Neuschwanstein (pronuncia-se "nóichivanstáin") está localizado numa área esplêndida em meio à floresta. É visto de longe no pátio do estacionamento de carros e ônibus de excursão, onde se espalham hotéis, lanchonetes, restaurantes, cafés, lojinhas de suvenires e a bilheteria. Há três maneiras de chegar ao castelo - a mil metros de altura, no topo de uma montanha íngreme. A pé, são cerca de 40 minutos por subidas que rivalizam com as ladeiras de Lisboa. Os românticos devem optar pelas charretes, que saem em frente ao hotel Muller e custam 5 euros (ida e volta). Mais baratinho, o ônibus sai por 2,60 euros (ida e volta), e a parada fica em frente ao Schlosshotel. Para ir de ônibus também é preciso ter razoável forma física. Nada de saltar na porta. Caminha-se ao menos durante dez minutos, por altos e baixos, até o portão principal.
Apesar da deslumbrante localização e do interior luxuoso, Neuschwanstein só exibe um, digamos, defeito. É difícil ter noção de sua imponência como um todo. As imagens mais belas são feitas por profissionais em vôos aéreos. A única maneira de contemplar integralmente sua beleza é na Marienbrücke (a Ponte de Maria), inaugurada em 21 de outubro de 1866. Lá, turistas se aglomeram para clicar o maior número de fotos. Todas de um mesmo ângulo - Neuschwanstein de perfil, em meio a um espetacular cenário natural formado por cachoeiras, lagos e mata espessa. A vista tira o fôlego.
Embora seja um dos mais bonitos cartões-postais da Alemanha, Neuschwanstein é mais popular na Bavária. "Apenas 50% dos visitantes são alemães. O castelo é conhecido internacionalmente, já que há muitos americanos, italianos e japoneses", afirma o assessor administrativo Markus Richter. "No ano passado, por causa da Copa do Mundo, tivemos uma invasão de brasileiros." Tanto que há um tour guiado com áudio em português. Neuschwanstein pertence ao estado da Bavária, que ainda administra outros 40 castelos. Foram gastos 8 milhões de euros em uma reforma externa há três anos. Sua manutenção não é cara. Por ser uma construção sólida e nova em comparação a outras obras históricas, para ficar reluzente exige 3 milhões de euros por ano. No mesmo período, passam por suas catracas aproximadamente 1,3 milhão de pessoas, que pagam 9 euros pela visita. O número de turistas cresceu 20% em 2007, sobretudo depois da exposição na mídia.
Quem vê Neuschwanstein deve se recordar de um símbolo marcante dos desenhos infantis. Encantado com o lugar, Walt Disney pediu que os profissionais de seu estúdio se inspirassem nele para criar o castelo de A Bela Adormecida, desenho animado produzido em 1959. Dois anos antes, porém, a Disneylândia, em Anaheim, ao lado de Los Angeles, inaugurou reprodução semelhante ao Neuschwanstein. O mesmo aconteceu com o castelo da Cinderela, no Magic Kingdom, da Disneyworld, em Orlando.
A vocação para ícone de reino de faz-de-conta, aliás, sempre acompanhou Neuschwanstein. Ao iniciar as obras, em 1869, a intenção de Ludwig II foi criar um refúgio para suas fantasias de glória e poder, que não tinha desde 1866, quando a Bavária perdeu a guerra para a Prússia. Ludwig assumiu o trono aos 18 anos sem a menor experiência nos negócios de Estado. Adorava artes e, principalmente, as óperas de Richard Wagner, de quem se tornou amigo e mecenas. Foi em uma carta ao compositor alemão, em 1868, que Ludwig anunciou a intenção de construir o castelo. A região era familiar a Ludwig. Bem perto dali está o castelo de Hohenschwangau, onde, quando criança, ele passava o verão com a família. Hohenschwangau é igualmente aberto ao público. A entrada custa também 9 euros. E com um bilhete único de 17 euros é possível visitar os dois castelos no mesmo dia.
