Aos poucos eles vão se espalhando pelo navio, e a festa que começou no deque da piscina vai junto. Ou melhor, os adolescentes continuam ali ao som de Poeeeeiiiraaaa, o já velho hit de Ivete Sangalo que se renova a cada estação e que eu ainda ouviria muitas vezes até o fim do cruzeiro. Mas os outros vão tomando seus lugares nos bares. Só no deque 7 são dois: o Sundowner Lounge, um piano-bar onde a música, mais calminha, fica entre Roberto Carlos e Ana Carolina, e o The Pub, onde o copo, invariavelmente, chega à mesa embaçado de tão gelado. Na área externa, o Sailaway, no deque 11, e o Mirage, no deque 10, são mais sossegados. É para lá que se vai quando a idéia é conseguir um pouco de paz para curtir o mar. Nas boas-vindas também houve musicais no The Ocean Theatre, no deque 7. Em frente, o cassino já está com as portas abertas para receber os jogadores. E a viagem nem começou...
Neste primeiro tour da temporada 2007/2008, mais de 1 400 passageiros zarparam a bordo do Escape - praticamente a ocupação completa. Até novembro do ano passado, 70% dos pacotes de toda a temporada já haviam sido vendidos. Este é um dos navios mais populares do verão, e muito dessa popularidade tem a ver com os preços baixos dos cruzeiros (estão entre os mais baratos da temporada) e com a programação animada dos temáticos, como o Vibe Fest on Board, que transforma o navio em uma grande rave. O número de noites e os roteiros variam a cada cruzeiro, mas neste verão o Island Escape navega somente pelas praias do Sul e do Sudeste.
Na minha viagem atracamos em Búzios, Cabo Frio e Ilhabela. As paradas são as únicas ocasiões em que o navio fica vazio. Quase ninguém nas espreguiçadeiras, nos bares nem nas piscinas. A maioria gosta mesmo é de descer e negociar os passeios em terra, o que sai sempre mais barato que comprá-los no navio. Se a bordo você paga 40 dólares por um bate-volta, nas praias é possível comprar o mesmo passeio por 40 reais. Quempermanece a bordo, além de encontrar a piscina bem mais tranqüila, consegue aproveitar melhor as atividades do dia, sempre descritas no informativo deixado na cabine.
Com o navio em alto-mar, é bem diferente. A todo instante os alto-falantes divulgam a programação para os próximos horários. E a freqüência é massiva. "Aqui o clima é descontraído e as pessoas são divertidas. Ao contrário do Mistral, onde as pessoas são bem mais formais", diz a comerciante Regina Foguet. Em 2002 ela fez sua primeira viagem no Escape. Repetiu a dose em 2005. Velha conhecida do navio, tem só uma reclamação. "Ele está precisando de uma reforminha", repara. É verdade. Nas cabines e nos banheiros a pintura estava velha. Somente nas áreas externas começaram as melhorias - dava para notar tinta fresca em alguns lugares. Outro ponto fraco das cabines eram as TVs sem controle remoto. Alguns passageiros também reclamaram, e um funcionário me confessou que, quando o navio chega ao Brasil, os controles dos aparelhos são retirados das cabines para evitar roubos.
A atitude antipática pareceu ser apenas um deslize de um serviço costumeiramente elogiado. A tripulação - a maioria de brasileiros - é atenciosa e consegue manter a ordem, mesmo com tantas festas a bordo. Ao fim dos cinco dias de viagem, muitos tripulantes já conheciam alguns passageiros pelo nome e mesmo os que não falavam português arriscavam. "Café com leite, café com leite, café com leite", repetia o garçom, com sotaque carregado, enquanto atravessava o restaurante. Filipino, ele tinha acabado de ouvir a expressão e parecia ter de repeti-la em voz alta para não esquecer. Todo dia de manhã, ao lado da minha mesa, lá estava ele: "Café com leite?".
