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Roberto Linsker

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Memórias fugazes da China

por Roberto Linsker em 20 de fevereiro de 2013

Hong Kong é um lugar diferente. Do topo do Peak, que domina a cidade, essa sensação se magnifica. Hong Kong é uma cidade rica e organizada. Não sei se é rica porque é organizada ou é organizada porque é rica. Eis um enigma que precisa ser resolvido.

Nas encostas íngremes dessa baía, prédios gigantes tomam conta de quase tudo, entremeados por uma vegetação que de longe relembra a da Floresta da Tijuca. É uma cidade onde sete milhões de habitantes se distribuem verticalmente e apesar do incessante vai-e-vem, tudo flui. Para quem mora em São Paulo isso é um alento, uma luz no final do túnel. São seis horas da tarde, o céu se escurece e a cidade se acende.

Tong lai chai foi a primeira expressão que aprendi na China: chá com leite gelado. Nos dias em que por lá fiquei, bebi muito chai, além de algumas Ting Tsao, a cerveja local. Comi coisas deliciosas e nada me lembrava dos pratos chineses que fizeram a “fama” dos restaurantes e deliveries em São Paulo. Comi um caldo de pé de pato com abalones e grapefruit que me faz salivar só de lembrar. Comi inesquecíveis bolinhos (dim sum) recheados com camarões e cozidos no vapor. Comi pescoço e estômago de porco e até orelha de pau — aquele fungo que cresce nos troncos das árvores. Na China, quem procura experiências gastronômicas inéditas acha de montão. E não é por acaso. Ao longo de milênios, experimentar ingredientes e aperfeiçoar a culinária tem sido uma das atividades vitais nesse país onde hoje praticamente tudo vai para a panela.

A segunda etapa da viagem me leva até Guanzhou, cidade a 3 horas de carro de Hong Kong. Estou hospedado no Crystal Hotel. Uma certa monocromia acre domina o horizonte ao olhar pela janela do decimo primeiro andar. Uma névoa sutil torna ainda mais melancólica a visão. São quase sete horas e me preparo para o café da manhã. No lobby do hotel leio numa faixa “Merry Christmas“. Garçons e garçonetes usam gorros de Papai Noel como a relembrar que o Natal se aproxima. Pergunto à garçonete se a data é celebrada, e ela assente com a cabeça, mas não fico muito convencido. Algo me diz que eles não têm amigos secretos.

Durante o jantar me avisam para não passear sozinho pelas ruas da cidade, para não arriscar ser roubado. Na televisão (todos os restaurantes tem várias), um jornalista vestido com roupas camufladas — talvez fosse um militar fazendo as vezes de âncora — mostra cenas em que violência e roubos são o chamariz do noticiário local. Tentativas de furtos de celulares, gravados pelas câmeras de segurança das lojas, são apresentados em sequência. Isso me fez relembrar uma notícia escabrosa que meses atrás tinha lido no jornal O Globo, “Adolescente chinês vende rim para comprar iPad e iPhone”.

Em uma semana experimentei duas “versões” da China. Nenhuma delas em profundidade. Ambas surpreendentes.

Maureen Bisilliat na Coleção Fotógrafos Viajantes

por Roberto Linsker em 9 de novembro de 2012

Crédito: Maureen Bisilliat/©Instituto Moreira Salles

Foi em 2010, durante o Paraty em Foco, que a ideia de fazer um livro com imagens de Maureen Bisilliat, para a coleção Fotógrafos Viajantes, ganhava corpo. De lá pra cá diversos foram os encontros até criar uma linha diretriz.

Como o Instituto Moreira Salles é o detentor de todos os direitos patrimoniais sobre a obra fotográfica de Maureen, foi necessário contatá-los e solicitar a autorização. Uma vez acertadas as burocracias começamos, a quatro mãos,  a edição de imagens. Esta, alias, a melhor parte: folhear contatos, olhar, desembaralhar prints antigas, descobrir surpresas ocultas em envelopes pardos, tudo isso entremeado de conversas, histórias, café e bolachas de gengibre, que Maureen sempre me oferece quando a visito.

Escolher cinquenta imagens e, com elas, rechear 96 páginas, poderia ter sido uma tarefa árdua, insana até. Qual critério, afinal, para criar um fluxo de imagens abrangente e atemporal? Como respeitar as cronologias que Maureen tão claramente tinha estabelecido nas suas equivalências fotográficas sem ser aprisionado por elas?

