Antes, porém, hesitei no destino e quase troquei Noronha por uma navegação de cabotagem em Ilhéus. Renato Martins, um famoso maconheiro de Brasília, me falara de uma maldição, a tragédia que ronda todo o lugar perseguido pela fatalidade da beleza desmedida, sobretudo quando lá Deus deu o seu melhor no negócio de fazer praia bonita. Ora, Noronha era, segundo meu amigo dissidente, a colônia eleita pelos betinhos (os mauricinhos) brasileiros e o único lugar do Brasil, além do sertão e do Ceará, em que as mulheres cultivam bigode (e velocino púbico) em tributo a Quincas Berro d'Água. E havia ainda "neuronha", a doença do presídio demorado no paraíso. O oráculo Ricardo Freire garantia-me o contrário: "Pode acreditar em tudo o que ouviu e viu das belezas de Fernando de Noronha. Seus amigos não exageraram nas descrições, e as fotos que saem publicadas nas revistas não são produto da escolha de ângulos favoráveis. De frente para o mar, todos os ângulos são favoráveis".
Confiei no oráculo e segui viagem de Recife no Boeing 767 da Varig (minha saudosa companhia de vôos regulares a Lisboa) que julguei uma ave gigantesca para a graciosidade da ilha. Logo no vôo, veio a premonição, o porquê da pousada mais chique da ilha se chamar Maravilha. Se eu fosse águia, Noronha seria minha serpente, e aí então eu comeria cada pedacinho - com sua licença, povo brasileiro - até saciar toda essa vontade de viajante canibal em êxtase celestino. Guardei a fome de náufrago na mala (aqui seria a terra santa do Robinson) e me dei ao instante de corpo inteiro. No guichê onde o recém-chegado paga a comissão do paraíso (213,81 reais para uma semana ou 2 847,42 reais para um mês, sempre proporcional à duração da estadia), senti aquele prazer mórbido de futuro cristão morto que paga seu mausoléu de pedraria fina. Eu ia morrer de felicidade, e minha mulher, junto comigo. Agora eu entendia por que o moço do hotel nos olhava como casal da Atlântida quando dissemos "Vamos para Noronha". Vinte reais por dia, nos primeiros dias, era demasiada grana por uma assoalhada no paraíso, e o brasileiro tinha um planeta gratuito de costa. No pretérito, Noronha foi o Tarrafal brasileiro, e muitos dos donos de pensão - toda casa de Noronha é casa de família e residencial - são filhos de ex-condenados com histórias à Papillon. Mas o embaixador da ilha é o Zé Maria, antigo proprietário de supermercado do Recife que ali foi de férias, enamorou-se - pela ilha, pelo calhau do deus Príapo no jardim e pela sua camponesa de viçoso buço - e não mais quis voltar para o continente. Entendo o Zé. E o entendi plenamente quando desci à Baía do Sancho e tive a praia mais vezes votada a melhor da América do Sul só para mim e para o amor de minha vida.
O CLIMA Onde amores lugares-pessoas serão sempre perfeitos
O REFRESCO A caipirinha do Bar Duda Rei, na Praia da Conceição
ESCALA SELVAGEM 90%. No verão, outro casal apaixonado pode querer dividir a cena. Mas haverá sempre o lugar perfeito, lembra? (E ele pode ser a Praia do Leão)
AVALIAÇÃO Faça qualquer coisa para chegar lá
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