Desde que as redes internacionais chegaram ao Brasil, no fim da década de 90, a oferta de hotelaria de qualidade por preços menores, sobretudo nos fins de semana, aumentou sensivelmente. Passou a valer muito mais a pena se hospedar por 24 horas em um hotel bem localizado, ambiente clean e lençóis cheirosos do que ter de enfrentar filas na beira de estrada ou marginais para passar três ou quatro horas em um quarto por onde já estiveram - e ainda estarão - outros vários casais naquele mesmo dia. Para ter uma idéia, seis horas na suíte Imperial do Harmony Motel (Rodovia Raposo Tavares, km 17, 5, 3782-5033, harmonymotel.com.br), que tem cama king-size, TV, ducha e garagem privativa, sem café-da-manhã, custam 113 reais. Com o mesmo dinheiro, um casal pode passar 24 horas no Mercure Apartments Nortel, onde uma diária de fim de semana com cama queen-size, banheiro espaçoso, café-da-manhã, TV a cabo e acesso a internet sai por 109 reais.
O casal Mariana Alves Fernandez, de 22 anos, e o empresário José Thomaz Vitorino, de 23, viveram essa transformação. Conheceram-se no colégio e, há cinco anos, começaram a namorar. Antes mesmo de a moça completar 18 anos, os dois já se aventuravam em motéis de São Paulo. O grande problema era o Dia dos Namorados. "Nessa data, as filas de espera por uma suíte são imensas. Corta todo o clima", diz Thomaz. Diante da resistência do namorado, Mariana sugeriu que fossem a um hotel. A proposta colou e a noite de comemoração durou até o dia seguinte. E não por algumas horas, como esperavam. Desde então, pelo menos uma vez por mês, enquanto o namoro não vira casamento, eles se hospedam em um hotel ou flat. "Fazemos isso aqui de casinha", diz Mariana. "Costumamos chegar no sábado logo no início da diária. Aí, almoçamos juntos, resolvemos coisas fora daqui, saímos para jantar, passeamos e voltamos para dormir, descansar e tomar um café-da-manhã especial no dia seguinte."
Os hotéis tomaram o espaço dos motéis. Prova disso é que, enquanto o número de motéis mantém-se praticamente estável há duas décadas, o de hotéis saltou de 89 para 410 no mesmo período. "Por algum tempo, os hotéis fecharam os olhos para esse tipo de clientela", diz o professor de hotelaria Julio Butuhy, do Senac São Paulo. "No entanto, recentemente perceberam que atrair esse público pode ser mais uma estratégia para garantir a ocupação nos fins de semana, quando o movimento é fraco." Até há pouco, quem procurava uma noite romântica em hotel tinha como opção apenas a diária de noite de núpcias ou se hospedar em uma suíte convencional. Agora, hotéis de diversos padrões criaram pacotes para casais que procuram um ambiente romântico, e não necessariamente porque acabaram de se casar. Há cerca de três meses, a rede Mercure criou o Le Weekend. Às sextas-feiras e aos sábados e domingos, o pacote dá direito a espumante, bombom e café-da-manhã no quarto. Hotéis de luxo também seguem a mesma tendência. Em junho, o Renaissance lançou o pacote romântico Celebration. Nas suítes onde o pacote é preparado, o banho de espuma na banheira tem também pétalas de rosas vermelhas. No quarto, um coração recheado com trufas, feitas pelo pâtisserie da casa, e champanhe esperam pelo casal. Do total de vendas de pacotes do hotel este ano, quase metade foram do Celebration. Outro hotelão que resolveu acolher mais pombinhos foi o Sofitel, que criou quatro pacotes com perfis diferentes, além do de núpcias. Cada um para um tipo de casal. Entre eles está o picante So Sexy, que pode vir até com boir de plumas, venda para os olhos e DVD com posições do Kama Sutra, e o relaxante So Relax, que inclui tratamento para duas pessoas no Sensus Spa, entre outros pequenos luxos. A lista de amenities é extensa. Tem até CD com músicas românticas para embalar a noite.
O problema é que, em geral, os estabelecimentos que têm esse tipo de serviço são mais caros. A alternativa para casais menos abastados é procurar hotéis baratos, mas bem localizados. Nesse caso, criar o clima fica por conta do próprio casal. Na região da Avenida Paulista, por exemplo, a diversidade de hotéis é imensa e a de restaurantes, cinemas e teatros também. É ali que ficam o luxuoso Renaissance e o modesto Formule 1, cujas diárias não chegam a 100 reais. O grande risco de escolher só porque o preço é baixo é acabar com o clima. O Maksoud Plaza (Alameda Campinas, 150, 3145-8000, maksoud.com.br) tem a promoção Jantar e Ficar. Ao jantar no hotel, residentes da capital têm 50% de desconto no valor da diária, que, dessa forma, pode chegar a 185 reais. A comida do restaurante é ótima, mas faz parte do set list do som ambiente Beatles instrumental em versão de samba. Além disso, os quartos parecem escritórios, com escrivaninha, TV antiga e carpete. No Formule 1, as paredes são tão finas que dá para ouvir ruídos dos quartos vizinhos e se tem de conviver com um beliche de solteiro sobre a cama de casal. Mesmo assim, nas noites de sábado, formam-se ali filas de casais enquanto esperam para fazer check-in.
