Uma história de amor na África
O biólogo Iain Douglas-Hamilton aproxima-se de uma jovem elefanta. Anne, como ele e seus colegas a chamam, é grandalhona, núbil e arisca. Meio escondida pelo arvoredo no alto de um morro no remoto norte do Quênia, ela pasta sossegada junto com vários membros de sua família. No pescoço traz uma resistente coleira de couro com um transmissor eletrônico na altura da crista do ombro. Graças ao transmissor, Douglas-Hamilton, que chegou num avião Cessna e atravessou a pé o capim alto e os arbustos de acácia, pôde encontrá-la. Agora, agachado, ele avança contra o vento e chega a 30 metros dela. Anne devora mais folhas. Ignora a presença dele ou talvez não esteja interessada.
Os pacatos e bonachões elefantes podem ser animais perigosos. Ficam nervosos com facilidade, são complexos e às vezes defendem-se com violência. Douglas-Hamilton é um especialista de renome mundial que os estuda há 40 anos. Não vá você tentar fazer o mesmo.
Ele quer ver bem a coleira. Disseram-lhe que talvez esteja apertada demais, que Anne cresceu desde que a sedaram com dardo tranqüilizante, lhe puseram a coleira e assim a recrutaram como fornecedora de dados para estudos. Normalmente, Douglas-Hamilton observa os elefantes com mais cautela, protegido no interior de um Land Cruiser. Mas, nesse terreno, veículo nenhum consegue trafegar, e o conforto e a saúde de Anne estão em jogo. A coleira tem de ficar folgada, com um contrapeso pendurado na parte inferior. Douglas-Hamilton quer ter certeza de que Anne não está com a garganta apertada como um condenado à forca. Mas nesse momento, ali no meio do matagal, ela só lhe mostra seu imperioso traseiro elefantino. Por isso, ele vai-se aproximando sorrateiro.
Três outros homens vêm mais atrás. Um é o jovem David Daballen, brilhante pupilo de Douglas-Hamilton em Samburu que costuma acompanhar o chefe em missões de campo desse tipo. O segundo é um guia local, empunhando um fuzil Winchester 308. O terceiro sou eu. Notamos que, enquanto o biólogo se acerca dos elefantes, outra fêmea, enorme, provavelmente a matriarca do grupo, com astúcia se desloca devagarzinho para a direita dele. Nós nos abaixamos bastante para não sermos vistos por ela. Ficamos imóveis. A fêmea aproxima-se, desconfiada e desafiadora, e Douglas-Hamilton parece não se preocupar com ela. Mas Daballen dá sinais de nervosismo. Ele está calculando (conta-me depois) a rapidez com que um elefante poderia atacar naquele declive rochoso e atravancado.
E então a fêmea enorme executa uma série de gestos que sugere indiferença ou mesmo total desprezo: urina muito, defeca com estrépito, até que dá as costas e se afasta.
Anne, por sua vez, sai do mato, toda bamboleante e melindrosa. Avizinha-se de Douglas-Hamilton e fica a apenas 15 metros dele. Por alguns segundos, a jovem fêmea presenteia-o com uma visão frontal de sua testa larga, as orelhas de abano e as belas presas, como uma modelo fazendo caras e bocas sob os flashes na passarela. Ela posa de perfil. Ele ergue a câmera e bate várias fotos. Em seguida, ela também dá as costas e se distancia. Através da lente da câmera, naqueles poucos segundos, ele pôde ver que a coleira está folgada e que o alarme fora falso. Anne, ufa!, não corre nenhum perigo de se esfolar ou sufocar.
Durante o tortuoso caminho de volta a nosso veículo, vou pensando: então é assim que se faz. É simplesmente demonstrar certa cautela, certo respeito, obter a informação necessária e afastar-se. E todos ficam felizes. Depois de quatro décadas, Douglas-Hamilton desenvolveu apurada percepção da individualidade dos animais: seus humores voláteis, seus sinais sutis, a gama de suas personalidades e seus impulsos. Nada na amistosa interação com Anne me preparou para o momento, algumas semanas depois, em que vi uma elefanta arremeter contra o biólogo, alcançá-lo, jogá-lo e quase destripá-lo com as presas.
Logo estamos de novo no Cessna de Douglas-Hamilton, sobrevoando os contornos da paisagem. Voar baixo é o estilo preferido dele: para que estar a 300 metros de altitude quando se pode acariciar a topografia? Assim, subimos e descemos com suavidade, acompanhando as encostas rochosas, as serras, as ressequidas planícies de acácias, os rios de areia. Rumamos para o noroeste, de volta a um lugar chamado Reserva Nacional de Samburu. Logo depois da reserva há uma pista de pouso de cascalho e, não longe dali, seu acampamento de trabalho. Estaremos em casa antes de escurecer.