Para resolver este quesito, decidimos utilizar uma metodologia intuitiva, no melhor estilo eu gosto desta foto, e você?”

Com essa liberdade instituida, a cada round a peneira apertava sua malha e algumas imagens pediam para sair. Outras entravam no desfile.

Como buscávamos um livro sutil, silencioso e, ao mesmo tempo, vibrante, a costura de imagens foi pensada e repensada exaustivamente. No livro, praticamente tudo é sangrado para ocupar o espaço restrito, para alargar a história que cada imagem carregava. No livro, os retratos são a matéria prima que se impõe no decorrer das páginas. Neles, Maureen acolhe olhares ora densos, ora lânguidos. Ouso dizer que é quase uma síntese de êxtases.

Tecnicamente falando, trabalhamos com copias manuseadas décadas atrás pela fotógrafa, imagens vintage em branco e preto, colorizadas, tonalizadas, alteradas, interferidas e guardadas. São elas as experiências visuais que Maureen sempre cultivou e que até hoje são reconhecidas como uma das suas identidades. Foram elas que cuidadosamente reproduzimos no livro: ampliações dobradas, amassadas, manchadas, metamorfoseadas pelo esquecimento e que, agora, voltam à tona como matrizes no projeto gráfico. Revela-las era quase compartilhar um segredo, uma intimidade.

Mas há também imagens icônicas, aquelas que muitos já viram nos outros livros de Maureen Bisilliat. Era impossível deixar de fora Manuelzão, para mim seria um sacrilégio esquecer o guia de Guimarães Rosa; e as Caranguejeiras? E a sertaneja que foi a capa do livro Luz e Trevas?

Essas e outras estão lá. Olhando, olhando.

Convite do lançamento do livro Maurren Bisilliat, da coleção Fotógrafos Viajantes

Crédito: Maureen Bisilliat/©Instituto Moreira Salles

Crédito: Maureen Bisilliat/©Instituto Moreira Salles

Crédito: Maureen Bisilliat/©Instituto Moreira Salles

Crédito: Maureen Bisilliat/©Instituto Moreira Salles

Crédito: Maureen Bisilliat/©Instituto Moreira Salles

Crédtio: Maureen Bisilliat/©Instituto Moreira Salles

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Na floresta, uma tarde

por Roberto Linsker em 11 de outubro de 2012

Depois de muitos anos acalentando o projeto, finalmente tenho a alegria de comunicar que o livro Na floresta, uma tarde, de Loren McIntyre, será lançado no dia 20 de outubro na Pinacoteca. Loren, que esteve ao longo de quase três décadas nos mais remotos confins da Amazônia, perseguindo suas histórias e realizando diversas reportagens sobre o nosso país para a revista NATIONAL GEOGRAPHIC, é praticamente desconhecido no Brasil.

O livro Na floresta, uma tarde, da Terra Virgem Editora, reúne 49 imagens em que índios, colonos, garimpeiros e prostitutas dividem com a floresta o protagonismo de suas páginas. São duas partes: a primeira, na floresta, é um desfile ingênuo e aguçado de paisagens e personagens. Ingênuo porque quase 40 se passaram e muita Amazônia já nos foi mostrada; aguçado porque Loren teve ousadia e coragem para chegar onde muitos sequer sonharam ir. Sobre uma tarde, nada vou dizer. Melhor cada um tirar as suas conclusões.

O livro é o quarto volume da coleção Fotógrafos Viajantes – junta-se a Pierre Verger, Cassio Vasconcellos e Pedro Martinelli – e é também uma homenagem pessoal. Foi um privilégio ter conhecido Loren, um dos grandes exploradores contemporâneos da Amazônia. Dedicado e metódico, não mediu esforços para relatar as suas histórias, acho que era a sua maneira de generosamente compartilhar suas experiências e conhecimento adquiridos.


Em 1971, sem GPS, sem Google, contando apenas com mapas imprecisos, uma bússola e uma enorme vontade de caminhar, Loren descobriu a nascente mais distante do Amazonas. Hoje parece um fato irrelevante.