Essas transformações no meio de hospedagem para casais não são só questão de mercado. Por trás delas há também uma revolução nos costumes brasileiros. Precisou acontecer uma série de mudanças no comportamento sexual para que a circulação de casais em hotéis fosse permitida. Até a década de 40, namorar era sinônimo de troca de bilhetes, palavras bonitas e serenatas. Os encontros ocorriam quase que exclusivamente dentro de casa, sob tutela rigorosa dos pais. Só então, passou-se a ir ao cinema, aos bailes, às praças, aos carros... "O carro tornou-se uma alternativa para hotéis onde um casal só entrava exibindo atestado matrimonial. (...) O carro popularizou-se, assim como a piscina de clubes, o cinema, as excursões e as viagens", registrou a historiadora Mary Del Priori em seu livro História do Amor no Brasil.
A criação do motel nos moldes que conhecemos aqui no Brasil foi uma estratégia para burlar tais regras morais. Afinal de contas, embora não fosse lei, o controle pela certidão de casamento só foi completamente abolido há cerca de 20 anos - e, ainda assim, nas grandes cidades. Já no motel ele nunca existiu. Nos Estados Unidos, onde foram criados na década de 20, os motéis não têm conotação sexual alguma até hoje. Eles são apenas lugares para se hospedar rapidamente, em geral, por apenas uma noite. É por isso que estão sobretudo à beira de estradas.
Mas, mesmo com a criação dos motéis, a vida dos casais continuou difícil. Só na década de 1980 a polícia deixou de coibir a curta permanência. Apesar disso, na mesma época a nova lei de zoneamento, criada durante o governo de Jânio Quadros, fez com que os motéis fossem relegados às estradas e marginais. Foi então que a Raposo Tavares ganhou o apelido de "a rodovia do amor".
Com tanto controle, o ambiente de motel ficou associado ao proibido, à transgressão, ao profano, idéia um tanto ultrapassada atualmente. Afinal de contas, se seus avós precisaram de carros e becos para saciar os hormônios, os jovens de hoje namoram mesmo é em casa, no quarto ao lado do dos pais, assim, sem problema algum. Por tudo isso, para manter-se vivo, o motel precisa se reinventar. "O motel à moda antiga está marginalizado", diz Butuhy. "A tendência, agora, é diminuir o erotismo nas suítes e criar apartamentos que poderiam tranqüilamente estar na casa de um executivo solteiro de classe AA." O Lumini Motel (Rua Rubens Meireles, 477, Limão, 2197-0666, luminimotel.com.br) é um exemplo disso. Lá, nenhuma das 60 suítes lembra o modelo tradicional. Sim, há um espelho sobre a cama, mas ele tem um recorte discreto que até dá um charme. O preço das suítes varia entre 126 e 410 reais e, às sextas-feiras e aos sábados, o período é de duas horas e o pernoite começa à 1h e termina às 15h. Outro que segue a mesma linha é o L'Essence (Avenida Torres de Oliveira, 600, 3765-3160, lessencemotel.com.br). Trata-se de um motel com menores preços. A suíte mais cara sai por 180 reais; no entanto, todas as acomodações têm decoração moderna, no estilo clean, marcado pelo branco, e móveis com linhas retas. Mas nem sempre foi assim. A decoração e a administração atual são novas. Têm apenas três anos. Antes disso, ali funcionava o Mon Cherry, um motelão à moda antiga que, com quase três décadas, pertencia à mesma família dona do L'Essence, mas tinha outra administração. "Resolvemos mudar tudo porque o motel estava muito vazio. Colocamos o antigo abaixo e modernizamos todas as suítes", diz a proprietária Vera Teixeira.
A nova cara das suítes atraiu também um novo público. No L'Essence, que fica perto da Universidade de São Paulo (USP), é comum a presença de estudantes sozinhos ou com os pais enquanto não encontram uma república para morar definitivamente. "Hoje ele pode ser um local para se hospedar como outro qualquer", diz José Carrera, presidente da Associação Paulista de Motéis (Apam). "De segunda a quinta, quando o movimento de casais é bem mais fraco, é possível pagar por 12 horas o mesmo valor que se paga por três nos fins de semana. Trata-se de boa alternativa para um viajante que precisa apenas de um lugar para dormir antes de pegar a estrada no dia seguinte", diz Carrera.
Ainda não é o que acontece com o Playboy (4640-2286; suítes de R$ 50 a R$ 240) do Pepe, que continua à moda antiga: com piscina, hidromassagem, espelho no teto, garagem privativa, mas, agora, sem a polícia no pé.
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