A Reserva Nacional de Samburu é uma das jóias sem fama do norte do Quênia, e seu nome vem da orgulhosa tribo guerreira e pastoril na qual David Daballen e outros têm suas raízes. A reserva é uma área de apenas 168 quilômetros quadrados de savana semi-árida, planaltos escabrosos, rios de areia (chamados, na região, de luggas) e florestas ribeirinhas de acácias e palmeiras africanas ao longo da margem norte do rio Ewaso Ngiro. Sem estradas pavimentadas e só com a vizinhança esparsa de pastores samburus, a reserva fervilha de vida selvagem. Há leões, leopardos e guepardos, é claro, mas também zebras-imperiais, girafas-reticuladas, órix, gazelas-de-walleri, avestruzes-somalis, abetardas-gigantes e grande variedade de vistosas aves menores, como o estorninho-carunculado. As criaturas dominantes, contudo, são os elefantes. Eles têm papel fundamental na moldagem do próprio ecossistema, pois arrancam e descascam árvores e assim mantêm a savana aberta. Eles intimidam até os leões. Entram e saem das fronteiras da reserva, usada como abrigo contra os perigos oferecidos pelos seres humanos numa paisagem bem mais ampla e ambivalente.
A território maior inclui todo o distrito de Samburu, no qual jaz a reserva, e partes de outros três distritos, em especial Laikipia, uma colcha de retalhos planaltina de fazendas particulares e santuários, áreas comunitárias de conservação, trigais, cercas, encostas, vales fluviais, estradas e shambas (pequenas roças) logo ao sul. Em Laikipia, zonas de hábitat selvagem, plantações, pecuária e habitações humanas se justapõem como uma caixa entornada cheia de pastilhas de mosaico multicores. Samburu, em contraste, tem poucas shambas e quase nenhuma cerca. O povo samburu, que fala um dialeto da língua maa, demonstra pouca inclinação para abandonar suas tradições pastorear cabras e bois, usar trajes chamativos (especialmente os homens jovens), com plumas, contas e shukas (mantas) vermelhas, e atacar os inimigos de longa data. Não querem trocar nada disso por práticas mais pusilânimes, como a agricultura. Esse tradicionalismo, aliado à escassez de água e bons solos e à crescente noção dos benefícios econômicos do turismo, até agora poupou o distrito de Samburu do tipo de conversão intensiva do uso da terra vista em partes de Laikipia. O ecossistema combinado de SamburuLaikipia abrange 28,5 mil quilômetros quadrados e abriga cerca de 5,4 mil elefantes a maior população de Loxodonta africana encontrada fora de áreas protegidas em qualquer parte do Quênia.
O tamanho da população e seu atual crescimento (talvez de vários pontos percentuais ao ano) refletem o fato de SamburuLaikipia ser uma região produtiva e hospitaleira para os elefantes. Mas cabem dois outros adjetivos também: tumultuosa e complicada. No mosaico de costumes variegados e condições sazonais inconstantes, os paquidermes defrontam riscos. E as pessoas também. Conflitos eclodem, resultando às vezes em plantações devastadas por ataques de elefantes ou uma vaca morta, um elefante baleado, uma pessoa pisoteada e ferida por presas. Com a população queniana crescendo mais de 2% ao ano, o potencial de conflitos desse tipo só pode aumentar. Há que decidir sobre o que deve ser protegido e o que terá de ser sacrificado: corredores para os deslocamentos dos elefantes? Plantações? O direito das pessoas a continuar estabelecendo mais fazendas? O objetivo de Douglas-Hamilton é fornecer aos responsáveis pelas decisões informações científicas bem detalhadas e oportunas, e portanto mais úteis, que as disponíveis até agora. Não é exatamente o plano de estudo com que ele começou a carreira, mas o espírito é o mesmo. É para onde os contornos da paisagem o conduziram.