De qualquer forma, a minha felicidade é ainda maior pelo fato de algumas imagens do livro terem sido escolhidas pela Pinacoteca do Estado de São Paulo para fazer parte do seu acervo permanente. E essas imagens serão expostas agora no dia 20 de outubro, na mostra coletiva O Mais Parecido Possível – O Retrato, com curadoria de Diógenes Moura, ocasião na qual lançaremos o livro.

Segue o convite para a exposição:

A última chuva

por Roberto Linsker em 18 de setembro de 2012

Quem se lembra quando foi que choveu pela última vez?

Em São Paulo estamos tão acostumados a dias de sol como estamos a dias de chuva. Afinal, vivemos em um país tropical e essas jornadas se alternam invariavelmente. Se aqui fosse San Pedro de Atacama, no norte do Chile, a chuva seria uma exceção. Ao inverso do que acontece em lugares como Bergen, na Noruega, ou Lloró, na Colômbia, onde os dias ensolarados são infrequentes e os períodos longos sem chuva, raros; lá costuma chover mais de 250 dias por ano.

Em São Paulo, a derradeira chuva forte de meados de julho – mais de 60 dias de estiagem – parece ter se evaporado da memória e ameaça nunca mais voltar, nos deixando resignados a dias áridos e sol causticante no decorrer dos meses.

Confesso que tanto tempo cansa e começei a sentir saudade. Algumas plantas ao meu redor também. Para mitigar um pouco essa vontade e relembrar como eram esses dias, mergulhei nos meus arquivos em busca daquelas jornadas. Achei o dia, a hora e o lugar. Foi em Ibiúna, perto de São Paulo, quando inesperadamente a chuva tomou conta daquela manhã e se estendeu ao longo da tarde.

O engraçado é que, se começar a chover novamente, coisa que não há de levar muito tempo, este post também se diluirá na nova realidade. E, enquanto escrevo isto, uma brisa entra pela janela e lá fora as árvores balançam. Sei que o vento costuma trazer novidades.

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Recantos do Recôncavo, breve história de uma reportagem

por Roberto Linsker em 12 de setembro de 2012

Lá em Coqueiros, perto de Cachoeira

Mais de três anos se passaram entre o convite da NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL para fotografar os últimos saveiros e a publicação da reportagem Vento Contra na edição de setembro, que já está nas bancas. A espera foi longa e deu tempo de ir à Bahia em duas ocasiões, uma delas foi exclusivamente para registrar a saga contemporânea dessas embarcações.  Na segunda, voltava da Chapada Diamantina e decidi investir num sobrevôo para ver se rolava alguma imagem “gloriosa”.

Na primeira viagem convidei Alcino Caetano, amigo de Lençóis, para se juntar à expedição pelo Recôncavo. Com o apoio da Associação Viva Saveiro e de Pedro Bocca – que nos cedeu uma lancha e, principalmente, o Jefferson, marinheiro conhecedor da região.  Assim, em boas mãos, percorremos de uma ponta à outra a Baía de Todos os Santos e adentramos os Rios Jaguaripe e Paraguaçu, tudo em quatro dias de navegação.

Lá nos fundos do Jaguaripe fica Maragogipinho, onde são confeccionadas as cerâmicas que abastecem Salvador. Estando lá, um dia decidimos visitar a feira de Nazaré das Farinhas, 30 quilômetros de asfalto.

As feiras na Bahia são uma amostra farta e generosa de produtos regionais e de calor humano, respectivamente. Nem preciso dizer que feira é comigo mesmo, nem sempre para fotografar, mas para meandrar pelas histórias que qualquer cidade oferece. E, quando penso em feira, a Bahia imediatamente aparece.

Em 2011, retornando de Irecê, acabei dormindo em Salvador para, na manhã seguinte, fazer um sobrevôo no Recôncavo. A visão aérea é importante, fornece não apenas um ângulo inusitado para fotografar, mas principalmente a oportunidade para um melhor entendimento do tema e da região. A dúvida é sempre a mesma: fazer o sobrevôo antes ou depois da documentação em terra? Com o tempo, chega-se a uma conclusão: cada opção tem as suas vantagens e desvantagens. Hoje, com o Google, é possível passear por onde se irá investir tempo e selecionar coordenadas para um eventual sobrevoo.

