Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

Maurício de Paiva

t

Economia verde: fotos não publicadas

por Maurício de Paiva em 22 de junho de 2012

A Ministra do Meio Ambiente, Isabella Teixeira, no programa Roda Viva da TV Cultura, disse: “Não se trata de ser economia verde ou azul; o debate que se coloca hoje é como avançar na proteção da biodiversidade e na sustentabilidade, na ‘bola da vez’ que é a economia florestal. Para o espectador que nos vê, o importante é pensar na mudança de comportamento, questionar de onde vem a energia e a eficiência dos produtos para consumir melhor”.

Listo. O que está em debate na Rio+20, ao que me parece, é um painel que coloca no imaginário agricultura, cidades, água, energia, mudanças climáticas, oceanos, pobreza, biodiversidade, povos tradicionais e um já famigerado modelo de Economia Verde.

Conheço pessoas que vivem na Amazônia, na área de pesquisa das ciências humanas, que crivam que desenvolvimento sustentável (termo em voga, mas volátil), na antropologia, é algo criticável na medida em que foi adotado como ideologia do capital. Mas que, por outro lado, populações tradicionais extrativistas, por exemplo, apenas reivindicam um bom modelo de socioambientalismo, que garanta vida longa dentro de uma reserva protegida e autossustentável. Ora, comportamento mais do que alegórico e de bom senso, vindo de caboclos da região em que a própria ministra afirma que “no Brasil, 60% da cobertura florestal está de pé; nos EUA, pouco mais do que 30% (…)”.

Produzi no Ceará e no Pará a parte fotográfica da reportagem da Os bons frutos da economia verde, da revista NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL deste mês, nas bancas. O camarão que vira remédio, a bromélia que também pode ser uma autopeça, o peixe que se transforma em roupa: o Brasil tem exemplos a dar de conciliação entre produção, aplicação, biodiversidade e recursos naturais. Nisso, o texto da premiada jornalista ambiental Liana John nos abre bons caminhos. Recomendo a leitura.

Queria aqui incitar, mais um pouco, a imagem e seus criadores, aqueles que inserem informações imprevistas apenas com aparato ou texto. Se a fotografia tem papel central na concepção de uma reportagem e deve, na mais nova missão da NATIONAL GEOGRAPHIC, “inspirar as pessoas a cuidar do planeta”–  como sempre diz Matthew Shirts, redator-chefe no Brasil –, deve ser valorizado o trabalho em campo de apuração, contato, pesquisa, planejamento, atitude, decisão, administração, tempo, angústias, vislumbres  e “dedo no gatilho” de uma viagem.

Ser fotógrafo é ter funções diversas e compor material diversificado. Mas quero salientar  uma presença ímpar e crucial como desmembramento e reflexão na prática da fotorreportagem citada, na etapa do Ceará: o assistente e iniciante na fotografia Leandro Salles. Afora meu quadril acidentado, capenga e saturado, a dupla já foi, em si, pluralidade pura.

O caminho que escolho no post é o de propor ao Leandro responder, em duas partes, sobre o trabalho in loco e suas expectativas, reflexões e críticas sobre a semana que passamos juntos, na produção do conjunto das imagens que editei para a revista. E postar aqui, como curiosidade, por meu olhar “normal” (ou ingênuo ou excessivo), fotos não publicadas no artigo. Ou seja, as que ficaram de fora, independentemente de terem sido ou não adequadas à coesão da matéria como história, de serem contundentes, de boa composição estética e/ou resolvidas como cabais para informação. Apenas assim, como aura, como dípticos quiçá, como “bioma” e contexto; parentes às que foram “layoutadas” pela arte da redação, aliás, que sempre me consultou. E com razão, afinal, nós, fotógrafos, vislumbrando sempre mais espaço, nos envolvemos deveras com o assunto. Eu, principalmente com a cultura local tradicional, me revelo e me surrupio em apegos (tarefa complexa), criando uma espécie sem pretensões de antropologia-visual que acho que vou construindo e frustrando-me… nessa dicotomia sem fim. Ser tão terra mar.

Perguntei ao Leandro sobre o gesto de fotografar como caçar, como um movimento próprio e sócio-cultural, digamos. E ele respondeu:  “Me surpreendeu sua persistência. Só estando ali para ver o quão determinante você foi [caçador] para conseguir o que para muitos é apenas foto. Naquele momento, se expôs de forma austera à procura da informação como imagem. No entanto, ao lidar com os pescadores, com os “alvos” de interesse, achei boa sua destreza e forma conquistadora ao abordá-los. Decisões rápidas foram tomadas, ao mesmo tempo em que não se deixou guiar pela montagem de um cenário. Todas as pessoas, sem exceção, deveriam conhecer um local como o que conheci e principalmente as pessoas que conheci. O trabalho que vi, a simplicidade e honestidade, a dignidade de pescadores em lidar todos os dias com o perigo de morte simplesmente para poder viver, mergulhando naqueles currais artesanais”.

Deixe seu comentário
Nome
E-mail
Comentário (Seu comentário mínimo 5 caracteres )