"Se você me perguntasse o que eu queria fazer quando eu tinha 10 anos", conta, "eu responderia: quero ter um avião, quero voar pela África e salvar animais." A aviação está em sua linhagem. Seu pai, lorde David Douglas-Hamilton, comandou um esquadrão de aviões de combate Spitfire na Batalha de Malta e morreu depois em uma missão de reconhecimento na Segunda Guerra Mundial. Seus três tios também foram renomados pilotos da Royal Air Force (RAF). Um deles foi o primeiro a sobrevoar o topo do monte Everest, pilotando um biplano de cabine aberta (estava muito bem agasalhado), só pela glória da façanha. Depois da guerra, a mãe de Iain tornou a casar-se. O padrasto, carinhoso, lia para Iain histórias sobre a África. O padrasto levou a família para viver na cidade do Cabo e morreu abruptamente. Aos 13 anos, Iain voltou para a Grã-Bretanha e foi para um colégio interno na Escócia, acalentando sonhos de fuga. Quando cursava a faculdade em Oxford, ele quis juntar-se aos Voluntários da Reserva da RAF, seguindo os passos do pai e dos tios, mas não foi aceito porque tinha problemas de visão. Felizmente, a zoologia não requeria vista perfeita.
"A ciência, para mim, foi um passaporte para a selva", diz ele, "e não o contrário. Tornei-me cientista para poder ganhar a vida na África e viver no mato." Um tanto melancólico, ele acrescenta: "Quisera ser um guarda-florestal." Mas, para um jovem escocês que não falava suaíli no começo da década de 1960, pouco antes da independência queniana, um emprego público como aquele estava fora de questão. Por isso, ele viajou para a Tanzânia como pesquisador voluntário, e depois aceitou a oferta de um projeto numa pequena área chamada Parque Nacional do Lago Manyara. Vendeu algumas ações que herdara e com o dinheiro comprou um velho avião Piper Pacer de 150 cavalos-vapor, ágil o bastante para acompanhar animais. Por tentativa e erro, ele aprendeu a aterrissar em pistas pedregosas.
Em Manyara, Iain Douglas-Hamilton fez o primeiro estudo substancial da estrutura social dos elefantes e de seu comportamento espacial (para onde eles vão, quanto tempo permanecem) usando radiotelemetria. Com isso, conquistou seu doutorado em Oxford. Ele também se tornou o primeiro estudioso de elefantes a se concentrar em indivíduos vivos, e não apenas em tendências das populações ou em análises de espécimes mortos. Usou registros fotográficos de padrões visuais cortes e perfurações únicos nas orelhas, forma das presas para identificar os animais em campo. Acabou por conhecer os elefantes um a um, anotou suas características individuais, batizou-os, observou suas interações sociais. Uma de suas favoritas, Boadicea, era uma grande matriarca de longas presas, tão convergentes que quase se juntavam. Ela ameaçava com arremetidas enfáticas, mas bastava alguém pagar para ver para ela desistir do blefe. Outra, uma fêmea de uma só presa chamada Virgo, adquiriu o hábito de aproximar-se do veículo de Douglas-Hamilton e estender a tromba em sua direção. A desconfiança foi diminuindo e passados quatro anos ela o saudava levantando a tromba e permitia que ele fizesse cócegas na sensível parte inferior. O biólogo testemunhou o nascimento do macho NDume, filho de uma fêmea chamada Presas Delgadas. Viu o filhote aprender a mamar, a usar a tromba para pastar e a evitar cair nas poças dágua que a mãe cavava. Notando os traços particulares dos indivíduos e os padrões generalizados na população, Douglas-Hamilton começou a conjeturar sobre motivações. De que os elefantes precisavam? Como suas movimentações na paisagem refletiam essas necessidades? Que tipos de escolha faziam?
Ele casou-se com uma bela italiana nascida no Quênia, Oria Rocco, e levou-a à savana tanzaniana, onde ela compartilhou sua vida agreste e sua paixão pelos elefantes. Juntos, nos anos 70, os dois produziram um livro campeão de vendas, Among the Elephants, e duas filhas brilhantes. Fotos da época mostram Iain Douglas-Hamilton como um jovem magro de cabelo revolto e descorado pelo Sol, óculos de nerd, calção e botas de explorador, às vezes com um colete sem camisa, bronzeadíssimo e levando uma vida arrojada em meio a paquidermes cordiais. Um misto de Tarzan, Clark Kent e Doutor Doolittle.
