Embalado pela música do Rei, tento manter minha cabeça longe do teto da cabine a cada sacudida da picape. Estamos indo na direção da Cachoeira do Prata, uma das principais atrações do parque. Ao longo da estradinha, vamos passando por uma ou outra casa, algumas delas de pau-a-pique. Como não foram indenizados, muitos moradores ainda ocupam áreas demarcadas. É o caso de Pedro Carneiro, nascido e criado junto à queda-d'água. Ele e a família servem refeições aos turistas. "Ainda vem pouca gente por causa da distância", diz Carneiro. Ele também opera a balsa improvisada que atravessa o Rio Farinha e dá acesso à parte baixa da cachoeira. O risco compensa: depois de uma trilha curta, chega-se a uma prainha de areia branca, de frente para as quedas. Um lugar bacana para nadar, recuperar as forças e acalentar a fome para depois encarar a galinha ensopada servida pela família Carneiro. Após o almoço, o programa é visitar outra grande cachoeira do parque, a de São Romão. Antes, no entanto, vale um pulo no Morro das Figuras, perto da Queda do Prata. É um paredão todo esculpido por povos que habitaram a região. As formações rochosas também abrigam diversas espécies de pássaros - não é raro topar com tucanos ou araras. De volta à estrada, chacoalha-se mais um pouco até a Queda de São Romão. O volume de água é muito grande, e também há uma prainha gostosa para nadar. Os mais corajosos entram por trás da cortina d'água da queda, em uma espécie de gruta formada na pedra. Um programa que só deve ser feito com um guia.
No dia seguinte, mais estrada. Dessa vez fora do parque, e com uma trilha sonora diferente. O paranaense Vilmar Lieber, nosso guia, é um dos muitos que vieram para o Norte para tentar uma vida melhor. Em vez de apostar na soja, que a cada dia invade mais e mais áreas de cerrado, ele investiu no turismo. No toca-discos da Land Rover de Lieber gira um CD de rock rural. É com ele que vencemos os mais de 100 quilômetros de asfalto precário - e cheio de caminhões - até o município de Riachão. Depois, mais alguns quilômetros de terra levam à primeira das atrações locais. "Nós chamamos de Encanto Azul, e você vai perceber por quê", diz Lieber. Não é difícil. Depois de uma caminhada média ribanceira abaixo, chega-se a um lugar inusitado onde um pequeno lago de água azul é cercado por enormes paredões de pedra vermelha. Mas o principal encanto está abaixo da superfície. Com máscara e snorkel, podem-se explorar os quase 6 metros de profundidade do lago de água translúcida habitado por piaus, lambaris, cascudos e até um pequeno jacaré.
Ribanceira acima, chega-se ao complexo do Lago Azul, mais movimentado. Uma pequena cachoeira forma um poço de águas claras que atrai muita gente da região no fim de semana. Dali, outra trilha leva à queda mais alta dos arredores, a de Santa Bárbara. São 70 metros de queda e um belo poço verde-esmeralda.
Para compensar os dois dias com longos trechos de estrada, decidimos visitar as atrações mais próximas de Carolina, começando pelo Rio Tocantins. As praias aparecem sempre no meio do ano e se mantêm até janeiro. Para chegar à mais popular delas, com barracas até dentro d'água, basta pegar a balsa que atravessa para o lado do Tocantins. A trilha sonora? Muito brega paraense e algum forró. Mas o barato mesmo é alugar um barquinho e conhecer a Ilha dos Botes, a meia hora da cidade. Ali, em julho, ocorre uma rave gigante, o Festival Fora do Tempo. Durante alguns dias, a praia sossegada de areia branca se transforma, invadida pela música eletrônica, numa mistura muito louca de natureza bruta com agito cosmopolita.
Outras atrações próximas da cidade (e por isso mais concorridas nos fins de semana) são as cachoeiras da Caverna e do Capelão. É preciso encarar um pequeno trecho de estrada de areia. São quedas pequenas, em cenário que parece saído de um quadro impressionista, com muitas bromélias e orquídeas agarradas aos troncos úmidos na mata que cerca as cachoeiras. Na volta, aproveitando o fim de tarde, uma parada no portal da chapada, uma atração de acesso bem fácil, junto da estrada de asfalto. Basta subir por uma trilha até o alto do morro, onde há uma abertura na rocha. Dali, pode-se enxergar boa parte da área do parque, com diversas formações rochosas, incluindo a mais famosa delas, o Morro do Chapéu. O nascer do dia também é um bom horário, principalmente para fotos.
Antes de ir embora, vale uma última visita, que pode ser feita até mesmo numa manhã: a Cachoeira do Santuário. Fica a poucos quilômetros da cidade, pelo asfalto, e é freqüentada por hordas de turistas da região que chegam nos fins de semana em ônibus de excursão. Parece uma tremenda roubada se o que você procura é natureza selvagem. Mas o cenário inusitado encanta mesmo quem não tem paciência com o próximo. Descendo uma escadaria de madeira, chega-se a um paredão de pedra onde começa um pequeno cânion. É preciso caminhar por dentro d'água um bom trecho, até a entrada de uma espécie de gruta. Do portal já se pode sentir o spray de água de uma enorme cachoeira que despenca de uma clarabóia no alto da caverna. O poço é raso, e dá até para nadar. Mas você precisará guardar a cena na memória. Se tentar usar a câmera, ela certamente vai levar um bom banho.
Comparada com outros parques nacionais, a Chapada das Mesas ainda carece bastante de estrutura. A área mal foi demarcada e o Ibama luta contra as queimadas criminosas na época de seca. Na cidade, três agências fazem os passeios em carros 4x4, e há apenas pousadas simples, sem grandes luxos. Mas conhecer um destino ainda em estado bruto tem seu charme. Vale o sacrifício de viajar para o coração do Brasil. E ainda cantar com o Rei, em alto e bom som: "Eeeeu seeei,/todo dia nessa estrada..."
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