altitude de 100 a 200 metros, da várzea amazônica, nos Rios Acre e Purus, estendendo-se a leste sobre a Bolívia e oeste de Rondônia.

Se algo em nossos vislumbres faz aludir às contundentes linhas de Nazca, no Peru, legado estético–estratigráfico monumental da cultura pré-incaica Nazca (em torno de 600 a.C. a 800 d.C.) e Paracas, não seria à toa uma conexão quase estigmatizada. Mas muito difere delas e não tenho propriedade acadêmica aqui para refletir sobre isso.

São prerrogativas e “arqueologias” diferentes entre si, outra historia e outras estórias… na Amazônia tupiniquim, foram chamados assim por suas grandes dimensões, visíveis somente do alto (diâmetros de 70 a 380 metros). Parecem ter sido locais de encontro, de realização de cerimônias ou centros intercambiais com poucos vestígios (cerâmica, lítico, carvão) e artefatos artísticos – culturais, se comparados a regiões como a ilha de Marajó ou o médio e baixo Rio Amazonas, com muita cerâmica icônica exemplar.

Mais de 150 dessas estruturas foram prospectadas e identificadas para pesquisa. São círculos perfeitos ou retângulos e figuras de vários lados com mais de uma geometria (“Deu no NYT”). Ao que parece, os mesmos significados simbólicos permeavam essas construções, o que sugere a disseminação da mesma cultura e do mesmo comportamento.

Sobre isso, a arqueóloga Denise Schaan, no livro Geoglifos, Paisagens da Amazônia Ocidental, em parceria com o paleontólogo Alceu Ranzi, denota: “A importância desses sítios é inequívoca, pois o trabalho envolvido em sua construção por indígenas que ali viveram há dois mil anos, sem ajuda de modernas ferramentas para transportar toneladas de solo, indica que teria sido necessário esforço de muitos braços e planejamento meticuloso. Se pensarmos que para construir tais recintos seria preciso derrubar a floresta, teremos a exata dimensão do esforço dos grupos humanos que só tinham à sua mão machados de pedra.”

E, alcançando a verdadeira reflexão, Schaan escreve mais: “ O estudo dos geoglifos nos faz refletir sobre duas dimensões da vida humana – o espaço e o tempo – que de fato não devem ser dissociadas. As paisagens são produto da modificação e apropriação das sociedades humanas no seu entorno  ao longo do tempo e nos mostram quão tênue é a linha que separa natureza e cultura, se é que ela existe. As paisagens Acreanas são paisagens antropogênicas que oferecem hoje um belo espetáculo aos olhos, que contemplam a engenhosidade dos que ali viveram muito antes que essa terra se chamasse Brasil.” Sobre isso, aliás, friso uma entrevista com o premiado jornalista correspondente da Science e da National Geographic Americana, o escritor Charles Mann, autor de 1493 e 1491: Novas revelações das Américas antes de Colombo.

O estado do Acre é representativo para a bacia Amazônica. Lá não é apenas a ode de Marina Silva. Em 23 de janeiro de 1990 foi criada a Reserva Extrativista do Alto Juruá. A primeira unidade de conservação com meio milhão de hectares que passou do controle de patrões para Terra da União, ao usufruto coletivo de moradores e seringueiros. Quando a palavra “reserva” veio a público em 1985, dita por Chico Mendes, em Brasília, indicava que as terras de seringueiros deveriam ter a mesma proteção que reservas indígenas, por exemplo. Hoje, a Amazônia concentra 23% dos mais de 300 pedidos ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), vinculado ao Ministério Federal. São, de quina, atuais 68 Resex (Reservas Extrativistas), cobrindo uma área a mais de 13 milhões de hectares, 2,4% da Amazônia Legal.

A vista aérea que regrei no voo, deslumbrado, nada deve ao altiplano de Nazca e suas linhas infinitas. Tem a ver com meu campo de visão, que se estendeu até um horizonte enigmático e “desértico”, desmatado também, verdíssimo e eloquente, difícil de trabalhar com uma câmera por conta da ventania e do desequilíbrio na porta aberta da aeronave, fácil de se perder em imaginações além fronteira.

Eu poderia dizer  que a própria fotografia – e seu prisma “limitado” de recorte do campo de visão do equipamento – sempre é simulacro, que pode ser revertido com fotos sequenciais. Tudo me foi alegoria, pleno exercício mental e de prazer do olhar, memorial do que já havia lido a respeito. A geometria, as formas, a assimetria de linhas paralelas, os chumaços de gado branco na pastagem, a mata em partes, os sítios aparecendo como catapulta, a noção de latinidade… Os entornos do passado e do espaço no tempo, a paisagem dinâmica, enfim, posta divina à brincadeira de voar como capitães.

Tudo é muito sério nesse quintal de várzea e terra e águas e mata e tino pré–colonial. A Amazônia tem ao menos 12 mil anos de ocupação humana, essa chave é prata da casa e transporte muito maior que aéreo. O gentio célere que conheci no chão, maioria vaqueiros e agricultores, no meio arqueado do fio arqueológico, fica pro próximo post, em forma de dípticos. Leia, no Blog da Amazônia, um post sobre o assunto.

*O trabalho fotográfico aéreo completo só foi possível porque a redação de National Geographic Brasil me enviou ao Acre e também com o apoio dos projetos de pesquisa arqueológica que envolvem a UFPA e UFA, o CNPq e o Governo do Acre

Início do sobrevoo com névoa matutina, perto de Rio Branco, Acre

O desmatamento revela sítios de geoglifos, estruturas de linhas geométricas por valetas, muretas e montículos feitos supostamente para serem centros cerimoniais

Os geoglifos estão próximos à fronteira com Bolívia, chegam a ter 300 metros de diâmetro e parecem ter sido locais de exclusão e socialização, abandonados no século 16

Estradas de chão batido, as vicinais ou "ramais" cortam os desenhos dos geoglifos

Quando há desmate, os sítios aparecem e, ironicamente, pesquisadores se deslumbram ao imaginar o que ainda há "por trás da floresta"

Fazendas de pasto, corte e engorda de gado no meio dos sítios arqueológicos

Seringal onde Chico Mendes trabalhou, em Xapuri

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