Vieram então os anos sombrios de fins da década de 70 e dos dez anos seguintes, quando Douglas-Hamilton encabeçou o alarme contra uma tendência deplorável: a matança em massa de elefantes africanos. Matar paquidermes por causa de suas presas não era nenhuma novidade, obviamente. Os seres humanos fazem isso desde a invenção da lança. Mas essa fase moderna, impulsionada pela brusca alta nos preços do marfim e facilitada pelas armas automáticas, veio em escala diferente. Entre 1970 e 1977, segundo uma avaliação, o Quênia perdeu mais de metade dos seus 120 mil elefantes. As exportações de marfim do continente apenas as vendas legais para grandes mercados, sem considerar o contrabando totalizaram cerca de 900 mil quilos anuais. Baseado no peso dessas presas, Douglas-Hamilton calculou que se perdiam em torno de 100 mil animais por ano na África toda. Ele decidiu fazer alguma coisa.
Com verba de várias ONGs conservacionistas, Douglas-Hamilton organizou um levantamento ambicioso para avaliar a condição das populações de elefantes em todo o continente. Enviou questionários a biólogos de campo, guardas-florestais, conservacionistas e outros profissionais bem informados, pedindo-lhes contagens ou suas melhores estimativas das populações locais e regionais. Ele próprio também fez contagens de seu avião. Dos resultados, compilados em 1979, ele calculou que a África continha na época cerca de 1,3 milhão de elefantes. Esse pareceria ser um bom número, não fosse por um detalhe: as linhas de tendência apontavam para baixo. Os elefantes africanos estavam morrendo a um ritmo insustentável, concluiu, e a viabilidade de suas populações estava em risco.
Alguns especialistas em campo discordaram, dizendo que não havia problema nenhum com as populações de elefantes ou, no mínimo, que os dados de Douglas-Hamilton não eram confiáveis. Tais discordâncias persistiram por toda a década de 80 em uma série de debates contenciosos e batalhas burocráticas que se tornou conhecida como a Guerra do Marfim. Nesse meio tempo, Douglas-Hamilton pusera de lado seus estudos do comportamento e passara anos investigando as condições das acossadas populações de elefantes do Zaire, da África do Sul, do Gabão e de outros lugares. Fez isso sobrevoando as regiões para contar os animais e fazendo diligências por conta própria. Ele foi ao Império Centro-Africano (hoje República Centro-Africana), xeretou o comércio do marfim da área e arrancou-se dali depressa quando o imperador Jean-Bédel Bokassa começou a ficar curioso sobre aquele elefantólogo visitante. Voou para Uganda em meio ao tumulto após a queda de Idi Amin e viu carcaças de elefante crivadas de balas juncando os parques nacionais.
"Foi uma época horrível. Passei 20 anos tenebrosos fazendo isso", diz ele hoje. Seu macabro e deprimente trabalho foi uma ajuda imensurável para fundamentar, em 1989, a decisão da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CCIEA) de proibir a venda internacional de marfim. Mas lhe custou angústia, anos de vida e perda da convivência com suas filhas e com elefantes vivos.
Uma de suas colegas no Quênia, Cynthia Moss, também respeitada especialista em comportamento dos elefantes, chamou-me a atenção para esta última categoria de ônus. "É importantíssimo para quem estuda os elefantes", explicou ela durante um almoço em Nairóbi, "estar na presença dos animais que se conhece individualmente". Voar é útil, contar é útil, mas não substituem a observação próxima e prolongada. Cynthia iniciou sua carreira em 1968 como auxiliar de pesquisa de Douglas-Hamilton em Manyara, e agora, como velha amiga, preocupa-se. "Ele só voltou a entrar nos eixos quando começou a trabalhar em Samburu", me diz ela.
O trabalho DE DOUGLAS-HAMILTON na Reserva Nacional de Samburu reflete um novo papel em sua vida: o de mentor de jovens cientistas. Ele havia mandado um estudante ao local e, em 1997, foi trabalhar com o pupilo.
O estudante era George Wittemyer, bolsista do Programa Fulbright que queria estudar as relações sociais dos elefantes. Naquela época, Douglas-Hamilton estabelecera, em Nairóbi, sua própria organização de pesquisa e conservação, a Save the Elephants (STE). Forneceu a Wittemyer os contatos, orientação e duas barracas usadas. Com elas, o estudante montou um acampamento simples às margens do rio Ewaso Ngiro, à sombra de grandes acácias e próximo de um morro cônico. Como fizera Douglas-Hamilton três décadas antes em Manyara, Wittemyer começou a estudar os elefantes locais, nomeando-os e desvendando suas relações familiares.