Para os que começam o dia cedo, imensa minoria, o café no restaurante Island é servido até as 9h. No Beachcomber, o mais concorrido, vai até as 11h. O Island é um pouco mais formal, e essa é a única diferença entre eles. No cardápio não muda nada. Quem perde o almoço no Island (das 12h às 14h) tem comida à vontade no Beachcomber a qualquer hora do dia. Não só o menu como também os horários das programações foram ajustados ao gosto brasileiro. "Na Europa, não temos muitas festas a bordo e os passageiros são mais velhos. No Brasil é o inverso, o público é jovem e tem festa até de madrugada", diz o diretor de hotelaria Calvin James. "Como as pessoas dormem até mais tarde, atrasamos o início da programação."
A vida na maior parte dos deques começa depois das 10h. Até então só a academia fica aberta, e às 8h já há aulas de pilates e abdominal nos deques 10 e 12. As crianças têm programação das 10h às 22h no Kid's Club, e para os passageiros mais maduros não faltam aulas de dança, canto, além de jogos de cartas e até bingo e dobradura. E, para quem quer só achar seu lugar ao sol e prefere um cantinho mais tranqüilo (para continuar dormindo e repor as energias da noite anterior), as espreguiçadeiras estão espalhadas por todos os deques - as mais sossegadas são as do 7 e 8, que só ficam ocupadas no pôr-do-sol.
No jantar funciona também o Oasis, o único restaurante realmente formal do navio. A reserva de uma de suas mesas sai por US$ 12, entre 19h e 20h, e US$ 15, a partir das 21h. Este também é o horário em que começam os musicais, no estilo Broadway, no The Ocean Theatre. Os shows são a programação preferida dos mais velhos e uma das poucas ocasiões em que o traje ganha certa pompa. Depois, o pessoal estica para o Bounty Lounge, que tem clima de flashback, só com hits dos anos 60, 70, 80. A Lookout é a pista de dança preferida dos adolescentes. É lá que as caixas de som - sem hora para diminuir os decibéis - alternam a trilha entre batidas eletrônicas e o pop de Madonna, Prince, New Order e por aí vai.
Festa mesmo, com F maiúsculo, vi na penúltima noite, no grito de Carnaval ao redor da piscina. Não só tinha confete e serpentina voando, como também havia muita gente fantasiada - os figurinos podiam ser comprados lá mesmo (mas os que se programaram direitinho já sabiam disso e levaram o seu). Foi ali que vi dona Enriqueta Melo, de 62 anos. Até tentei puxar papo, mas ela tinha pressa para entrar no trenzinho. "Ainda sou jovem e tenho muito que aproveitar", disse, apressada.
O Island Escape é conhecido como o "navio da galera", mas não é exatamente assim. O que vi foi um navio sempre em festa, não só para a moçada (e, mesmo com tantas baladas, não testemunhei cenas de bebedeira explícita nem encontrei latinhas ou bitucas jogadas no chão). Dos 10 aos 70, a idéia é se divertir. Um conselho? Só embarque se tiver pique para entrar nesse clima de festa o tempo todo. A vida aqui parece funcionar como se fosse sempre véspera de Réveillon.
ANOTE AÍ- Vibe Fest on Board Santos, Florianópolis, Santos em 3 noites, desde US$ 379 (saída em 5/1). Party Cruise Santos, Búzios, Santos em 3 noites, desde US$ 289 (saída em 18/1). Costa Brasileira Santos, Búzios, Santos em 3 noites, desde US$ 289 (saída em 6/2). Zen Cruise Santos, Florianópolis, Santos em 3 noites, desde US$ 289 (saída em 9/2). Costa Brasileira Santos, Ilha Grande/Angra, Santos em 3 noites, a partir de US$ 269 (saída em 12/2). Tribe on Board Santos, Búzios, Santos em 3 noites, desde US$ 459 (saída em 22/2). Com a Sun & Sea (11/3156-5600, sunsea.com.br).
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