A mudança da família real portuguesa para o Brasil, fugindo das tropas do imperador Napoleão Bonaparte, foi um evento ímpar na história da humanidade. Nunca antes um rei europeu tinha atravessado um oceano para viver e governar do outro lado do mundo. No espaço de apenas 13 anos, entre seu desembarque no Rio de Janeiro, em 8 de março de 1808 (depois de uma escala de cinco semanas em Salvador), e o retorno a Portugal, em 1821, o Brasil deixou de ser uma colônia atrasada, ignorante e proibida para se tornar uma nação independente. Apesar da importância desse acontecimento, no Rio de Janeiro de hoje a tarefa de decifrar o passado está toda confiada à imaginação do visitante.
O desprezo pelos lugares históricos nunca foi novidade no Brasil, mas o caso da corte no Rio de Janeiro chega a ser dramático. Os poucos edifícios e monumentos da época ainda existentes estão quase todos abandonados e mal identificados. Um turista desavisado poderia passar por muitos deles sem tomar conhecimento de seu valor histórico. Um exemplo é o Palácio de São Cristóvão. Situado na Quinta da Boa Vista, a algumas centenas de metros do Estádio do Maracanã, com vista para o Morro da Mangueira, foi a residência oficial de D. João VI. Ali viveu e reinou, portanto, o único soberano europeu a colocar os pés em terras americanas em mais de quatro séculos. Ali o rei do Brasil e de Portugal recebeu seus súditos, ministros, diplomatas e visitantes estrangeiros durante mais de uma década.
E, no entanto, quase nada no Palácio de São Cristóvão lembra a corte de Portugal no Rio de Janeiro. A construção retangular de três andares, que D. João ganhou de presente de um grande traficante de escravos ao chegar ao Brasil, é hoje um prédio descuidado e sem memória que abriga o Museu Nacional. O acervo do museu reúne um meteorito, uma coleção de múmias, aves e animais empalhados e vestimentas de tribos indígenas abrigadas em caixas de vidro. As peças estão distribuídas ao acaso, sem critério de organização ou identificação. Nenhuma placa indica onde eram os dormitórios, a cozinha, as cavalariças e as demais dependências usadas pela família real.
A mesma sensação de descaso se repete no centro do Rio de Janeiro. Localizado na Praça 15 de Novembro, em frente à estação das barcas que fazem a travessia da Baía de Guanabara em direção a Niterói, o antigo Paço Imperial é um casarão de dois andares do século 17. Foi a sede oficial do governo de D. João VI no Brasil, mas, com exceção de uma carruagem antiga de madeira e sem identificação, exposta junto à janela direita da entrada principal, nada ali faz referência a seu passado histórico. Os aposentos vazios são usados de forma esporádica para eventos deslocados do contexto.
Nada, porém, se compara ao antigo mercado de escravos do Valongo. O maior entreposto negreiro das Américas sumiu do mapa sem deixar vestígios, como se jamais tivesse existido. Sua localização é ignorada nos mapas de ruas e nos guias turísticos. Situada entre os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo, a antiga Rua do Valongo até mudou de nome. Hoje se chama Rua do Camerino. Ao final dela, em direção à Praça Mauá, uma ladeira intitulada Morro do Valongo, sem nenhuma placa, monumento ou explicação, é a única referência geográfica que restou. É como se a cidade, de alguma forma, tentasse esquecer o velho mercado negreiro e a mancha que ele representa na história do Brasil.
Outra dificuldade para o turista é que, nesses 200 anos, os contornos e a topografia do Rio de Janeiro se modificaram muito. Nesse período, a cidade foi aplainada, aterrada, desmatada, perfurada, desbastada - de modo que hoje seu traçado junto ao mar é quase irreconhecível quando comparado ao dos mapas da época da chegada da corte ao Brasil. Compare, por exemplo, as paisagens que aparecem nas duas primeiras fotos do slide-show. A primeira é uma litografia de autoria de Henry Chamberlain, filho do então cônsul britânico no Rio de Janeiro. Mostra um panorama da cidade visto da Baía de Guanabara em 1822, o ano da Independência. A segunda é uma fotografia feita do mesmo ângulo algumas semanas atrás. Observe que, além do avião pousando no aeroporto Santos Dumont e da selva de prédios, há uma diferença surpreendente entre as duas cenas. É a ausência, na fotografia atual, do Morro do Castelo, uma elevação que existia no centro do Rio de Janeiro de 200 atrás e que aparece no meio da litografia de Chamberlain. Esse morro foi arrasado em 1922, por razões sanitárias. Suas terras foram usadas para aterrar parte da Urca, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Jardim Botânico e outras áreas baixas ao redor da Baía de Guanabara. A medida melhorou a ventilação e o escoamento das águas na região, antes assolada por mosquitos e doenças tropicais.