Como em outras populações de elefantes, cada família é dominada por uma matriarca, uma fêmea mais velha, mãe ou avó da maioria dos outros membros. Wittemyer agrupa os nomes de modo mnemônico, e os pesquisadores que o sucederam em Samburu deram continuidade a esse sistema: as Spice Girls (com Rosemary, Basil e Sage), as Primeiras-Damas (Eleanor, Martha, Lucy Kibaki, Jackie), as Cidades Bíblicas (Babilônia, Nazaré, Jerusalém), a Realeza (Vitória, Cleópatra, Anastácia, Diana) e muitos outros.
Os machos em geral viajam sozinhos ou em companhia de outros machos; por isso seus nomes em Samburu são mais variados: Mungu, Gorbachev, Mountain Bull, Gêngis Khan, Marley, Amadeus etc. Cerca de 900 elefantes solitários usam a reserva ao longo de um ano, como residentes ou em breves visitas, e a maioria é identificada nos dados da STE.
Gradualmente o acampamento de duas barracas se tornou um estabelecimento permanente, ascético mas confortável, composto de 12 barracas com divisórias, uma cozinha com teto de colmo, uma construção que serve de escritório e refeitório, com piso de concreto e internet sem fio, além de anexos com lavatórios e chuveiros de lata. Douglas-Hamilton fez desse acolhedor posto avançado, hoje chamado Acampamento da Save the Elephants, sua base de operações.
O projeto cresceu rendeu um doutorado para Wittemyer e um programa de monitoramento de longo prazo do comportamento social e espacial para a Save the Elephants. Outros rapazes e moças vieram do Quênia e de mais longe e, orientados por Douglas-Hamilton, assumiram responsabilidades. Onesmas Kahindi, massai por descendência mas samburu por afinidade, encarregou-se do estudo comportamental e depois achou um papel mais apropriado a seus talentos: coligir dados sobre a mortalidade dos elefantes. Alto, simpático e bem-falante, Kahindi percorre o ecossistema como um caixeiro-viajante, usando dados do Serviço Ambiental do Quênia (SAQ) e de sua própria rede de informantes locais para guiá-lo a cada carcaça de elefante encontrada tanto as decorrentes de morte natural como as de elefanticídios. Ele computa todas essas mortes, e assim mantém um crucial sistema de detecção (parte de um programa internacional chamado Monitoração de Abates Ilegais de Elefantes, cuja sigla em inglês é Mike) contra a caça ilegal, que está reaparecendo. O ecologista dinamarquês Henrik Rasmussen complementou o trabalho de Wittemyer sobre o comportamento das fêmeas com um estudo das táticas reprodutivas dos machos. David Daballen, meu companheiro na incursão para ver Anne, só estudou até o ensino médio, mas tem a mente de um doutor, e foi recrutado por Kahindi em um grupo de guardas-florestais voluntários e trabalhou como assistente de campo até Rasmussen perceber seu potencial. Hoje Daballen é administrador de campo e co-pesquisador do estudo comportamental de longo prazo. Daniel Lentipo, outro samburu da região, dotado de olhos de águia e memória prodigiosa, é o principal assistente desse estudo.
Dos 900 elefantes que passam pela Reserva Nacional de Samburu, Daballen e Lentipo podem reconhecer, de vista, cerca de 500 indivíduos. E, como testemunharam nascimentos, cruzamentos, mortes e o comportamento de grupo no decorrer do tempo, eles também conhecem as histórias familiares. Daballen pode dizer, por exemplo, que aquela fêmea na margem sul do rio, tão grande que parece um macho, é Babilônia, a matriarca das Cidades Bíblicas, tem quase 50 anos e que suas mamas estão cheias por causa de seu filhote, que está ali perto, junto com a filha mais velha e a neta dela. Ele pode apontar uma jovem fêmea que manca muito e explicar que ela é Babel, da mesma família, provavelmente aleijada ao ter sido montada por um macho quando era jovem demais, mas que as outras Cidades Bíblicas, a exemplo da velha Babilônia, andam bem devagar para que Babel possa acompanhá-las. Quando Daballen olha para um elefante nesse ecossistema, vê um indivíduo com uma história embutida numa matriz de relações e outras histórias. Enquanto isso, Douglas-Hamilton e seus colaboradores focam na dimensão espacial, ou seja, quais elefantes se deslocam, para onde e quando. O estudo espacial é um complemento high-tech às observações comportamentais low-tech.
Douglas-Hamilton relembra a primeira unidade de GPS que ele viu em ação, levada ao Quênia por amigos, em 1991, para ser usada na contagem de elefantes no Parque Nacional de Tsavo. Ela registrava apenas a localização do avião que estava rastreando os animais. Ainda assim, diz ele, "foi uma revelação ver como os elefantes se moviam e circulavam". Os padrões eram importantes porque refletiam escolhas fundamentadas, feitas pelos paquidermes, sobre onde poderiam satisfazer melhor suas necessidades mais urgentes, as que o biólogo chama de "os três esses": sexo, sustento e segurança.