Neuschwanstein ocupa área de 6 mil metros quadrados e é uma mistura dos estilos romântico, barroco, gótico e bizantino. Idealizado pelo cenógrafo Christian Jank, nunca foi concluído. O acesso difícil e as sucessivas modificações no projeto feitas por Ludwig atrasavam continuamente as obras. Após sua morte, em 1886, os trabalhos prosseguiram por mais oito anos, mas ainda assim apenas um terço dos cômodos foi completado. Construído para ser o refúgio de um rei que se isolava cada vez mais da realidade, suas pinturas evocam três heróis de lendas medievais: o poeta Tannhäuser, o cavaleiro Lohengrin e seu pai, o rei Parsifal. Esses personagens, mais Tristão e Isolda, cuja triste história de amor é retratada no quarto do rei, também aparecem nas óperas wagnerianas. Outra figura recorrente é o cisne, que dá nome ao castelo ("Novo Cisne de Pedra"). O castelo dispunha de equipamentos modernos para a época: aquecimento, água corrente e descarga nos banheiros. Ludwig chamava os empregados por uma campainha elétrica, e alguns aposentos tinham até telefone. Um elevador levava os pratos da cozinha à mesa de refeições.
A visita guiada percorre 14 cômodos. Impressiona a Sala do Trono, de estilo bizantino, construída, por ordem do soberano, à semelhança da Basílica de Santa Sofia, em Istambul. Embora a maioria dos aposentos reais siga o estilo romântico, o quarto é gótico. Catorze artesãos, que trabalharam ali durante quatro anos, ficaram encarregados do elaborado trabalho em carvalho nas paredes. Até a cama, ricamente adornada, lembra uma igreja gótica. No oratório, o altar e os vitrais exaltam o rei francês Luís IX. O magnífico Salão dos Cantores, o maior aposento, é o destaque de Neuschwanstein. Foi inspirado na sala de banquetes e no salão dos cantores do castelo de Wartburg. Seiscentas velas, distribuídas por candelabros e lustres, iluminavam o recinto. A saga de Parsifal é o tema ali e, embora Wagner tenha composto a ópera homônima por incentivo de Ludwig, o rei nunca ouviu um concerto do amigo no salão. O tour termina na cozinha, preservada como era no século 19. No térreo, fotos e desenhos mostram o passo-a-passo da construção.
Em 1885, bancos estrangeiros ameaçaram confiscar o castelo para quitar as dívidas cada vez maiores do rei. Sua recusa em fazer um acordo levou o governo da Bavária a declará-lo insano. Deposto, Ludwig II foi preso em Neuschwanstein em 12 de junho de 1886 e levado ao Palácio Berg, às margens do Lago Starnberg. No dia seguinte, aos 40 anos, foi encontrado morto no lago, em circunstâncias nunca esclarecidas, ao lado do psiquiatra que havia atestado sua loucura. "Quero permanecer um eterno mistério para mim mesmo e para os outros", disse Ludwig II certa vez. Conseguiu.
O castelo foi palco do maravilhoso Ludwig, cinebiografia de quase quatro horas realizada por Lucchino Visconti, disponível em DVD. Na fita do mestre italiano, que ficou dois meses por lá e tinha permissão para filmar somente à noite, aparecem (no terço final) muitas cenas no quarto do rei e na Sala do Trono, todas estreladas pelo austríaco Helmut Berger, que interpreta o protagonista. A região onde está Neuschwanstein combina com sua beleza. Duas cidadezinhas próximas têm estrutura de hospedagem e alimentação. Em Füssen, lojinhas de suvenires espalham-se por ruelas encantadoras. Pousadas charmosas cobram por volta de 70 euros por um quarto duplo com café-da-manhã. Já a minúscula Schwangau, a 5 quilômetros de Füssen, mais parece um refúgio de conto de fadas. Füssen e Schwangau são o destino final da Rota Romântica, estradinha magnífi ca cortada por campos, vilarejos e muralhas medievais que começa 350 quilômetros antes, na cidade de Würzburg. Mas aí já é outra viagem.