Apesar de todas as ressalvas e dificuldades, refazer o roteiro da corte portuguesa é um esforço que vale a pena. Por duas razões. A primeira é que o Rio de Janeiro continua lindo e qualquer pretexto para visitá-lo é válido. A segunda é que, graças à dedicação de alguns cariocas, há meia dúzia de museus e monumentos muito bem preservados, que compensam em muito o abandono dos demais. Um exemplo são as sociedades de amigos do Jardim Botânico, do Museu Histórico Nacional, do Museu Nacional de Belas Artes e da Biblioteca Nacional. São grupos apaixonados e abnegados de doadores e consultores que mantêm essas três instituições num padrão de conservação muito acima da média nacional. Além disso, há alguns museus, galerias, institutos e fundações sob a responsabilidade de instituições que levam a sério a preservação do patrimônio histórico e cultural. É o caso da Marinha Brasileira, do Banco do Brasil e dos Correios. Em lugares como o Espaço Cultural da Marinha e o Museu Naval, ambos na região central da cidade, e o Museu do Corpo de Fuzileiros Navais (criado em 1808), situado na Fortaleza de São José da Ilha das Cobras, o visitante é bem recebido e corretamente orientado o tempo todo. Os centros culturais do Banco do Brasil e dos Correios, também nas imediações, são igualmente detentores de acervos e exposições que merecem uma visita neste período de comemorações dos 200 anos da chegada da corte.
Por isso, use toda a sua imaginação e comece por onde tudo começou: o terreiro do Paço Imperial, na Praça 15. Foi ali, junto ao Chafariz do Mestre Valentim, que a corte de D. João desembarcou, em 1808. "Eram duas para as três horas da tarde, a qual estava muito fresca, bela e aprazível", registrou Luis Gonçalves dos Santos, o padre Perereca, autor do único relato ao vivo sobre o acontecimento. Aos 40 anos, cônego da Igreja Católica, versado em latim, grego e filosofia, Luis Gonçalves era chamado de padre Perereca devido à estatura baixa e franzina e aos olhos esbugalhados. É uma indicação de que, já naquela época, a irreverência e o humor faziam parte da personalidade carioca e não poupavam ninguém. O tom do relato do padre Perereca é laudatório, de bajulação e deslumbramento, mas os detalhes são de um observador atento e curioso. "Rio de Janeiro, cidade a mais ditosa do Novo Mundo! Rio de Janeiro, aí tens a tua augusta rainha e o teu excelso príncipe com sua real família, as primeiras majestades que o hemisfério austral viu e conheceu", escreveu ele. "Enche-te de júbilo, salta de prazer, orna-te dos teus mais ricos vestidos, sai ao encontro dos teus soberanos."
Graças ao padre Perereca, sabe-se que, depois de desembarcar no terreiro do paço, D. João foi recebido por uma comissão de vereadores, padres, fidalgos, magistrados e pela tropa com os estandartes portugueses. A família real foi aspergida com água benta, em meio à queima de incensos e rezas. D. João beijou a cruz, recebeu as bênçãos do bispo e colocou-se debaixo do pálio de seda vermelha e frisos dourados que o protegia do sol. Em seguida, formou-se imenso cortejo composto dos que recebiam e dos que chegavam, todos caminhando lentamente em direção à Igreja do Rosário, então catedral da cidade. Esse roteiro, de cerca de 1 quilômetro, pode ser refeito hoje em pouco mais de uma hora. Arcos triunfais erguidos às pressas marcavam o percurso. As ruas foram cobertas "de fina e branca areia, folhas, ervas odoríficas e flores", segundo a descrição do padre Perereca. Da fachada das casas pendiam "cortinados de damasco carmesim; e das janelas, ricas e vistosas tapeçarias de lindas e variadas cores; umas de damasco, outras de cetim e outras de sedas ainda mais preciosas". A música jorrava dos coretos nas ruas vizinhas.
À frente do cortejo iam as autoridades do Rio de Janeiro, os oficiais militares, os juízes e os padres, monges e seminaristas dos numerosos conventos. Logo atrás, segundo Perereca, "seguia-se o estandarte da Câmara, trazido por um cidadão, o qual trajava vestido de seda preta, capa da mesma cor, colete e meias de seda branca, chapéu meio abado de plumas brancas e presilhas de pedras preciosas, cuja capa era ornada com bandas de seda ricamente bordada". Era ladeado por duas compridas fileiras de homens trajados da mesma maneira, que formavam a "guarda do estandarte". E fechando o cortejo, vinha o pálio sobre o qual caminhava a família real.
Na catedral foi celebrado o Te Deum, uma cerimônia de ação de graças pelo sucesso da viagem. Em seguida, houve o beija-mão, no qual os participantes do cortejo se prostravam diante de D. João para lhe beijar a mão, num gesto que significava, ao mesmo tempo, obediência e submissão dos súbitos da colônia ao príncipe. Esse curioso ritual da monarquia portuguesa, que já era praticado pelos vice-reis da colônia, marcaria todo o período em que a corte esteve no Brasil. Já estava escuro quando a família real seguiu de carruagem até o palácio do vice-rei, o conde dos Arcos, convertido em Paço Imperial. Exaustos, foram todos dormir. Nas ruas em volta, porém, a festa continuou noite adentro, com fogos, músicas e declamações de poesias em homenagem aos recém-chegados.