Agora cerca de 20 elefantes no ecossistema SamburuLaikipia usam coleiras de GPS da Save the Elephants. O modelo mais novo informa uma posição por hora de cada elefante. A tecnologia das novas coleiras é refinada e econômica: para evitar gastos, conservar a energia da bateria e minimizar o peso, os mecanismos da coleira recebem informações de posição de satélites do GPS, mas as retransmitem por mensagens SMS (Short Message Service), bem mais baratas, através da Safaricom, a principal rede de telefonia celular do Quênia. Em outras palavras, no Quênia todo mundo tem celular, inclusive os elefantes. Algumas zebras agora também estão transmitindo via Safaricom; e quem sabe quais serão os próximos pítons-africanas, abetardas-gigantes? Por ora, o importante é que cada um dos 20 elefantes envie uma mensagem de texto ao computador de Douglas-Hamilton, a cada hora do dia, dizendo: "Oi, Iain, estou aqui".
A Save the Elephants tem projetos de acompanhamento não só no Quênia como também no Mali, na África do Sul e na República Democrática do Congo. Uma importante descoberta feita pelo rastreamento por GPS é o que Douglas-Hamilton denomina de "comportamento das viagens relâmpago": o evento ocasional no qual um elefante ou um grupo deles parte em disparada e cobre longa distância em pouco tempo, indo de uma área segura a outra por uma rota perigosa ou inóspita. Um macho chamado Shadrack fez uma dessas viagens, percorrendo 80 quilômetros em 36 horas: partiu dos verdes altiplanos do maciço de Marsabit, atravessou uma cidade, cruzou o deserto de Kaisut e chegou à cordilheira Mathews, no centro-norte do Quênia. Uma elefanta chamada Senhora Kamau fez uma viagem relâmpago ainda mais ambiciosa. Cobriu 160 quilômetros em 48 horas, indo de Marsabit na direção noroeste até uma solitária zona desértica pavimentada de lava onde ela, não se sabe como, achou água, comida e segurança na paisagem ressequida e rude. Outro macho, Mountain Bull, entregou-se a uma assombrosa série de viagens relâmpago de ida e volta, transitando entre as seguras encostas setentrionais do monte Quênia por um labirinto de povoados, trigais e estradas até uma área segura em um desfiladeiro de Laikipia, fazendo essa travessia não uma, mas 14 vezes em um ano. Cada um desses animais era um representante portador de coleira que, possivelmente, integrava todo um grupo de elefantes em viagens relâmpago. Suas disparadas, registradas pelo sistema de Douglas-Hamilton e interpretadas por ele em colaboração com um colega cientista mais velho, Fritz Vollrath, ajudaram a delinear cruciais corredores de deslocamento no ecossistema de SamburuLaikipia.
Os dados sobre as posições acumulam-se. Hoje são 1,5 milhão e compõem os pontos amplamente espaçados que refletem as viagens velozes e os pontinhos menos destacados que representam movimentações cotidianas menores. Um software criado por outro jovem da equipe, Jake Wall, permite mapear e animar os dados na topografia queniana vista no Google Earth. Por isso Douglas-Hamilton e quem mais conhecer os códigos de acesso podem ligar o computador toda manhã e saber o paradeiro de cada animal com coleira. Conseguem notar que Mountain Bull fez uma viagem relâmpago de volta ao monte Quênia ou que Jerusalém, acompanhada por seu filhote de 5 anos e por outras fêmeas de Cidades Bíblicas, desceu das seguras encostas de Samburu em busca de água no Ewaso Ngiro.
As autoridades também aproveitam esses dados. Quando vou ao escritório de Julius Kipngetich, diretor do Serviço Ambiental do Quênia, em Nairóbi, reparo em dois mapas na parede. Um está crivado de alfinetes azuis: esquadrões de combate à caça ilegal. O outro tem um emaranhado de linhas sinuosas entrecruzadas, cada uma com uma seta direcional vermelha. "Todas essas setas vermelhas são corredores de elefantes", explica o diretor, acrescentando que aqueles dados lhe permitem aconselhar o governo nas questões de manejo da vida selvagem e proteção da terra. Enquanto ele fala, noto uma linha vermelha isolada partindo de Marsabit rumo ao nordeste até o coração do deserto, e penso: "Lá vai a Senhora Kamau".
