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Maurício de Paiva

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Pessoas em terra de geoglifos, no Acre

por Maurício de Paiva em 16 de maio de 2012

Estrada para Xapuri (Acre), sítio em que nasceu Chico Mendes

Se o estudo e a percepção dos geoglifos (estruturas monumentais antropogênicas no Acre, no post anterior) nos fazem refletir sobre duas dimensões da vida humana – espaço e tempo –, e as paisagens são produto da meiose e da transcendência/reinvenção das sociedades ao longo do tempo (como a própria arqueologia acalca e reflete), é interessante pensar quão navalhas e voláteis são as linhas que desconectariam natureza e cultura. Uma balela…

Dois mil e quinhentos anos atrás, o modo de vida ao longo da bacia Amazônica foi reorganizado, as grandes aldeias sedentárias e ceramistas cresceram por séculos. É neste cenário que os geoglifos se avolumam e se convalescem. É importante dizer que estamos falando de um “Brasil Amazônico” ocupado há mais de 12 mil anos (o Sítio “Caverna Pedra Pintada”, em Monte Alegre, no Pará, tem oficialmente 11.200 anos).

Sítios arqueológicos de 9 mil anos atrás são encontrados no Rio Caquetá (Colômbia), no alto Rio Madeira (Rondônia), na bacia do alto Orinoco (Venezuela), em Iranduba (próximo a Manaus), na Serra dos Carajás: ocupações incrivelmente diversas. A Amazônia brasileira detém os maiores sítios da América do Sul.

Porque falar do entorno dos sítios? Dos habitantes que interagem neles? Eu disse no post anterior que mostraria, neste, pessoas do chão dos geoglifos e não mais a visão aérea. Mas, antes disso, gostaria de promover um texto publicado na revista científica Amazônia. A resenha de Manoel Calado, da Universidade de Lisboa – e que também trabalha no Amapá e na Guiana Francesa –, reflete o livro Os Geoglifos do Acre, da arqueóloga Denise Schaan.

Ele é, embasado e em bom tom, controverso à nomenclatura “geoglifos”, como é possível ver no seguinte techo: “O leitor terá certamente reparado nas aspas que usei sempre que mencionei a palavra ‘geoglifos’; na verdade, na minha opinião, essa designação não será a mais adequada (…). Os monumentos do Acre apresentam diferenças notórias em relação aos verdadeiros geoglifos: não existem aqui os característicos desenhos zoomórficos de Nasca e estes, por outro lado, não implicaram o enorme esforço ‘construtivo’ que está patente em muitas das estruturas de terra amazônicas. É certo, porém, que, nos Estados Unidos da América (no Ohio), existem construções de terra representando figuras zoomórficas (forma animal) que, de algum modo, poderiam fazer a ponte entre as do Acre e as de Nasca.”

Voltando às fotos deste post – que a princípio comporiam uma fotorreportagem, mas ainda não as publiquei como tal –, nas fazendas de gado de corte, em meio aos geoglifos, no roçado de pequenos agricultores familiares, em bares de beira de estrada antiga e nevoada, no clima de desflorestamento, o homem retrabalha sua cultura e cotidiano ancestral, também o da sobrevivência num ambiente acre de ar, de história e de nome.

Em cada sítio arqueológico daquelas fronteiras, os vestígios (trincheiras/valetas/muretas) milenares remotos são parte de cada caboclo e transeunte em seus silêncios, em seus fios criativos de modular a vida contígua, em serem alheios ao tempo; nos entornos, sitiados, e no homem ocupando, sucessivamente, seu ambiente. Deja-vú.

(Veja a revista de antropologia Amazônica; ensaio fotográfico “Arqueologia na Amazônia Entornos” feito por Maurício de Paiva e Mônica Canejo.)

O paleontólogo, professor e divulgador Alceu Ranzi perpassa uma área de desmatamento próxima a um geoglifo

Denise Schaan, arqueóloga, faz medições no sítio Hortigranjeira, em Capixaba, Acre

Vaqueiros e agricultores que vivem em torno dos sítios arqueológicos se deparam com pesquisadores

Trincheira de um geoglifo com largura média de 11 metros e profundidade entre 2 e 5 metros, com diâmetros até 300 metros

Alceu Ranzi, paleontólogo gaúcho e professor na UFA, avança sobre uma das trincheiras mais fundas dos geoglifos, no sítio JK, em Acrelândia

Pesquisadores sob sol escaldante. Denise Schaan, coordenadora dos sítios, é tão precavida quanto produtiva

Cerâmica rara encontrada em geoglifos

Plantação que perpassa e renasce em meio à vala do sítio de geoglifo Jacó Sá

Morador exibe foto antiga de sítio arqueológico descoberto em meio à estrada e sua morada

Gado da Fazenda Colorada. Os Geoglifos são invólucro às áreas de pastagem

Arqueólogos e bacharelados interagem com gerente de fazenda de gado de corte. É comum eles indicarem as linhas geoglifos como fonte

É raro os mais jovens – filhos de gerentes ou de patrões – terem acessos às informações das pesquisas

Seringal Cachoeira, mata onde Chico Mendes trabalhou na extração de látex, em Xapuri

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