Muito tem sido dito sobre melhorias operacionais e infra-estruturais para os aeroportos de São Paulo e pouco sobre algo tão relevante quanto elas: como deveria funcionar o sistema aeroportuário do estado? Afinal, para atender à demanda esses aeroportos precisam interagir entre si. Segundo o Estudo de Demanda Detalhada dos Aeroportos Brasileiros, divulgado em 2005 pelo Instituto de Aviação Civil, a previsão é de mais de 100 milhões de passageiros só em Congonhas e Guarulhos em 2025. Nem botando abaixo os dois e reconstruindo haveria capacidade para tanto. Entre os especialistas ouvidos pela VT, todos concordam em que São Paulo precisa de um terceiro aeroporto. A questão é definir a melhor alternativa: ampliar Viracopos, a 99 quilômetros da capital, ou construir um novo?
"O grande aeroporto do século 21 tem de ser Viracopos", diz o professor do departamento de engenharia de transportes da Escola Politécnica da USP Nicolau Gualda. O aeroporto de Campinas conta atualmente com uma área de quase 18 000 metros quadrados e 3 240 metros de pista. Seu novo plano diretor prevê, até 2025, uma segunda pista com 4 000 metros e terminais com capacidade para 88 milhões de passageiros por ano. "Queremos convencer as autoridades a antecipar esse cronograma para que Viracopos esteja pronto nos próximos dez anos", diz o diretor executivo do Campinas Convention e Visitors Bureau, Rui Carvalho.
Gualda defende o projeto de sistema aeroportuário aprovado em 1979 e nunca colocado em prática, no qual Viracopos desempenharia um papel importante: Congonhas concentraria ponte aérea e aviação regional; Guarulhos, aviação doméstica e para o Cone Sul; Viracopos, o restante das rotas internacionais. "É um modelo ultrapassado", afirma Alexandre de Barros, pesquisador da Universidade de Calgary, no Canadá. "A tendência atual são vôos internacionais, domésticos e regionais num mesmo aeroporto, inclusive para incentivar o mercado regional. E Guarulhos reúne condições para isso."
Defensor de um novo aeroporto, o consultor de aviação Gianfranco Beting tem um modelo em mente o Aeroporto Franz Josef Strauss, em Munique, recém-eleito, pelo terceiro ano consecutivo, o melhor da Europa e o terceiro do mundo numa pesquisa da Skytrax, empresa especializada em aviação comercial. "Está longe o suficiente para não ser engolido pela cidade e perto o bastante para permitir acesso rápido. O forte é a perfeita conectividade com o centro. De táxi, ônibus ou metrô, o passageiro leva no máximo meia hora para desembarcar no coração de Munique." Acesso, aliás, pesa contra Viracopos. E o projeto de unir o centro de São Paulo ao aeroporto de Campinas via trem, como se cogita, não encontra muitos entusiastas entre os especialistas. "Tente imaginar um passageiro chegando de um vôo, carregando malas e laptop até a estação de trem, pegando o trem até a Estação da Luz, carregando as malas e o laptop entre os camelôs...", diz Barros.
Para Gualda e Carvalho, há um obstáculo intransponível à idéia de um novo aeroporto: local. "É impossível achar uma área de 20 quilômetros quadrados na Grande São Paulo", afirma o primeiro. "Viracopos já tem parte da infra-estrutura pronta, não está cercado pela malha urbana, fica numa aérea com as melhores estradas do país e tem ótimas condições climáticas", diz Carvalho. Pelo sim, pelo não, continuam as especulações e os estudos, alguns sigilosos, sobre a viabilidade de erguer esse curinga da aviação em Sorocaba, Itu, Ibiúna ou Mogi das Cruzes.
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