Dos incentivos essenciais que regem o comportamento dos elefantes ou seja, os três esses de Douglas-Hamilton: sexo, sustento e segurança , o mais difícil de calibrar é o terceiro. Na savana, a segurança real, duradoura, é imprevisível e difícil de alcançar. O povo da região tem uma palavra para descrevê-la: neebei. Toda pessoa deseja neebei: estar livre de perigo, ameaças, incerteza, medo. E não é antropomorfismo dizer que todo elefante quer isso também.
Mesmo no norte do Quênia, mesmo no século 21, com a proibição do comércio de marfim e o policiamento contra os caçadores ilegais, a vida de um elefante (sobretudo um macho de grandes presas) pode ser precária. Às vezes um animal é morto por um agricultor furioso ao ver sua plantação destruída ou por um pastor colérico que encontra sua preciosa vaca ferida de morte e se vinga no primeiro elefante que lhe aparece. Algumas pessoas matam pelo marfim: enchem um elefante de balas de grosso calibre, arrancam-lhe a face a machadadas para extrair as presas e levam o marfim ao mercado negro.
E às vezes um elefante morre por razões que ninguém consegue descobrir. Quando volto ao Quênia para uma segunda visita, depois de eu ter estado ausente por um mês, Douglas-Hamilton conta-me que Anne, a jovem fêmea cuja coleira inspecionáramos, está morta.
Ela fora baleada por motivos ignorados. Suas presas, pequenas mas valiosas, não foram tiradas. Ainda estavam no lugar quando uma patrulha do SAQ encontrou a carcaça, e puderam ser puxadas do crânio em decomposição sem precisar do machado. Não havia vestígios do matador e nenhuma pista sobre o motivo.
Uma semana depois vou ver os restos mortais de Anne, dessa vez com Onesmas Kahindi, o catalogador de carcaças. Encontramos o corpo em um vale encharcado pelas águas da primavera no oeste de Laikipia, pouco antes de um lago retangular. Um abutre rodeava por lá, mas não sobrara muita coisa que o interessasse.
O crânio de Anne, borrado com excrementos de aves, jaz sob uma bela acácia-amarela. A mandíbula, várias costelas, uma escápula e outros fragmentos de ossos espalham-se ali por perto, junto com um resto folhoso de conteúdo do estômago e um retalho de pele seca. A articulação da mandíbula tem marcas de mordida de hiena. Toda a área recende a morte, mas, como estamos a favor do vento, só sentimos o cheiro quando a avistamos. Os vermes e as moscas, assim como as hienas, já tinham feito o trabalho e partido. Kahindi mede um molar. Tira uma foto. O céu começa a escurecer, prenunciando um aguaceiro vespertino, quando ele registra seus dados.
Anne fez suas escolhas, e uma delas levou-a a esse pequeno vale, provavelmente em busca de água e bom capim. Não sabemos o que mais ela encontrou, mas não foi neebei, e os detalhes de seu infortúnio são inescrutáveis. Kahindi, que é um operário na conservação dos elefantes, mas não um sentimentalista, tampa a caneta. "Terminado", diz ele. "Agora vamos fugir da chuva."
Tudo é questão de escolha. Os elefantes são espertos, sabem o que querem e, normalmente, onde podem encontrar do contrário, a mãe ou a avó os ensinam. Parecem sempre calcular os riscos. Preferem evitar conflito com outras criaturas grandes e perigosas, como leões ou pessoas. Afinal, são herbívoros e não têm razão para matar, exceto por defesa, confusão, pânico e desespero se suas necessidades não forem atendidas. No ecossistema de SamburuLaikipia, eles conseguem viver no espaço entre as plantações e os povoados com níveis de conflito bem menores e níveis de tolerância bem maiores que os encontrados em outras áreas. Douglas-Hamilton explicou-me tudo isso, mas, antes e depois dessa conversa, eu quase o vi morto por um elefante.
Num fim de tarde, ele foi até minha barraca e me fez um convite: "Quer sair de carro para ver elefantes antes do pôr-do-sol?" Douglas-Hamilton costumava se recompensar desse modo depois de oito horas preso à escrivaninha. Sugeri que fôssemos a pé. Eu sabia que era desaconselhável caminhar pela reserva, mas quem sabe poderíamos pelo menos subir aquele monte cônico logo atrás do acampamento? Do topo rochoso da elevação, saboreamos o magnífico panorama a oeste, com a lisura pardacenta do rio Ewaso Ngiro serpenteando entre as margens encrespadas de palmeiras e acácias. Logo a norte havia um monte maior, com duas corcovas, conhecido como Lolgotoi (Elefante Adormecido). "E aquele ali, você já escalou?", pergunto. "Não", responde-me ele com um brilho traquinas nos olhos "Mas poderíamos."
