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Maio de 2008

Carta do editor


Em maio de 1998, eu tentava dormir no quarto de um hotel de Lhasa, sufocado pelo ar rarefeito dos 3,7 mil metros da altitude local. No meio da madrugada, uma confusão no corredor, um estrondo, uma porta arrombada: meu quarto fora invadido por um sujeito chinês gordo e fumando. Quando acendi a luz e nossos olhares se cruzaram, houve um grito de pavor recíproco. Ele virou-se e foi embora.
Na recepção do hotel, ninguém soube me explicar nada. (Deduzi que, sem a chave de seu quarto, o cara confundiu os números e ficou berrando para acordar o companheiro até perder a paciência – e a cabeça.). A violência daquela pequena invasão ecoava em tudo o que se via pela bela e ocupada capital do Tibet nos dias seguintes. Monges ao lado de militares, bares de karaokê ao lado de templos – nada soava harmonioso. Havia uma revolta velada, contida no ar.
Em 2008, Lhasa ardeu. O monges foram à luta. Lançaram pedras, queimaram prédios. Ontem, em Paris, a chama olímpica apagou-se, pela primeira vez na história, durante mais um ato contra a opressão sobre o reino budista. Os sinais, que há dez anos eram sutis, agora são claros: se a China quiser se afirmar como potência, terá de respeitar a diversidade de culturas de seu território. E dar ao mundo uma lição de tolerância.

Ronaldo Ribeiro – Editor-sênior
rribeiro@abril.com.br
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Flashback

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Foto de Heinrich Harrer
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