D. Maria I, a rainha louca, mãe de D. João, só desembarcou no dia 10. Aos 74 anos, alquebrada pela viagem, foi conduzida numa cadeirinha de braços sustentada pelos criados reais. Nos primeiros dias, D. João, Carlota Joaquina e os filhos ficaram hospedados no Paço Imperial. Foi um arranjo temporário. Dentro de pouco tempo, o príncipe regente iria morar no Palácio de São Cristóvão, bem mais amplo e agradável. Sua mulher, a princesa Carlota Joaquina, de quem vivia separado, instalouse numa chácara na Praia de Botafogo. A rainha Maria I ficou no Convento dos Carmelitas, ligado ao Paço Imperial por um passadiço improvisado sobre a Rua Direita, atual 1o de Março. Também no convento foram colocadas a cozinha, as oficinas e a real ucharia, como era chamada a despensa que guardava os mantimentos da corte. Situada ao lado do convento, a Igreja do Carmo foi transformada em Capela Real. As vizinhas Casa da Câmara e Cadeia Pública também foram anexadas ao paço por um passadiço para servir de alojamento das criadas reais.
Mais complicado foi encontrar habitação para os milhares de acompanhantes da corte, recém-chegados à cidade que ainda era relativamente pequena, com apenas 60 mil habitantes. Por ordem do conde dos Arcos, criou-se o famigerado sistema de "aposentadorias" pelo qual as casas eram requisitadas para uso da nobreza. Os endereços escolhidos eram marcados na porta com as letras PR, iniciais de Príncipe Regente, que imediatamente a população começou a interpretar como "Ponha-se na Rua".
Em 1808, a cidade que acolheu a família real portuguesa era uma esquina do mundo, na qual praticamente todos os navios que partiam da Europa e dos Estados Unidos paravam antes de seguir para a Ásia, a África e as terras recém-descobertas do Pacífico Sul. Protegidas do vento e das tempestades pelas montanhas, as águas calmas da Baía de Guanabara serviam como abrigo ideal para reparo das embarcações e reabastecimento de água potável, charque, açúcar, cachaça, tabaco e lenha. "Nenhum porto colonial do mundo está tão bem localizado para o comércio geral quanto o do Rio de Janeiro", ponderou o viajante inglês John Mawe. Os relatos da época falam de uma cidade exótica e quase africana, com dois terços da população formados por negros, mestiços e mulatos, dominada pela exuberância da natureza. "Igrejas, mosteiros, fortes e casas de campo, faiscantes de brancura, coroam cada colina e enfeitam as fraldas das suas alturas simétricas e caprichosas, enquanto que, fazendo fundo, uma cortina de mata a tudo ensombra", anotou o comerciante inglês John Luccock ao chegar ao Rio de Janeiro em junho de 1808, três meses depois da corte.
Começava ali o mais notável período de transformações no Rio de Janeiro. Entre 1808 e 1821, a área urbana triplicou com a criação de novos bairros e freguesias. A população dobrou, e o número de escravos triplicou, de 12 mil para 36 182. O tráfego de animais e carruagens ficou tão intenso que foi preciso criar leis e regulamentos para discipliná-lo. A Rua Direita (atual 1o de Março) tornou-se, a partir de 1824, a primeira a ter numeração e trânsito organizado pelo sistema de mão e contramão. Graças à abertura dos portos e ao contato com os estrangeiros, os hábitos dos cariocas se sofisticaram. Em 1816, a chegada da missão artística francesa, que incluía o famoso pintor Jean-Baptiste Debret, transformou a cidade na capital da arte e da cultura do Brasil - condição que, de certa forma, mantém até hoje, rivalizando apenas com São Paulo.
Visitar o Rio de Janeiro de D. João exige alguns cuidados com a segurança. Boa parte dos antigos monumentos históricos está situada em áreas perigosas, rodeadas de favelas - como é o caso do Palácio de São Cristóvão. No centro da cidade os passeios são mais seguros durante a semana, no horário comercial, quando a região é bastante movimentada. Aos sábados e domingos, prefira andar em grupo, de preferência na companhia de um guia turístico especializado. "Deixe os documentos no hotel, ande com pouco dinheiro no bolso, esconda a máquina fotográfica e fique muito atento", recomenda Liana Siag, guia especializada nesse tipo de roteiro.
Uma ironia é que, já na época da corte, o Rio de Janeiro era uma cidade violenta. A maioria da população andava armada. O cônsul inglês James Henderson surpreendeu-se com o número de pessoas que portavam facas escondidas nas mangas de seus capotes, "as quais tiram e usam com grande destreza". Pouca gente se arriscava a sair desacompanhada à rua depois do anoitecer. Pedradas disparadas ao acaso eram um tipo de agressão muito comum - o equivalente às balas perdidas de hoje. A mulher do embaixador americano Thomas Sumpter foi atingida por uma pedra no olho enquanto estava dentro de sua carruagem na Rua do Ouvidor. Num outro caso, durante um concerto no Teatro São João, uma pedra certeira atingiu o ator Manuel Alves, pondo fim ao espetáculo.
É uma prova de que, pelo menos nesse aspecto, não houve grandes mudanças nos últimos 200 anos.
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