E assim seguimos a pé em direção ao Elefante Adormecido: dois homens brancos de meia-idade e um jovem samburu da equipe do acampamento, um rapaz magricela chamado Mwakini, com suas contas e shuka, a quem Douglas-Hamilton pede para nos acompanhar. Andamos apenas cinco minutos pelo mato alto e esparso e já avistamos elefantes à frente: uma fêmea e dois filhotes. Paramos e os admiramos a uma distância segura até que eles parecem se retirar, e então prosseguimos. Segundos depois, Mwakini murmura um alerta. Vimos a fêmea nos encarando, ameaçadora, a 60 metros. Tem as orelhas muito abertas. Está agitada. Sessenta metros podem parecer uma longa distância, mas não para o espaço pessoal de um elefante. Ela dá um barrito veemente e arremete.
Eu me viro e corro como um idiota. Mwakini vira-se e corre como uma gazela. Douglas-Hamilton vira-se e corre mas muda de idéia, dá meia-volta, abre os braços e grita para detê-la. Às vezes funciona: alguns elefantes (como a velha Boadicea, de Manyara) blefam em seus ataques ou ficam irresolutos e podem ser detidos por um desafio. Mas dessa vez não é blefe. A fêmea dá um barrito de novo e continua a avançar. Douglas-Hamilton se vira e corre.
A essa altura, eu estava 20 passos adiante, e Mwaniki sumira. À velocidade com que ele corria, poderia estar a meio caminho de Lamu. Mas não: ele foi direto para o acampamento (ficamos sabendo depois) e gritou em samburu: "Etara ipayan itome!", que significa "O velho foi morto por um elefante!" A notícia, embora prematura, traz gente depressa até nós.
Nesse ínterim, a elefanta alcança Douglas-Hamilton quando ele, circundando uma touceira, tenta escapar. Eu, a 15 metros, vejo quando ela o ergue com a tromba e o atira como quem joga sujeira fora com uma pá. Ele emite uma única palavra: "Socorro". Ela avança e dá um golpe com as presas para baixo. O corpo do biólogo agora está encoberto pelo capim alto, e eu não consigo ver se ela o espetou. A fêmea recua uns dez passos e faz uma pausa. Esse foi o momento, Douglas-Hamilton me contou depois, em que ele teve tempo de se perguntar se iria morrer.
Ela então se vira e parte em busca dos filhotes.
Corro até o cientista e, para minha surpresa, suas entranhas não estão reviradas como ratatouille. Douglas-Hamilton está arranhado, atordoado, machucado, amarfanhado; as botas, o relógio e os óculos tinham sumido, mas ele está inteiro. Apalpo sua caixa torácica: nenhum furo de presas. Com o esforço de ambos, ele consegue se levantar. E então chega do acampamento uma dúzia de pessoas, algumas correndo, outras de carro. Alguém encontra os óculos e os sapatos perdidos. O relógio está um caco, mas funciona. Evacuamos depressa a área para o caso de a elefanta mudar de idéia e retornar.
Depois do episódio, Douglas-Hamilton e eu procuramos entender o que acontecera. Enormes foram o alívio, as desculpas (especialmente as minhas, por querer ir a pé, mas ele não as aceita e diz que a culpa é dele) e as hipóteses. Com a ajuda de Daballen e Lentipo, o biólogo conclui que aquela fêmea era Diana, da Realeza, e seus dois filhotes. Talvez a tenhamos sobressaltado, pois ela estava a favor do vento e não pôde nos farejar antes de nos aproximarmos. Talvez temesse pelos filhotes. Talvez algum macho insistente a tivesse enervado ou um leão, pouco antes de surgirmos. Há nas anotações sobre Diana, pergunto ao pessoal da equipe, algo que sugira uma índole intratável? Não havia.
Diana. Ela era "apenas" um elefante qualquer: sensível, volátil e complexo. Seu comportamento naquela tarde, embora violento, fora matizado. No último momento, a fêmea fez uma escolha. Preferiu não matar. E ninguém, nem mesmo Iain Douglas-Hamilton, com todas as suas engenhocas mágicas e seus conhecimentos arduamente adquiridos, jamais saberá por quê.
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