Agradeço a todos que contribuíram na produção da reportagem, especialmente a Pedro Bocca, Fátima Navarro, Ana Kolbe, Roberto Carlos Bezerra (Malaca) e Ildé Paraense (Dedé), todos do Viva Saveiro; ao Mestre Jailton, do É da Vida; ao Mestre Jorge, do Sombra da Lua; ao Mestre Carlito e, especialmente, ao Jefferson, nosso marinheiro pelas águas do Recôncavo; a Alcino e Catan pela amizade e companheirismo.

Maré baixa, vento fraco na Ilha da Maré

Uma pequena venda no Recôncavo

Dia de feira, hora do rango em Nazaré

Jefferson, o marinheiro que nos guiou pelo Recôncavo

Dia de Feira em Nazaré das Farinhas

A cidade de Cachoeira se banha numa manhã enevoada no Rio Paraguaçu

O piloto define no GPS o rumo a seguir

O saveiro cruza a baía e a cidade de Salvador ao fundo, com navios transoceânicos aguardando para carregar e descarregar

A fotopintura no Nordeste brasileiro

por Roberto Linsker em 8 de agosto de 2012

Fotopintura de autor desconhecido - Crédito: ©Roberto Linsker/Reprodução

Sábado passado foi inaugurada na Pinacoteca de São Paulo a exposição Interior Profundo, que homenageia a fotopintura. A maioria das obras expostas são do Aureo Studio de Mestre Júlio Santos em Fortaleza.

Qualquer um que tenha adentrado algum lar em algum vilarejo do interior da Bahia ou Ceará – ou Maranhão, Pernambuco, Minas, Acre ou Amapá – certamente terá se deparado com alguma obra desse gênero tão tipicamente brasileiro, apesar de não ser exclusividade nacional.

Não vou me estender sobre a exposição, que pode ser conferida até 21 de outubro. Olhar aquelas obras na parede me fez lembrar de uma história relacionada ao assunto.

A morada dos outros é um tema recorrente, meio voyeurístico. Gosto de conhecer o lugar onde as pessoas passam a maior parte das suas vidas; onde dormem, comem, assistem à televisão etc. Sempre que sou convidado para entrar na casa alheia aceito de bom grau. Enfim, mostrai-me onde moras e te direi com quem tu andas. Sei que não é bem assim o ditado, mas a outra versão me parece muito determinista.

Certa vez estava próximo à Gruta dos Impossíveis, no município de Iraquara, na Chapada Diamantina, e parei para pegar informações. A casa era muito simples e fiz alguns retratos dos moradores. No interior, dependurado, um único quadro adornava as paredes daquele lar. Nele emoldurado, um casal se apresentava com vestes fictícias que destoavam da realidade daquele entorno.

A fotopintura é uma documentação com pinceladas oníricas. Nessas obras, cores e costumes alheios são incorporados à alma da pessoa retratada que, assim fantasiada, percorre gerações.

O artista fotopintor realiza os desejos do cliente, os seus próprios e transforma os retratados em protagonistas que assim, entre quatro paredes, alcançam o estrelato. Seriam aqueles 15 minutos de fama que Andy Warhol popularizou, sem saber que já existiam no sertão.

Acabei reproduzindo aquele quadro e publiquei no livro Brasil Terra Virgem no ano de 1999. Semanas após o lançamento, um dos patrocinadores agendou uma reunião. Percebi que ele tinha marcado uma das duplas do livro com um post-it e a primeira coisa que fez foi abri-lo e, apontando para o casal, me perguntou: “o que é isto?”.

Expliquei como pude e ele, interessadíssimo, quis saber se haveria como adquirir aquele quadro. Eu achava que sim, mas solicitei um tempo para consultar os amigos na Bahia. Liguei para Alcino em Lençóis e pedi para ele checar com a família se estariam dispostos a vender aquele quadro. Teriam em troca, além do pagamento, uma reprodução fotográfica do mesmo tamanho e igualmente emoldurada. E o pagamento era o equivalente na época a quatro ou cinco salários mínimos. É claro que eles toparam.

E eu hoje fico pensando se essa não foi uma das primeiras fotopinturas a sair diretamente de um lar popular para uma colecão particular. Posso estar errado, mas tenho a impressão de que, em breve, teremos galerias vendendo essas obras, a maioria delas de artistas e de personagens anônimos.