Tambaba é linda, com formações rochosas e piscinas naturais. No calor, daria vontade de ficar pelada. (Eu disse vontade, não coragem.) Tambaba é protegida por árvores de grande porte e falésias. Mas o que a diferencia é ela ter sido a primeira do Nordeste liberada para nudismo (os pessoenses e praticantes oficiais gostam de chamar de naturismo).
Os nativos que freqüentam as areias de Tambaba ficavam peladões bem antes de o termo ser ofi cializado, em 1989. Seu Tonho Salvador, de 58 anos, é um desses. O pessoense gente boa me deixou tirar uma foto dele desde que fosse "do umbigo para cima porque tá muito frio". Foi ele quem me confirmou a lenda local, que teria originado o nome da praia.
Contou seu Tonho, peladão, que Tambaba era o nome de uma índia que tinha sido oferecida em sacrifício ao deus do mar. A índia fugiu, o mar se enfureceu, e aí foi aquela confusão toda. Eu não sei se acredito, porque o mar de Tambaba, além de morno, é calminho, calminho.
Eu queria ver o que aconteceria se a Federação Brasileira de Naturismo (FBN) ou os representantes da Sociedade Naturista de Tambaba (Sonata) ouvissem meu guia, Carlos, perguntar a um amigo na entrada: "Tem mulher bonita lá hoje?" Por causa de machistas como Carlos, existe um código de ética em Tambaba que não permite a entrada de homens desacompanhados no lado naturista da praia.
Tambaba se divide em duas partes. Uma de piscinas naturais quentinhas, onde você pode ficar sossegado com todas as vestimentas que desejar, e a outra, escondida, para os pelados vivenciarem com privacidade o seu naturismo.
Entre um lado e outro existe uma portinha controlada por uma menina bonita que não permite, em hipótese alguma, que você faça a travessia sem antes garantir que, quando chegar ao outro lado, vai estar nua em pêlo.
Se eu quisesse conhecer o outro lado da vida, ou melhor, da praia, teria de ser como vim ao mundo. Meu lado desavergonhado mostra a língua para meu lado puritano, que solta um "tá bom, vai, eu fico pelada".
E, antes que meu superego pudesse impedi-lo, eu já estava no finzinho da trilha com tudo na mão: máquina fotográfica, saia, chinelo e biquíni.
"Quando tiramos a roupa, tiramos também a falsa simbologia das posturas e do status da vida cotidiana" - era o que estava escrito numa plaquinha do quiosquebar da praia. Deixei meus pertences embaixo de uma árvore e comecei a caminhar. Cada vez que olhava para baixo e me via exatamente como me vejo na hora do banho, eu queria gritar, me esconder dentro do mar ou ligar para alguma amiga e rir sem parar durante umas duas horas. O vento ensurdecia os fantasmas neuróticos da minha cabeça e me ajudava a ignorar, em alguns momentos, aquela nua realidade.
Consegui relaxar quando percebi que todos os pelados presentes estavam pouco ligando para a minha nudez (e olha que eu até que sou mais ou menos). Estavam lá para nadar pelados, curtir a tarde despudoradamente, tomar sol sem ficar com marca de biquíni. Esse era o clima. E, de verdade, nenhum pensamento impróprio veio à minha cabeça. Meu corpo, minha mente e meu lado puritano estavam tomados por aquela sensação incrível de liberdade. O lado desavergonhado vibrava: eu estava pelada e entregue, longe de tudo e de todos, numa praia maravilhosa.
Fiquei por ali todo o tempo que quis. O mar estava quentinho e a areia é plana, perfeita para andar à toa.
Fui embora quando, confesso, senti saudades daquele tecidinho em contato com o meu corpo. Quando cheguei ao hotel, passei duas horas e meia no telefone, ligando para todo mundo e contando a minha emocionante experiência naturista.
Amiga, você não sabe...
Pela primeira vez, eu saí do mar sem me preocupar em arrumar o biquíni.
O CLIMA Liberdade compulsória
O REFRESCO Nadar como se veio ao mundo
ESCALA SELVAGEM 75%. Há um quiosque-bar e outros poucos peladões na praia
AVALIAÇÃO Muita areia para seu caminhãozinho
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